Traduções perdidas: 18 livros que merecem ser (re)editados no Brasil


Texto: Lara Matos

Em Budapeste, romance de Chico Buarque, o protagonista aprende a “única língua que o diabo respeita”, e após ter razoável domínio desta, escreve um livro de poemas em um húngaro “belo, porém sem alma”, segundo os críticos, parecendo de um estrangeiro, como de fato era. Escrever em outra língua que não a materna é difícil pelas particularidades (morfologia, gramática, pontuação) que dão sua forma familiar, mas até o colóquio da mesma linguagem, que muda de uma país ou até de uma cidade a outra, pode complicar o processo de acerto de ritmos. Por sua vez, a leitura em língua estrangeira também pode ser uma tarefa intricada e minuciosa de acordo com o estilo e particularidades de cada autor. Penso, por exemplo, como deve parecer peculiar a um não falante de português a prosa de Saramago, cujas vírgulas numerosas usurpam os pontos finais, que deve ser mantida nas traduções por marcar o estilo de autor.

O primeiro livro que li em outra língua foi ‘It’s Kind of a Funny Story’, de Ned Vizzini, em 2008. O resumo me interessou bastante e achei que poderia ler sem maiores problemas. Deu certo e após algumas consultas a dicionários de inglês e muitas ao Urban Dictionary em razão das inúmeras gírias, estava apaixonada pela trama de Craig e com o vocabulário em inglês bem mais aprimorado.

Os últimos volumes cujas traduções não consegui aguardar foram Blue Lily, Lily Blue (publicado no Brasil em 2015 como “Lírio Azul, Azul Lírio“) e The Raven King (lançamento previsto para outubro deste ano), ambos da tetralogia de sucesso os Garotos Corvos, de Maggie Stiefvater. Traduzir (cujo significado latino é precisamente ‘conduzir além’) de modo hábil e respeitando as particularidades do idioma nem sempre é possível, e pelas consultas que fiz das edições brasileiras, foi o caso da saga.

Há tanto imprecisões na própria tradução (Blue Lily, por exemplo, é uma canção que a filha de Glendower canta sobre sua própria descoberta em uma tumba, ao mesmo tempo em que faz uma profecia, no Brasil traduzida como Lírio Azul, quando o mais adequado pelo significado de “lírio azul” no idioma inglês seria algo como “triste flor”, referindo-se a Blue Sargent, ou ainda “triste triunfo”, citando o despertar da profetisa) quanto a ausência de notas instrutivas. Fiz uma tradução livre para dar uma ideia de como ficaria a canção entoada pela filha desperta de Owain Glendower (preservando a musicalidade):bluelilysong

“Reis e rainhas,

Rainhas e reis,

lírio azul, triste flor

entre coroas e pássaros,

espadas e adornos:

lírio azul, triste flor!”

 

Também percebi a ausência de notas que ajudariam a compreender a história (sobre as principais crenças sobre as linhas de ley, que são cruciais para compreender a história). Faltou explicar sobre a sacralização do dia de São Marcos para os videntes (devido sua qualidade de intérprete nas peregrinações apostólicas e acolhedor de Jesus reencarnado), que não é muito adotada aqui no Brasil.

Lia Wyler, tradutora pra o português brasileiro dos livros de Harry Potter, também acumula muitos elogios e críticas. Alguns são terminantemente revoltados com a modificação dos nomes próprios na tradução (uncle Vernon: tio Válter; Dudley: Duda; Poppy Pomfrey: Papoula [literal] Pomfrey). Outros já acham muitas alterações oportunas, por exemplo o título As Relíquas da Morte, com um duplo sentido genial que não existe no inglês. Porém muitos (inclusive eu) preferiram ler a obra no inglês original para sentir mais a atmosfera tão inglesa de Hogwarts (curiosamente não traduzida por Lia literalmente como Verruga do Javali). A única grande discrepância que realmente me chamou a atenção na edição traduzida foi o traslado do nome da banda Weird Sisters como As Esquisitonas; ora, as Weird Sisters, clara referência a McBeth shakesperiano, eram três bruxas: um nome mais legal poderia ter sido posto para o maior sucesso musical do mundo bruxo.

