“Todo Dia”, David Levithan – Um amor não tão correspondido


Depois de milhares de ondas de Young Adults que você adoraria fazer parte, seja sendo uma bruxa ou um adolescente riquíssimo cujo maior drama é o Cosmopolitan estar com uma azeitona amassada, agora é a vez dos amores trágicos.

A fórmula é clara: casal apaixonado, amor correspondido que não consegue ser completamente realizado por causa de alguma tragédia homérica (câncer e morte estão nas mais pedidas) e um final mais trágico ainda com alguma lição de vida (as mais pedidas nesse quesito são: seja eterno enquanto dure, o amor nunca acaba, não aceite viagens para a Holanda de semi-conhecidos apenas porque eles são gatinhos sem uma perna).

Antes que algum fã fique verde risos para quem pegou o trocadilho e me assassine, isso não é uma crítica. Todo estilo literário tem suas fórmulas prontas e o legal é o que o autor consegue fazer com isso.

NÃO, NÃO ESTÁ TUDO BEM. NÃO É PERMITIDO DESTRUIR MEUS SONHOS DESSE JEITO.

NÃO, NÃO ESTÁ TUDO BEM. NÃO É PERMITIDO DESTRUIR MEUS SONHOS DESSE JEITO.

Um dos meus livros favoritos nesse estilo é “Todo Dia”, do David Levithan, livro que me propuz a resenhar aqui na Revista Pólen mas não contei para ninguém que seria tão cheio de piadas ruins. Publicado originalmente em 2012, apenas um ano depois foi traduzido em português e lançado pela Editora Record.

O protagonista é A, uma pessoa sem gênero nem sexualidade que acorda todo dia no corpo de uma pessoa diferente. Não, esse não é um livro sobre possessão ou uma bomba ridícula como um certo aí composto pela mesma escritora de uma saga péssima, pois A é uma pessoa. A única diferença entre nós e ele é que, bem, ele não tem um corpo e cada dia pega um corpo de alguém emprestado.

Ok, talvez seja uma grande diferença, mas nunca foi revelado porque ele é assim. Desde que A nasceu, seus dias são em corpos de pessoas da mesma idade do que ele e que não moram tão longe assim. Isso pode ter sido uma desculpa de Levithan para construir um romance que em um dia A se apaixona por uma pessoa nos EUA e no outro dia está morando nas Filipinas, mas a gente perdoa.

“Nunca vou compreender, não mais do que qualquer pessoa normal entenderá a própria existência. Depois de algum tempo é preciso aceitar o fato de que você simplesmente existe. Não há meio de saber o porquê.”

Dentro disso, A não se sente pertencente a nenhum gênero e não tem uma sexualidade definida, A apenas incorpora o que está vivendo no dia. Se está no corpo de um homem heterossexual cisgênero, ele se sentirá completamente confortável com seu corpo e será atraído por garotas e por aí vai.

A parte mais legal no livro pode ser ver como A se adapta às suas diferentes realidades, como por exemplo a minha favorita: uma bela manhã, ele acorda no corpo de uma garota transexual e sente todas a disforia que a dona original do corpo vivencia.

Pois bem, A é uma pessoa muito ética e que se recusa a alterar drasticamente a rotina do dono do corpo, mesmo que ela seja insuportável. Para manter sua memória mais clara, ao fim de todo dia ele escreve um e-mail para si mesmo contando como foi seu dia, apaga o histórico diário e vai dormir, antes de ser puxado para outro corpo. Ou seja: para garantir que sua vida continue sendo sua, mesmo sem corpo, é necessário que ele se corresponda com si mesmo (segundo uso da palavra do mês no texto, espero que já faça sentido).

É claro que precisamos de um plot twist e esse acontece quando ele entra no corpo de mais um babaca medíocre e resolve que sua namorada, Rhiannon, merece um romance melhor. Obviamente, ele torna o dia dela maravilhoso, mas seu namorado não mantem a linha.

Com isso, A não consegue tirar a garota de sua cabeça e não vê outra saída além de revelar sua realidade para ela. Como explicar para alguém que você não tem corpo e talvez acorde amanhã como um adolescente fisiculturista ou uma fã de One Direction? Não é da primeira vez que a moça acredita e não é uma realidade muito maneira, mas como estamos em um Young Adult, o casal tentará fazer dar certo.

O livro gira em torno da grande questão: o amor correspondido é o necessário ou a correspondência de suas vidas é mais importante?

Daqui pra frente não me atrevo a dar spoilers, mas ficam algumas curiosidades:

  • Rhiannon foi inspirada na Grande Deusa presente nas religiões celtas e com uma origem similar à Deusa da bruxaria. Um dos nomes dela seria Rhiannon e ela assumiria diversas formas, mais ou menos como A faz. Esse também é o nome de uma música da banda Fleetwood Mac e é uma das grandes responsáveis por tanta gente achar que Stevie Nicks, uma das cantoras do grupo, seja uma bruxa;
  • Se A permanecesse em um corpo, ele (ou ela, dependendo do corpo) seria a pessoa mais inteligente de sua idade. Afinal, que outro adolescente de 16 anos teve tão experiência de vida e estudou em tantos colégios diferentes?
  • Acessar os conhecimentos do dono do corpo pode ser fácil, porém línguas estrangeiras são um pequeno problema.

Se você curtiu a ideia do livro, segue a página no Skoob dele.

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