“the princess saves herself in this one”: uma busca por tudo que faltou


Eu falei aqui sobre algumas poetas contemporâneas que fazem da poesia algo diferente das escritoras que somos ensinados a aprender na escola. Essas mulheres trazem o amor romântico e a solidão em seus versos, mas de forma mais crua, menos lírica. E o bônus sobre elas é que dialogam diretamente com o que está no presente: conflitos mundiais, feminismo e origens. É notável o quanto essas poetas de diferentes países falam de si mesmas, mas conseguem transpôr o individualismo fazendo dele um diálogo: é como se elas, tão diferentes, fossem uma só, uma única história com diferentes recortes.

Em “the princess saves herself in this one”, da americana Amanda Lovelace, eu refiz um caminho que já conhecia dos livros de Rupi Kaur, Yrsa Daley-Ward e Warsan Shire, mas com um diferencial evidente: a progenitora da autora ganha camadas novas, não é somente mais uma mulher a sofrer com o machismo. Pra falar a verdade, essa mãe é tanto rainha quanto bruxa. Os versos de Amanda falam de um constante desejo de aprovação, de amor e de compreensão dirigido a essa raiz materna, que apenas contribui para sua auto-estima pouco aparecer.

A gente tem ideia de que ser mãe é amar os filhos acima de tudo, pois é a ordem “natural” das coisas. Você não pode rejeitar alguém que veio de dentro de você, que tem uma ligação completamente diferente das outras pessoas que te cercam. Você não pode dizer que não queria essa filha ou filho. Você tem que querer. Você tem que dizer que ser mãe sempre foi o seu maior sonho. A gente esquece que relacionamentos abusivos vão além da relação homem-mulher. E que vão além dos relacionamentos mais óbvios. Uma mãe pode ser abusiva tanto quanto um marido, um irmão, um chefe. A gente acaba esquecendo que abuso também acontece entre mulheres, independentemente da relação que tenham.

Do outro lado, está uma filha que se vê rejeitada, que tenta caber nas roupas que não lhe servem, que tenta gostar do que vê no espelho, lembrando que não existe amor ali. A garota se vê isolada, tentando ganhar uma batalha que não sabe nem por onde começar. É difícil entender por que você não é amada por alguém que a sociedade sempre lhe disse que seria a sua maior aliada. Mães não deveriam amar seus filhos para além do que são por fora?

 

there are
some mothers
who will warn you

to never ever
(ever ever)
touch the stove,

but there are
some mothers who
will drag you right to it

kicking & screaming,
laughing
as they

watch the flames
lick at your
fingertips.

– when you’re taught to see the world through fire, nothing looks safe.

 

O início do livro é pesado, é rejeição, é dor, é tristeza. Mas o desespero se transforma para algo maior quando esta mãe inimiga está doente de um jeito que a filha sabe que é o fim. Que ela nunca, jamais vai receber de volta o amor que precisou durante tantos anos. No lugar da desmotivação de ser a filha que sempre quis ser para a mãe, nasce raiva, saudade e medo. Os poemas passam a falar da progenitora com outro propósito: não como se a morte tivesse levado todo o sofrimento embora, mas como se, por causa dela, tudo foi roubado de vez. A autora, agora, se vê tentando resgatar tudo o que lhe faltou por conta própria, sendo sua própria salvadora.

Essa origem tão negativa para Amanda, com certeza, vai ficar para sempre. Mas esse arco narrativo de sofrimento-recomeço, apesar de tão característico em mulheres ficcionais, provou ser a solução. Talvez não por causa do sofrimento em si, mas porque, onde havia alguém, agora não existe mais nada. Sem uma base, sem uma raiz familiar, ela se vê obrigada a seguir sozinha. O fantasma da mãe, agora, não é mais tão assustador, porque o inimigo é apenas uma lembrança.

É claro que abusos psicológicos deixam uma marca; às vezes, ela nunca chega a ser disfarçada. Buscar amor onde sempre se acreditou que estaria, onde sempre lhe disseram que seria seguro, e não encontrá-lo, pode mudar toda uma vida.

E mudar vidas, por meio de versos simples e curtos, é o que esse livro tenta fazer. Talvez ele não seja para todos e todas, mas vai tentar te fazer repensar no tipo de amor que você está buscando. Será que ele é mesmo saudável?

 

when your mother
begins to forget
your name,
you begin
to wonder
if you exist
at all.

-stage 4, terminal.

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Sobre Nina Spim

Escritora sonhadora dotada de blue feelings. Quer muitas coisas ao mesmo tempo. Acredita nas palavras mais do que na imagem. Não acredita na divisão das casas de Hogwarts, mas tem certeza de que é 70% Ravenclaw, 20% Hufflepuff e 10% Gryffindor.