Alguns livros são iguais Harry Potter: têm um apelo tão grande que não dá para esperar que eles cheguem traduzidos ou queremos captar mais da narrativa lendo em seu idioma original, então nos aventuramos na leitura em idioma estrangeiro. Nem sempre é fácil ou mesmo possível, entretanto. Mas há aqueles dos quais nos tornamos fãs e acompanhamos antes do lançamento nacional, aprimorando muito nossas línguas aprendidas nos cursinhos de idiomas e adquirindo conhecimentos sobre morfologia linguística e etimologia muito interessantes. Por exemplo, poder relacionar muitas palavras inglesas ao francês, que por ser uma língua latina é mais familiar para o entendimento. Falando nisso, nós da América latina e Ibéricos, somos mesmo bem difíceis de ler e traduzir, segundo leitores de outros países, por razões de “espírito peculiar”, pelos costumes e acentos de fala aplicados inclusive em nossa prosa. Para se ter ideia, Cem Anos de Solidão é tido como um dos livros de leitura mais desafiante, segundo várias listas.

Entretanto, a prosa estrangeira geralmente não se mostra tão problemática ou difícil quanto versos. Ler poemas fora do vernáculo é sempre um desafio, ao mesmo tempo em que no caso de alguns escritos me parece a única forma possível. Em português do Brasil, há o maravilhoso hábito de poetas consagrados traduzirem nomes estrangeiros, o que simplifica a leitura e nos torna mais seguros acerca do conteúdo. Um bom exemplo são as belas traduções para o português que Manuel Bandeira fez de Christina Rossetti, Emily Dickinson e Paul Verlaine. Um salve às edições bilíngues, também, que nos situam nas métricas e adaptações silabares. A contrapartida também é verdadeira: Angélica Freitas e sua tradutora, Hilary Kaplan ganharam o Pen Award de Poesia deste ano, que contempla as melhores traduções para o inglês.

Muitos bons escritores estrangeiros, entretanto, ganham traduções medíocres para o inglês e só a partir delas são convertidas para a língua portuguesa, perdendo muito valor linguístico nisso. Isto ocorre principalmente com autores que escrevem em dialetos ou não são conhecidos do grande público, e assim têm suas palavras tratadas com desleixo.

Contudo, até grandes clássicos podem passar por isso. Antes de ser publicada em boa edição nos anos 2000, sobre Ulysses, de Joyce, falava-se muito sobre uma das traduções anteriores. Ela ignorava adaptações idiomáticas, de fato nem sempre possíveis, mas que também não continha as notas de tradutor e/ou editor necessárias para um bom entendimento.

Conseguir ler fora do vernáculo encerra muitas possibilidades de crescimento cultural, de conhecimento de novos costumes até o aprendizado de receitas. Muitos livros que aparecem em shortlists de grandes prêmios nunca chegam traduzidos ao Brasil ou demoram bastante, e mais uma vez a curiosidade por uma boa história conduz a ter um pouquinho mais de trabalho decifrando palavras outrora estranhas.

Traslados Necessários

Há livros que quero partilhar com amigos mas que não têm tradução no Brasil. Nem todo mundo consegue ler em outro idioma ou mesmo ter acesso a livros e ebooks importados (por exemplo, no português de países lusófonos, que são cobrados em euro). Por isso fiz uma listinha de algumas obras que já passaram da hora de serem (re)editadas por aqui:

Tem tradução para o português, mas as edições são muito antigas/difíceis de encontrar ou mesmo aquém da qualidade do livro:

Histórias de Uma Cidade, Armistead Maupin: indicação da Ariel, esse livro é muito legal, tanto que me interessei assim que ela me mostrou (tem filme também!); mas a edição brasileira única estatá em comic sans. Não façam isso, é a maldade suprema com uma história tão legal sobre a cidade de São Francisco

Me Talk Pretty One Day, (em pt. Eu Falar Bonito um Dia), David Sedaris: esse livro é um clássico contemporâneo e tinha que existir sempre disponível, mas informo a vocês que ele é raro e bem salgadinho nos sebos. Um dos poucos que me fez gargalhar, vale demais a leitura.

