Trigger Warning!


Texto: Lara Matos // Arte: Gabriela Amorim

[O conteúdo deste post pode ser perturbador para algumas pessoas. Cardíacos, crianças e pessoas de estômago sensível: prossigam por sua conta e risco!]

Enclausurado (ing. Nutshell), novo livro de Ian Mcewan, provocou opiniões iradas ao ser resenhado (com muita má-fé, diga-se) por um jornal de amplo alcance no país. Muitos se horrorizaram e passaram a xingar o autor, cuja obra sequer conheciam e compreendiam, de, adivinhem, comunista. McEwan tem quase todos os seus livros situados nesta zona de desconforto de sentimentos e ações (vide Reparação, o mais conhecido) que passam longe do lado nobre do ser humano, e consegue fazer isso quase sempre com uma qualidade literária elevada.

Um texto que procura meramente o choque e o desconforto não é o que se pode chamar de literário. Mas também o que só permite o afago com o lado confortável com a natureza humana é igualmente desprezível. Essa identificação envergonhada e desconfortável é o que faz a boa literatura. O fio desencapado do sentimento exposto.

Pessoalmente, sempre encarei ficção como um manual da vida. Ou seja, melhor ler algo que me deixe uns dias reflexiva e impactada como treino para uma realidade análoga. Compreendo a necessidade dos avisos de trigger warning, porque nem sempre você está com a psique balanceada o suficiente para ler sobre alguns temas, mas vejo que não é uma questão de não ler e banir a obra da sua vida, e sim de adiá-la para um momento posterior mais favorável.

O excelente Luzes de Emergência se Acenderão Automaticamente, da Luisa Geisler,  foi postergado por mim durante um período em que havia alguém muito amado nas mesmas circunstâncias que um dos protagonistas. Feridas fechadas pelo tempo, e lá fui eu fazer com uma das leituras mais prazerosas desse ano.

Os trigger warnings (alertas de risco/gatilho) não são frescura e servem para resguardar o estado mental de quem está vulnerável àquele tema por algum motivo. Óbvio que exageros têm surgido, às vezes com fatos e termos de banalidade assustadora que sequer causam impacto em crianças. Algumas pessoas tentam ignorar suas emoções e sensações ruins usando o alerta de risco indiscriminadamente. Esquecem que é preciso, sim, aprender a lidar com sentimentos de desconforto, dor, medo e frustração. Negar-se a fazer isso, mesmo que na leitura de ficção, é de uma falta de maturidade absurda, pois uma vez em que até o simulacro do desagrado é abolido da vida, há um despreparo ainda maior para lidar com sentimentos “reais”.

Nada que é ignorado e posto embaixo do tapete deixa de vir à tona, então é melhor experimentar as doses cabíveis de angústia à medida em que chegam, para que se possa ficar forte aos poucos e assim superar o tema delicado: é como ir aumentando os pesos durante um treino de musculação.

Meu primeiro grande livro impactante foi de Marguerite Duras, em um livro curto sobre a experiência do retorno à casa e recuperação de seu marido Robert L. (pseudônimo), após ser capturado durante a Segunda Guerra Mundial e ser mandado para um campo de concentração. Ao retornar para Paris, o homem de mais de 1,80m pesava aproximadamente 38 quilos, lhe faltavam dentes e os pelos rareavam.

O desespero de Robert por não poder controlar o corpo muito debilitado para realizar funções simples é descrito nas linhas de Duras observadora, que narra, por exemplo, o momento em que seu marido vai às lágrimas por querer desfrutar de uma refeição e não poder, porque seu estômago ainda estava muito frágil para sólidos e ele morreria.

A pungência desse retrato me faz pensar em como o depois de eventos traumáticos é ignorado ou tratado de maneira simplória na maioria das expressões artísticas. No máximo são mencionados pesadelos, agressividade e estresse pós-traumático. Mas a dimensão da angústia é muito, muito maior e muitas vezes somos poupados disso.

No entanto, alguns livros não nos aliviam de sentir essa angústia e nos causam reflexão, tristeza e nos prendem a respiração por algumas passagens. Mas graças a eles podemos, com um esforço de imaginação, aprender a ter mais empatia e explorar a complexidade do ser humano, mesmo que com pausas para leituras mais felizes. Afinal, o que a vida quer da gente é coragem. Se ela puder ser irada da ficção, tanto melhor. Tenho livros que me causaram impressões muito fortes depois de seu término, e alguns ainda nem cheguei a finalizar. Aqui, uma lista breve de obras impactantes:

 

Amada, Tony Morrison: Sethe é uma escrava que foge de seus senhores cruéis e na iminência de ser recapturada com seus quatro filhos, comete um ato de desespero terrível, que a assombra até sua morte. Este livro foi banido nos EUA por tratar de temas como racismo e traumas da escravidão, e contém uma carga emocional muito forte porque fala de violência e desumanização de maneira quase sinestésica. Você chega a sentir um chicote gravando uma árvore em suas costas e um serrote cego cortando seu pescoço pelas descrições da escritora. E ainda: o medo que os filhos de Sethe sentem da mãe é tão instintivo, mas ao mesmo tempo tão injusto, que é impossível não pensar sobre isso com muito pesar. Foi uma leitura muito carregada de emoções, mas que valeu cada linha.

