Tisbe na caverna


Texto: Solaine Chioro

 

Conto inspirado no mito de Píramo e Tisbe

Eu corria, apertando as pálidas amoras entre meus dedos e sentindo o coração batucar intensamente dentro do meu peito.  Eu nunca estive tão assustada em toda minha vida. Já havia provado de muitos sentimentos: decepção, solidão, tristeza… Mas quando vi aquela enorme fera se aproximando da fonte, quando encarei seus olhos ferozes, todo meu corpo pareceu receber o raio de um deus.

Quando era pequena adorava ouvir histórias sobre como Semíramis caçava animais tão ferozes como aquele. Criaturas tão fortes e traiçoeiras, mas que eram facilmente domadas pela rainha. Semíramis. Se eu fosse um pouco mais como essa grande mulher, eu não teria me assustado tanto com a leoa que me surpreendeu quando recolhia alguns dos frutos brancos que enfeitavam o túmulo de Nino. Talvez a rainha até mesmo tenha enviado a criatura atrás de mim por atrapalhar o repouso funesto de seu amado. Ou talvez aquilo fosse apenas um sinal.

Vi a gruta de longe e não esperei que a leoa se aproximasse da água da fonte para correr até a entrada escura daquela morada de pedra. Senti o meu lenço escorrer por meus braços, ficando para trás. Era uma belíssima peça, uma das minhas favoritas; um bordado em linha dourada contornava todo o tecido lilás e diversos pontos brilhantes se espalhavam pelo tecido. Havia sido um presente de meu pai, que dissera que apenas trajes tão valiosos como aquele poderiam fazer jus a minha beleza. Não me incomodei em tê-lo perdido, apenas continuei minha corrida e tratei de me misturar à escuridão da caverna o mais rápido possível.

Não ouvi as patas do animal me seguindo. Na verdade, não ouvia nada dentro daquele lugar. Não ouvia o som dos ventos, os ruídos de animais, o remexer das águas. Não ouvia vozes ditando meus modos, vozes reprovadoras, vozes elogiando minha beleza. Aquela era a primeira vez que presenciei um silêncio tão profundo e, ainda segurando as amoras, ainda sentindo meu coração inquieto, eu sorri para escuridão.

Eu passei a maior parte de minha vida sendo conhecida como a mais bela jovem da Babilônia. Ganhava presentes, recebia atenção, era ensinada a como me comportar e como tratar todas as pessoas que viajavam de tão longe para conhecer nossa cidade e tinham o prazer de colocar os olhos em mim. Olhares repugnantes e que muitas vezes faziam meu estômago se retorcer. Eu odiava quando meu nome saia da boca desses homens. Tisbe, Tisbe, Tisbe! Eles faziam questão de o dizer com um tom carregado de uma repulsiva lascívia. Queria poder dividir esse sentimento com alguém, mas não era ouvida por meus pais ou irmãos, e os criados sempre temeram a fúria de meu pai, evitando ao máximo o contato comigo.

E foi por isso que não resisti ao doce olhar e simpático sorriso do jovem que encontrei no festival. Isso fora há alguns anos, quando não sabíamos nada um do outro, e mesmo assim fomos invadidos por uma estranha admiração. Com seu jeito sempre astuto, ele arranjou uma forma de me abordar, longe dos meus familiares e acompanhantes. Seu nome era Píramo e passamos longos minutos conversando, escondidos dos olhares inquisidores e preocupados apenas em mergulhar um no outro. Ele me olhava como ninguém nunca antes tinha feito e parecia encontrar verdadeira alegria em cada palavra que saia de meus lábios. Eu o amei desde aquele momento.

