Top 6 livros infantis (a partir de critérios misteriosos e arbitrários)


Falar de identidade é também falar de formação. É o caminho que trilhamos que nos constrói. Se não tivéssemos passado por alguns apertos, nunca teríamos aprendido determinadas lições; se não tivéssemos conhecido certas pessoas, nunca conheceríamos aqueles dizeres ou aquele jeito que fez com que outra forma de ver o mundo se descortinasse em nossa frente. É porque vivemos e estamos conscientes disso que somos. E se viver é estar em movimento, é criar estruturas das mais diversas formas, ser é necessariamente construir.

Cada história é um tijolo, uma viga, uma passada de cimento na construção de nós mesmos. A memória, nossa ilha de edição, são os pilares de quem somos. E, lá embaixo, na base fundamental do nosso ser, está nossa infância. Não é à toa que os psicólogos vão lá na infância buscar respostas para coisas que não entendemos de nós mesmos já crescidos. E não é à toa que é lá nessa nossa base que fica nosso arsenal mais secreto, nossas memórias mais queridas, os frutos de quem somos hoje em dia.

Anos atrás, minha mãe descobriu que a irmã de uma de minhas melhores amigas amava os livros que ela escrevia. A coleção da Macaca, a primeira de minha mãe, era a preferida dessa menina. Ela escondia os quatro livros em um cantinho secreto da biblioteca para que ela sempre os tivesse à mão, prontos para serem lidos. Quando minha mãe soube disso, ela me falou que aquilo era exatamente o que ela queria: estar num cantinho especial da infância. Estar nesse cantinho é participar da formação de alguém, mas sem aquele peso da educação que vem com a escola e com a família. Os livros de nossas infâncias são componentes divertidos da nossa formação, são pedacinhos descomprometidos de quem somos.

Pensando nisso, fiz essa lista dos top 6 livros infantis brasileiros (com critérios completamente arbitrários e inexplicáveis) que são pedacinhos de um montão de gente por aí! Em vez de explicar direitinho o que faz de cada livro um pedacinho do lugar quentinho dos nossos corações, achei mais pertinente as explicações serem com muitas exclamações e pouca articulação – porque é exatamente assim que agimos quando amamos muito coisas da nossa infância.

Vai a lista:

  1. A fada que tinha ideias; Fernanda Lopes de Almeida

A premissa com spoilers: todas as fadas têm que aprender mágica pelo Livro das Fadas, mas a fadinha de dez anos Clara Luz acha que o livro é chato e bolorento e decide fazer suas próprias mágicas. Ela zoa muito o livro todo. Mas é uma zoeira de boas, de quem está experimentando novas criações. Só que isso chega a um ponto em que ela é levada pra rainha das fadas e aí que entra a treta. A rainha quer provar pra Clara Luz que ela tá errada, mas aí a Clara Luz fica “não, miga”. Umas fadas desmaiam, a rainha pega o livro pra provar seu ponto, mas ele tem mesmo bolor. Mais fadas desmaiam e Clara Luz vira conselheira da rainha.

Por que é o melhor livro? Além da personagem principal ter o meu nome (sim, isso conta alguns pontos), estamos falando de uma fada de dez anos que vira conselheira da rainha porque não gosta de seguir regras. Precisa dizer mais alguma coisa? Pois é, não.

  1. Flicts; Ziraldo

A premissa com spoilers: Flicts é uma cor feia e sofre bullying das outras cores. Ela passa o livro inteiro tentando achar um lugar até que manda tudo aos ares (literalmente) E DESCOBRE QUE A LUA É FLICTS.

Por que é o melhor livro? Primeiro porque o projeto é experimental da onda construtivista dos anos 50, então é simplesmente esteticamente LYNDO. Tem muita cor, tem muita forma, tem muito amor. Não bastando ser esse colírio pros olhos, a mensagem final é basicamente: dane-se essa galera nada a ver, você sempre pertencerá a algum lugar e, cá entre nós, saber disso é sempre um abraço no coração.

Combo amor: depois de terminar o livro, tem um bilhetinho que o NEIL ARMSTRONG escreveu dizendo que a lua, de fato, é Flicts. E, sim, eu choro com isso toda vez. Vocês também vão.

  1. Ou isto ou aquilo; Cecília Meireles

A premissa com spoilers: São vários poemas, então não tem premissa, né.