Antiguinha, né?

Antiguinha, né?

O Apanhador no Campo de Centeio, J. D. Salinger: Um clássico supremo que não ganha edição faz tempo. Uma pena, porque todos os jovens deveriam poder aproveitar essa leitura de romance de formação.

O Planeta do Sr. Sammler, Saul Bellow: saiu pela Abril Cultural por volta dos anos 80 e depois nunca mais. Esse relato de um homem atormentado pelas lembranças de guerra é um livro indispensável sobre os meandros da natureza humana, e um dos melhores títulos de Bellow.

De propósito, não separei os YA’s dos thrillers e da “literatura séria” e etc. para esta lista de traduções brasileiras necessárias porém inéditas; está tudo no mesmo balaio porque livro bom é bom não tem essas frescuras:

thackerylambsheadvandermeerAlmanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas, Jeff Vandemeer e Mark Roberts: Tem edição portuguesa pela Saída de Emergência (2010), mas é uma raridade, apesar de ter sido nomeado para o Hugo Awards. O volume lusitano inclusive conta com o fascinante Compêndio Médico Calamar Trindade de Doenças Notáveis e Invulgares. Como se pode deduzir, é um livro de relatos de doenças fantasiosas elaborado por diversos autores, como Alan Moore, China Miéville e Neil Gaiman. Semelhante ao real O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu, de Oliver Sacks, esse livro garante diversão na certa, ao menos os pequenos trechos a que tive acesso e que atiçaram bastante minha curiosidade, como a Cegueira Uxória, em que um cônjuge torna-se cego apenas à visão do respectivo parceiro.

 

Barbara the Slut and Other Stories, Lauren Holmes: é bem recente, de 2014, mas é um dos melhores livros de contos dos últimos tempos, de devorar mesmo, daqueles em que todos os contos são interdependentes mas fazem sentidos sozinhos também!

Bastard out of Carolina, Dorothy Allison: um clássico sulista americano que relata a vida de brancos pobres na Carolina do Norte, este livro de Dorothy Allison nunca foi publicado por aqui, e parece também não ter edição portuguesa. Resenhei minha leitura deste livro aqui ano passado, na edição sobre Infância.

Beauty Queens, Libba Bray: a autora da saga de Gemma Doyle merecia muito mais atenção aqui no Brasil, mas fora a trilogia GD, só temos Louco aos Poucos, livro hilário sobre Cameron, que contrai o mal da Vaca Louca na rede de fast food em que trabalha. Beauty Queens é um “Senhor das Moscas” softcore com Misses Teen: garotas de quase todos os estados dos EUA escapam de um desastre de avião e têm que aprender a sobreviver em uma ilha remota. Ah, e The Diviners (era do jazz e misticismo) também nunca deu as caras por aqui, apesar de ser um enorme sucesso.

Books of Faerie, Maggie Stiefvater: nunca saiu aqui, e é uma pena não poder ler em português a Maggie falando de fadas; na Corrida de Escorpião ela já flertou de leve com o tema (Puck, apelido da personagem principal, é um conhecido e brincalhão ente feérico) e aqui ela desenvolve um romance que respeita a mitologia das fadas e ao mesmo tempo é super criativa.

Boy, Snow, Bird, Helen Oyeyemi: Helen é uma escritora de tanto destaque no exterior que não entendo mesmo o fato de ela nunca ter sido editada aqui. Além desse título, The Fantastic Mr. Fox, completamente diferente de BSB merece muito destaque.