Tentamos nos ver outras vezes, algumas delas até bem-sucedida, mas não demorou muito para papai descobrir e proibir aquele relacionamento. Apesar de morar na casa ao lado, nossas famílias não se davam bem e meus pais traçavam um destino diferente para mim, afinal, havia vantagem em ter a filha mais bela daquele lugar. Como disse, eu já havia experimentado o gosto amargo da solidão e da tristeza, mas junto disso tive que conviver por dias com a dor do coração partido. Forçava um sorriso e boa aparência na frente de todos, mas sempre que me recolhia ao meu quarto era tomada por todos aqueles sentimentos intensos e me recostava à parede para chorar. Aquela antiga parede que há muitos e muitos séculos dividia as duas casas e agora dividia a minha vida e a de Píramo. Uma noite, porém, quando me dedicava ao pranto desenfreado, escutei a voz baixa de meu amado. Parecia tão próxima, mas ao mesmo tempo tão distante… Procurando com atenção, percebi a rachadura que cortava o muro. Era bem estreita e quase imperceptível, mas ao encostar meu ouvido naquela abertura, ouvi com mais clareza as palavras doces de meu amor. Por muito tempo, aquele lugar era meu paraíso; por muito tempo, só encontrava felicidade naqueles momentos que passava colhendo as juras de amor de meu Píramo da fresta na parede.

Foi com grande prazer e excitação que recebi o plano de meu amado em meu coração. Píramo, assim como eu, estava cansado daquela situação e já não aguentávamos mais essa barreira tão concreta que impuseram entre nós. Precisávamos viver nosso amor, viver nossos sonhos e vontades. Por isso, quando Píramo me propôs encontrá-lo essa noite no túmulo de Nino, eu apenas concordei. Agi naturalmente durante todo o dia e esgueirei-me cuidadosamente para fora de casa quando a escuridão tomou conta do céu. Conhecia o caminho de olhos fechados, por isso não tive problemas em encontrar a enorme árvore de frutos brancos que ornamentava o leito de nosso antigo rei. Não esperava, porém, encontrar aquela feroz leoa em meu caminho.

Estava segura dentro da gruta e não tinha mais motivos para temer. Era só aguardar mais um tempo ali dentro, até que fosse seguro novamente, e então retornar ao ponto de encontro de meu Píramo!

Não conseguia deixar de sorrir. Estava animada com os planos que tínhamos feito e com todas as oportunidades que teríamos dali para frente. Claro, sabia que não seria fácil, sabia que não teria direito aos diversos confortos que tivera por tantos anos na casa de meus pais, mas a felicidade que me invadia era muito grande! Pela primeira vez viveria minha vida, pela primeira vez teria ao meu lado alguém que realmente me enxergava, pela primeira vez eu seria verdadeiramente feliz. Não via a hora de poder abraçá-lo novamente! Píramo, Píramo, Píramo! Meu amado e doce Píramo!

Não era mais capaz de conter minha ansiedade e comecei a caminhar para fora da gruta. Fiquei ali por tempo suficiente, a fera com certeza havia ido embora. Estava quase saindo daquele lugar úmido e escuro quando tropecei em alguma elevação no chão – talvez uma rocha – e precisei usar minha mão esquerda para me equilibrar. Era ali que ainda mantinha as amoras brancas, apesar de até já ter me esquecido das frutinhas, então estava com minha mão fechada em um punho e apoiei os nós de meus dedos na parede áspera da gruta. Consegui não cair, mas acabei sentindo a pele de minha mão se ferir com o impacto na superfície rochosa. Caminhei um pouco mais e logo estava fora da caverna, sendo iluminada pela luz prata do luar. Abaixei meu rosto e consegui ver o sangue escorrer pelos machucados de minha pele. Abri meus dedos e o líquido vermelho escorreu para dentro de minha palma, tingindo parcialmente o fruto pálido que mantinha bem no centro de minha mão.

Soltei as amoras no chão e sequei o sangue na lateral de minha túnica. Não me preocuparia com aquele pequeno acidente. Não havia mais sinal da leoa e Píramo chegaria a qualquer momento, não podia perder tempo. Caminhei apressadamente na direção da fonte, ignorando o frio da noite e sorrindo para as estrelas que finalmente iluminariam minha fortuna.

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