Por que é o melhor livro? Apesar de eu não entender por que raios temos que escolher se usamos luvas ou anel (e se eu quiser usar os dois? E se eu quiser usar uma estética over?), não há como negar que é um clássico e que aprendemos a rimar Arabela com janela por causa desse livro.

  1. Diálogos interessantíssimos; Gilles Eduar

A premissa com spoilers: Um bando de diálogos surreais. APENAX.

Por que é o melhor livro? Nesse caso, acho melhor dar um exemplo de um dos diálogos, porque isso vai explicar melhor do que qualquer outra coisa:

“Triim… triim… triim…

– Au?

– Alô? É você, Rex?

– Au! Au!

– Ambrósio está?

– Au.

– Vá chama-lo, por favor.

– Au…

– Alô, Ambrósio?

– Miau.

– Ambrósio, não esqueça de tomar o seu remédio.

– Miau.

– Então um beijo, até já.

Bip, bip, bip, bip…”

VOCÊS NÃO ESTÃO APAIXONADOS????????? Sim! Eu sabia!

Combo: AS. ILUS. TRAÇÕES.

Além disso, apesar do Gilles se chamar Gilles, ele é brasileiro, não francês. E eu não sei por quê, mas acho isso muito engraçado. Porque, sério, Gilles. Eduar. Parece zoeira. Mas não é. Amo essa gente.

 

  1. A bruxinha que era boa; Maria Clara Machado

A premissa com spoilers: Uma bruxinha não consegue ser má o suficiente para uma bruxa, então ela é presa numa torre e fica impedida de ganhar sua vassoura a jato, que as bruxas ganham quando passam na prova de maldades. Nisso, ela conhece um bói que decide ajudá-la a sair do castigo e ganhar sua vassoura. Eles conseguem etc. e é muito fofo.

Por que é o melhor livro? Primeiro porque o texto é todo em formato de teatro, o que é incrível pra sair das formas comuns de ficção. Incentiva a você mesmo a querer encenar e inventar os jeitos de cada personagem (quis ser atriz de teatro por causa desse livro? Resposta: Sim). Depois que não julgue a galera, seja feliz, seja de boas, tenha suas migas etc. SÓ É MUITO FOFO. <3

 

  1. Poesia fora da estante; um montão de gente

A premissa com spoilers: Uma reunião de poemas maneiros para crianças pegarem gosto pela poesia que realmente consegue fazer todo mundo gostar do troço (!!!!!).

Por que é o melhor livro? PORQUE TEM OS MELHORES POEMAS DE TODOS. Foi nesse livro que eu descobri que curtia poesia – mais que isso: poesia marginal. Tem muita coisa incrível, muito poema amor, explica questões poéticas (de assonância a metáforas clássicas) com muito amor. ALÉM DE QUE OLHA ESSE TÍTULO QUE BONITINHO!!! Resume bem a ideia de querer que as crianças gostem de poesia (porque, cá entre nós, nenhuma criança vai gostar de poesia se formos leva-la a sério).

 

Jabá: Os Monstros mais medrosos do mundo; Paula Browne

A premissa com spoilers: Em uma cidade em que monstros têm medo de monstros, um monstrinho criança decide parar com essa palhaçada. Pensando sobre como mudar essa situação, ele percebe que a gente tem medo do que não conhece, então faz um álbum pra se apresentar. As outras crianças curtem e também fazem seus álbuns. AÍ TODO MUNDO VIRA MIGO E É LINDO.

Por que é o melhor livro? Primeiramente: as ilustrações!!! OS ÁLBUNS SÃO TÃO PERFEITOS, MAS TÃO PERFEITOS QUE NEM SEI LIDAR (mesmo) (vejam a Emília, especialmente) (a Emília sou eu) (amo a Emília). Depois que trata sobre a questão do medo sem mimimi é só: tem medo, vamos parar com isso aí. Ao mesmo tempo, o livro também fala de como o medo se renova – afinal, a gente nunca vai conhecer tudo, sempre vai ter algo que vai nos assustar. E tudo bem, você consegue encarar esse novo medo assim como encarou os outros. Resumão: fica de boas

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  • Marina

    Ziraldo <3 também adorava o Marcelo Marmelo Martelo, da Ruth Rocha