Trabalhar Cansa


Texto: Renan Bittencourt // Arte: Gabriela Schirmer Mauricio

Eu amava quando os professores não falavam de suas matérias na sala de aula. Na maior parte das vezes eram confissões engraçadas ou curiosas; mas de quando em quando vinha uma revelação. Como no dia em que o professor de química parou, virou, e nos disse: o trabalho é uma mentira. Choque. Como mentira? A gente não tá aqui justamente pra aprender um trabalho lá na frente? Não é esse o sentido de tudo? Vá lá que talvez não tenham sido essas as palavras exatas dele, mas a ideia era a mesma.

Pensando racionalmente, um trabalho na sociedade atual é um serviço que se presta e pelo qual se é compensado na forma de um salário. Ok? Ok. Mas esse serviço geralmente está ligado aos seus gostos e aptidões. Esse serviço que você vai prestar te custa uma preparação de anos. Dependendo de qual for, seu serviço te dá prestígio. Ele carrega marcas psicológicas.  Ele mostra quem você é. Ele se torna sua razão de ser. Ele é uma jaula tão eficaz que quando um desconhecido pergunta “O que você é?” entre os salgadinhos, respondemos instantaneamente “Psicólogo”, “Advogado”, “Editor” e engolimos uma bolinha de queijo sem pensar mais no assunto. Somos programados a nos moldar a um arquétipo quando confrontados com nossas essências. Afinal, nós não somos humanos, mas sim sexos e profissões, e isso é tudo o que importa ao mundo. O que eu faço é o que eu sou.

O que eu sou atualmente é uma revolução de tormentas profissionais, tão diversas que fica difícil enumerar. Não só eu, mas também meus amigos e muitas outras pessoas. Talvez todos nós tivéssemos que ter prestado mais atenção quando meu professor disse: o trabalho é uma mentira – porque acredito que o trabalho para muitos de nós era um sonho. Mais do que isso, o trabalho se tornou um propósito. Se tornou a própria vida. São os dois nortes que a sociedade te dá: o que você faz e quem você ama. Azar no jogo, sorte no amor. Ou vice-versa. Ou nenhum deles.

A grande questão é que fundir qualquer influência exterior com nossas essências humanas é algo muito perigoso. Apesar de um trabalho poder sim te levar a uma transformação interior, revelar novas perspectivas, e mesmo – ai, o delírio – mudar o mundo; ele é, primeiramente, uma tarefa. O agricultor medieval não buscava um propósito plantando beterraba, assim como nós não deveríamos buscar propósito ao trabalhar para uma multinacional. Talvez nem mesmo escrevendo, sabia? O sonho é o combustível para a realização, mas como tudo nessa vida, pode acabar se tornando um vício que nos aprisiona.

Não sei quanto aos outros da minha turma, mas aquelas palavras do professor me ajudaram muito mais na vida que os testes bimestrais de química. Aprendi que não somos diplomas, contracheques e prêmios – mas no que eles nos transformaram. Obrigado Serjão. Mesmo anos depois, a lição ainda vale.

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Sobre Renan Bittencourt

Aos 23 anos Renan já quis ser tenista profissional, monge cantor, e ditador prafrentex - mas decidiu escrever. Roteirista formado em Cinema, psicografa os futuros que não couberam na realidade. É aquariano, carioca, livreiro, vítima constante de crises imaginárias, e confeiteiro amador. Amante secreto de polêmicas, sua frase preferida é "Eu concordo com você, mas...".