A Desumanização, Valter Hugo Mãe: Este livro é ambientado na Islândia, mas poderia situar-se em qualquer lugar do mundo, tendo, aliás, uma temática brasileiríssima. Apesar de ser tratado com muito lirismo, a tristeza e os traumas pelos quais Halla passa ao longo de sua curta vida contribuem para a grandeza e violência de seu ato final. Luto, negligência parental, abusos sexuais justificam a deterioração do comportamento e mesmo do estado mental da personagem. Também indico para aquelas pessoas que não entendem como se “forma” um menor infrator. Traumas, violências e negligências são alguns dos ingredientes da “receita”.

A Escolha de Sofia, William Styron: Livro famoso por ter virado filme com Meryl Streep, começa de uma forma até leve descrevendo as incursões de um Stingo recém-chegado ao Brooklyn. Ao conhecer uma hóspede na pensão de paredes cor-de-rosa em que passa a residir, o protagonista tem contato com Sofia, sobrevivente da Segunda Guerra Mundial cuja história secreta é ainda mais sombria do que esperamos. Se a América do pós Segunda Guerra simboliza recomeços, não para essa mulher, que se vê em um relacionamento terrivelmente problemático e abusivo com Nathan Landau. Ele é um farmacêutico (pelo que entendi, tem esquizofrenia, mas não é deixado claro qual o problema de saúde do personagem) que não faz tratamento adequado para seu transtorno e que submete Sofia a toda sorte de degradação durante suas crises. Meu sentimento ao ler foi que Sofia, após ter que realizar a escolha-título do livro, passou a pensar que todo sofrimento e penalização seria pouco ou que na vida só lhe restariam breves respiros de felicidade.

A Redoma de vidro, Sylvia Plath: Só comecei a entender o que estava acontecendo com a minha cabeça na adolescência após ler este livro que descreve a experiência de Esther Greenwood lidando com o que na época era denominada “psicose maníaco-depressiva” (atualmente trastorno bipolar), uma doença que pode tornar o paciente extremamente violento contra si mesmo e outras pessoas. “’She wants everything’, said Jay Lee” é uma das frases do livro que me faz pensar, chorar e me angustiar bastante porque é isso mesmo: a sensação de querer tudo mas não poder por vezes ser alguém meramente funcional. Mas o final do livro lança uma esperança, ainda que sutil: o melhor da história sempre está no porvir.

Cadernos de um Ausente, João A. Carrascoza: Um ponto que me sensibiliza bastante é relacionamento entre pais e filhos. Lágrimas e desgraçamento na cabeça suficientes por semanas. Meus pais, assim como o narrador destes escritos, só já maduros tiveram filhos e isso gerou em mim uma necessidade inconsciente de ser perfeita para eles e não desapontá-los (muito negativa), pois eu e minha irmã só nascemos após muito esforço e sacrifício, principalmente da minha mãe. Além da sensação que acompanhar o envelhecimento evidente dos pais dá, aquele memento mori pairando no ar, isso tudo gerou uma vontade em mim de amar melhor e de aparar todas as arestas nos momentos em que elas surgem (estas sim, muito positivas).

Nascer em um ponto da vida de seus pais em que é um pouco complicado conhecê-los de fato (os amigos deles estão longe ou já começam a morrer, as memórias da juventude cada vez mais esparsas) gera a necessidade de resgatar esse universo de lembranças com esmero. Por isso compreendi tão profundamente o desejo do autor de escrever sua vida para Bia, sua filha, ainda um bebê. Pois só quando somos adultos surge o interesse de descobrir quem são essas pessoas além de nossos pais. Os meus, ainda bem, são e continuam sendo extraordinários. E ainda que não fossem, são parte de quem eu sou.

Mentirosos, E. Lockhart: Uma família repleta de esqueletos (literais) no armário é o tema deste romance, que tem um dos melhores plot twists dos últimos tempos. Se alguns leitores acham que as repetições de Cathy são cansativas e desnecessárias, achei que termos como “Gath, my Gath”, só aumentam o impacto da revelação final e demonstram os efeitos mais catastróficos de uma educação por convicções equivocadas.

O Jardim de Cimento, Ian McEwan: Olha ele aqui outra vez. Esse livro é Gummo meets O Senhor das Moscas, e muita gente o considera extremamente perturbador pelo conteúdo bizarro com flertes pelo incesto e tortura psicológica. Bem, é ficção e boa ficção, e acho que nada melhor do que isto para demonstrar porque adolescentes precisam sim, até mais do que crianças, de supervisão e orientação.

O Tambor, Günter Grass: Perturbador em muitos sentidos (incesto, abuso psicológico, violência), este livro dá uma nova dimensão à noção de identidade de uma porção de poloneses que sempre viveu à mercê das ocupações alemãs, algo que também é tratado por alto em A Escolha de Sofia, quando a personagem-título descreve sua vida na Polônia recém-anexada. E isto é feito com uma chamada aos costumes e à vida incomum de Oscar, que decidiu parar de crescer aos 3 anos de idade, e que na verdade é filho de seu tio Jan, e não do pai que julgava ter. Ainda me arrepia os pelos da nuca a lembrança da pescaria de enguias que certo dia seu pai resolveu fazer, usando para isso a cabeça de um jumento semidecomposta. Então, né.

Vozes de Tchernóbil, Slavetana Alexeivitch: Meu último livro difícil. Comecei em agosto, e venho fazendo pausas para que o conteúdo das entrevistas não me afete tanto. As consequências no fator humano do desastre-o abandono, o luto quase permanente, o deserto que se formou em parte de Belarus são desoladores, mas tudo é tão bem conduzido que você deseja saber mais, com um desejo que vai além da curiosidade mórbida para as tragédias, como se dos olhos leitores pudesse sair um abraço para cada uma das pessoas atingidas.

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.