Todos os homens de Gilmore Girls – Semana Gilmore


Texto: Gabriela Navalon

Em 2000, quando Gilmore Girls foi lançada, a internet não era o principal meio de comunicação de muitos de nós. Assistíamos à séries na televisão e sequer imaginávamos que a Netflix, um dia, seria um dos principais serviços de streaming de programas televisivos e filmes. Se bem me lembro, nós ainda usávamos o VHS e costumávamos frequentar a Blockbuster. Mas de alguma maneira, Lorelai e Rory já davam indícios de características feministas logo na primeira temporada e mostravam a diversos telespectadores o que era ser uma mulher e uma garota independentes.

Ao rever a série neste ano, percebi como foi importante ver mulheres fortes que – a princípio – não precisavam de homens por perto. Lorelai era um modelo de mãe que, naquela época, podia ser um grande alvo de preconceito: engravidou aos 16 anos e é mãe solteira. De novo, foi importante ter uma personalidade assim na televisão. Muitas meninas podem ter encontrado forças nessa mulher que fazia questão de ir contra qualquer estereótipo da época. Embora tenha muitos defeitos, gosto de olhar para a série de forma positiva: todos nós também temos.

Há, porém, apenas um fator que me incomoda na série hoje: os homens. Saindo do caminho que já foi percorrido sobre os namorados de Rory (todos têm/tiveram pontos bem negativos em suas personalidades), percebemos que todos os homens da série passam por momentos que tendem a nos desagradar. São chatos, mimados, possessivos, controladores, ciumentos… Até Luke, um dos personagens que costumam ser mais admirados passa por situações que nos fazem questionar se ele é realmente um cara legal. Ele é grosso, tende a ser um tanto quanto frio e jamais esquecerei da cena em que ele diz não gostar que mulheres amamentem em sua lanchonete. Vale lembrar também a conturbada relação entre ele e Christopher. O pai de Rory não passa batido igualmente: é possessivo, beira o abusivo (especialmente quando pede para Lorelai não ter mais relações com o Luke) e, não podemos esquecer, não é um pai presente para Rory. Ele abandona Lorelai e deixa que ela crie a filha sozinha. Por mais que gostemos de determinados personagens, acho importante pensar nesses aspectos de cada uma deles.

Outros homens demonstram ter um lado machista (mesmo que escondido). Richard, por exemplo, é outro cara controlador. Precisa aprovar os homens com quem sua filha e neta se relacionam e vamos lembrar de quando ele chegou a tentar cuidar da vida sexual de Rory? Não consigo pensar em como reagiria caso meu avô chamasse um padre para conversar comigo sobre relações sexuais. Eu ficaria enfurecida. Mas lá está ele, mudando o quarto de Rory para o mais perto possível para que ela e Logan não possam fazer o que ele não acha certo.

Partindo para mais longe nos núcleos, também temos Jackson. O marido fofo e engraçado de Sookie esqueceu de contar à ela que não havia feito a vasectomia que ela pediu e lá está ela: grávida do terceiro filho. Se Sookie já havia pedido para ele fazer uma vasectomia, isso significa que ela não queria outro filho. Mas lá está ela, novamente, gerando um bebê que ela não queria do marido que nem sequer avisou que ela ainda poderia engravidar. Não deu nem chances para que ela se protegesse.

Estranho pensar que temos personagens tão fortes e reais na série, e homens igualmente reais, mas que não saem da bolha do machismo. Suas características e personalidades têm, de forma sutil, aspectos marcantes do patriarcado, o que frustra as personagens e faz com que passem por problemas e situações que obviamente não causam frustração em personagens fictícios, mas poderiam e podem causar em pessoas reais, que provavelmente não poderiam e nem deveriam lidar de forma tão positiva com situações como a de Sookie. Depois de último episódio, tudo se dissipa e nada mais existe, mas na vida, não é assim que funciona.

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Sobre Gabriela Navalon

Um dia perguntaram a minha palavra favorita. “Sonhar” virou eu e eu virei sonhar. Faz anos que vivo na lua. Não posso evitar, os planetas me fizeram essa aquariana com ascendente em peixes. Os livros se tornaram meu lugar, foi em meio as páginas que me encontrei. Me apaixonei pelas palavras, bailei com o jornalismo, conheci o feminismo e o resto, ainda estou para descobrir.