Dare Me, Megan Abbott: Cheerleaders. Acrobacias. High School status. Assassinato. GENTE POR QUE dare meNUNCA CHEGOU TRADUÇÃO AQUI??????? Sério, é um dos melhores thrillers que já li, alô editoras, principalmente a Intrínseca, que publicou A Febre, também da Abbott! O que me anima é que como vai virar filme com Natalie Portman no elenco, talvez seja publicado em breve.

 

Dept. of Specullation, Jenny Offill: acho que como saiu Fates and Furies (Destinos e Fúrias) da Lauren Groff de plot muito similar ao desse livro (que ainda bem a Intrínseca publicou, já achava que Fates and Furies, o livro que Obama estava lendo durante suas férias não fosse sair no Brasil), pode ser que esse maravilhoso saia por aqui. Casamento, suspeitas, tensão; desde Garota Exemplar de Gilian Flynn que queremos mais e mais enredos assim. Luckiest Girl Alive, Jessica Knoll, está para sair também com o mesmo tema, que nos deixa ainda mais na expectativa por Dept. of Specullation.

Fuego, segundo volume de “o Círculo”, Mats Strandberg&Sara Bergmark: esse Clube das Sete é um YA sueco super bem emendado, mas a tradução do segundo e terceiro volumes parece que não vai mais sair por aqui. Aliás, é meio comum as editoras desistirem se sagas pela metade, o que é compreensível por motivos mercadológicos; mesmo assim, não deixo de lamentar.

Pretty Monsters e Magic for Begginers: saiu uma antologia da Kelly Link com contos destes dois livros pela Intrínseca, O Estranho Mundo de Zofia e Outras Histórias, mas eles mesmos, na íntegra, não. E se tem uma autora de fantasia que merece toda atenção, é Link.

Remember Mia, Alexandra Burt: livro que começa ótimo, mas vai perdendo o fôlego de suspense psicológico ao longo da trama arrastada sem necessidade; ainda assim vale muito a leitura.

Minha capa estrangeira favorita

Minha capa estrangeira favorita

The Basic Eight, Daniel Handler: a Flannery é a personagem odiosa que mais amo! Nunca vou entender ter saído “Por Isso que a Gente Acabou” , um livro bem ruinzinho (a Min é muito chata Jesus) do Daniel aqui e nunca terem editado TBE, que é tem uma trama cheia de reflexões feministas (que chega até a quase compensar algumas das idiotices que Handler tem falado por aí ultimamente).

The First Fifteen Lives of Harry August, Claire North: a Anica falou sobre ele e acho que depois da resenha dela nem tem muito a dizer, né. Só: editem.ele.aqui.pelo.amor.

Trilogia del Baztán, Dolores Redondo: Publicaram o primeiro livro por aqui já faz um tempo, e nada da tradução dos outros dois volumes, e olha que essa série é muito comparada à de Stieg Larsson, mas vou contar um segredinho pra vocês: para mim, não sei se pelo tempero latino e flerte com realismo fantástico, a saga de Amaia Salazar é muito melhor que o similar sueco.

Tão chegando, depois de uma longa espera:

Cloud Atlas, David Mitchell: Li em espanhol e essa ficção científica (sou resistente à leitura desse gênero) demorou para ser publicada. As irmãs Wachowsky fizeram um filme dele, ou seja, né, galera? EU amei esse livro, imagina só quem é fã mesmo do gênero. Saiu por aqui pela Companhia das Letras e já teve resenha na Pólen.

We Have Always Lived in the Castle, Shirley Jackson: apesar de ser dos anos 60, nunca vi edição traduzida (talvez haja, né); no entanto, há promessas de sua publicação em português brasileiro, que de Jackson só possui Assombração na Casa da Colina.

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carmenbavius@gmail.com'

Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de “realidade”: estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.