Tinta, papel e ferro


Como falei no meu último texto, memória e história são ferramentas de controle: a história que aprendemos não é, claro, a história completa (afinal, isso não seria possível), mas também não é uma seleção ao acaso. Aprendemos o que é considerado mais importante, e tudo nos é ensinado a partir de algum viés – afinal, toda história tem dois lados, e chega a nós com um lado só. Não é de se surpreender, então, que a memória e a história sejam controladas com mão de ferro em sistemas totalitários, de ditaduras políticas (restrição a informação e comunicação, instauração de currículos escolares que enaltecem a ideologia vigente, destruição física de arquivos) a cultos religiosos (métodos de ensino que justificam de forma moral e religiosa acontecimentos históricos, criação de memória e arquivo com esse viés, sem espaço para discussões seculares). Por isso mesmo, esse tipo de manipulação é recorrente em narrativas distópicas.

Três clássicos da distopia tocam nesse assunto: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, 1984, de George Orwell, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Cada um a seu modo, os autores das décadas de 1930 e 1940 consideravam o controle da história como peça fundamental no controle social. Em 1984, este controle se dá através de propaganda política e de uma literal alteração nos registros históricos: o protagonista trabalha reescrevendo artigos de jornal antigos, garantindo que suas informações estejam de acordo com a ideologia do partido totalitário. Fahrenheit 451 apresenta uma sociedade em que livros – ou seja, fontes de conhecimento, história e memória – são queimados, prática de fato muito real e recorrente na nossa história.

Em Admirável mundo novo o controle é feito de outra forma, um pouco diferente: a memória e a história são simplesmente ignoradas, desvalorizadas, mesmo que ainda existam; o ensino é feito por métodos inconscientes de programação mental, e qualquer cultura de reflexão, conhecimento ou pensamento crítico é descartada e desconsiderada. Ou seja, não é nem como se as formas de conhecimento anteriores pudessem ser discutidas, comparadas, ou devessem ser combatidas: elas simplesmente se tornam irrelevantes, com uma população inteiramente programada para ignorá-las, para se interessar unicamente em um hedonismo absoluto sem esforço mental.

Um exemplo literário mais recente é Jogos vorazes, que trabalha de forma muito interessante com a memória histórica e política. Na trilogia de Suzanne Collins, a memória (uma memória específica, na verdade) é insistentemente mantida viva, trazida à tona, retomada, reproduzida; o que importa é que ninguém esqueça da rebelião, das consequências e do poder do governo. Toda a história de Panem – a nação pós-apocalíptica na qual os livros se passam – é reduzida àquele único momento: os “dark days”, a insurgência, a repercussão da violência, a vitória repressora da Capital. Os jogos vorazes que dão título ao primeiro livro são a ferramenta mais forte de lembrança: todo ano, a Capital sorteia dois jovens – um garoto e uma garota – de cada um dos doze distritos da nação para lutar até a morte em uma arena, com transmissão televisiva. Os moradores de todas as regiões são forçados a assistir à violência, à morte daqueles que amam, e a vida de todos acaba girando em torno daquele espetáculo. Ninguém esquece. Ninguém consegue apagar aquilo da memória. Ninguém se livra das consequências violentas contínuas da tentativa de rebelião de décadas atrás.

Distopias trabalham com nossos maiores medos, com as piores possibilidades para o mundo no qual vivemos. Tudo soa um pouco absurdo, mas com um fundo de verossimilhança aterrorizante, com ecos reais demais da nossa história, ecos de coisas que nós mesmos procuramos esquecer, porque memórias negativas, traumas, nos paralisam, nos impedem de seguir em frente. Em cada distopia, vem um flash da aula de história, uma imagem da narrativa familiar mencionada por alto na mesa do almoço, uma vaga lembrança de um livro que folheamos por acaso e fechamos logo em seguida. Na pesquisa para este artigo, fui parar numa lista de incidentes notáveis de queima de livros, e o tamanho me assustou. A lista de livros banidos por governos não é muito melhor, e as justificativas da censura são piores ainda (O diário de Anne Frank foi banido no Líbano por perpetuar imagens positivas de pessoas judias, e tem tanta complexidade histórica, religiosa e bélica nessa decisão que eu levaria o resto da minha vida pra elaborar direito). Enquanto lia sobre Admirável mundo novo e 1984, encontrei um artigo do Christopher Hitchens que menciona os dois livros para discutir o ensino de história nos EUA – não li o artigo inteiro (a cabeça já está doendo o bastante sem isso), mas uma frase na conclusão me chamou a atenção: “A história deve se tornar um campo de contestação ardente, e não outro pedaço árido de lugar comum.”

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Sobre Sofia

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora, tradutora e editora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.