Transporte Público


Texto: Priscilla Binato

O meu Rio de Janeiro não é mais o mesmo sem você.

O caminho que peguei era o mesmo que nós sempre pegávamos juntos. Porém, ao invés de sair do nosso ponto de encontro na Graça Aranha, eu comecei o trajeto na Rio Branco. Eram algumas ruas de diferença, mas faziam uma mudança dentro de mim. Uma percepção diferente, uma quebra de ambientação. Um início de desconhecimento. O trajeto era igual, e cada paisagem que passava pela minha frente lembrava você. O jeito como virávamos para entrar no Aterro, sempre comigo tendo que me segurar em você para que não caísse com o movimento brusco. A maneira como as rodas torneavam o caminho, abrindo espaço pelas longas vias e mostrando a paisagem.

O Pão de Açúcar, a enseada de Botafogo, a Baía de Guanabara, a Urca bem de longe. Um aperto no peito de olhar todos esses pontos e lembrar: Não está mais aqui. Você não está. Foi retirado, tão violentamente quanto em um arrombo.

O caminho continuava, pelo Túnel do Pasmado e seguindo na Lauro Sodré. Ter que descer do ônibus ali me dava uma pontada no peito, um sentimento de falta latente. Saltar do transporte para pegar o segundo, um trajeto tão pequeno e tão mutável do que nós fazíamos antes. Minhas lembranças desvanecem. Se destróem, se quebram em si mesmas, sem pudor. Pego o outro transporte e continuo o caminho, este também seguindo o nosso caminho. Todos os ônibus que procuro pegar seguem o nosso trajeto, o espaço que nós tínhamos narrado como conjunto do nosso caso. O ônibus demora para sair e eu observo o banco ao meu lado. Nem o padrão do banco é mais como era quando você estava aqui.

Outro túnel e estamos em Copacabana, na avenida da princesa. Uma virada brusca na Atlântica e eu me segurava na barra amarela para conseguir me manter sentada no banco desenhado. A praia de não era mais a mesma sem você, não tinha mais as mesmas cores sem os vidros meio embaçados que sempre nos cercavam. Agora, vidros abertos nos davam mais cores, mais visão da praia, mas não era o que eu queria. Eu queria seus vidros embaçados, o frio que eles colocavam dentro do vagão, queria sentir meus dentes tremendo com força. Mas isso não havia mais, só em alguns ônibus da linha.

Continuava o meu caminho, virando no Arpoador e entrando em Ipanema. Em seguida, Leblon. Nosso caminho seguia, passando por todas aquelas praias, o vento salgado entrando pela janela e tirando minhas lembranças pelo ar. O meu ônibus, você, os dois tinham ido embora. Não havia por que se sentir mal. Existiam outros ônibus, outras linhas, outros espaços para conquistar uma cidade. Só que o meu 332, meu Taquara x Castelo não seria mais.

Compartilhe:

priscillabinato@gmail.com'

Sobre Priscilla Binato

Uma carioca de coração, 21 anos completos em janeiro e gateira como profissão (ou ao menos um sonho). Estudo jornalismo e estou quase me formando, mas tenho aspiração de escrever como profissão. Detesto sushi, pizza, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e muita coisa que todo mundo acha legal, to nem aqui. Sou lufana de coração e de alma, 100%, além de feminista, assexual e chata do rolê.