‘The Opposite of Loneliness’, Marina Keegan


Marina Keegan tinha vinte e dois anos quando morreu num acidente de carro, cinco dias depois de se formar em Yale. O acidente aconteceu pouco depois de ela publicar o ensaio que logo se tornaria um viral – e que mais tarde daria nome a seu livro – “The Opposite of Loneliness”. Prestes a se formar, Marina escreve para si mesma e para os colegas sobre o medo das incertezas do futuro e de perder aquilo que ela tinha encontrado em Yale (o oposto da solidão – “que não é exatamente amor e não é exatamente uma comunidade; é só esse sentimento de que há pessoas, uma abundância de pessoas, que estão nisso juntas”). Mas há também uma exaltação das possibilidades que ela via para o futuro. Ela lembra que, ainda que talvez muitos deles – e ela também – sintam que é tarde demais, eles (ou nós) somos tão jovens.

Na introdução do livro, Anne Fadiman, que foi professora e mentora de Marina em Yale, fala sobre o que acontece quando alguém muito jovem morre tragicamente: “grande parte da tragédia está na promessa: no que ela teria feito”. Mas Marina já tinha feito, e entre os conteúdos do HD de seu computador, havia os nove contos e os nove ensaios reunidos no livro, publicado postumamente em 2014. Talvez para manter vivo o seu legado, ou sua memória. E, principalmente, porque “Marina não iria querer ser lembrada por está morta. Ela iria querer ser lembrada porque é boa”, como diz Fadiman.

Marina era boa, é verdade. Ela tinha uma voz. Era particularmente boa quando se deixava explorar personagens e temáticas mais diretamente relacionados à própria realidade. Mas ela claramente buscava sair da zona de conforto. “The Emerald City”, uma das boas histórias do livro, é narrada através dos e-mails de um arquiteto que está no Iraque em 2003 para reconstruir Bagdá e se encontra cada vez mais desiludido. “Reading Aloud”, outra das boas histórias, fala sobre uma ex-bailarina idosa que lê para um estudante cego e se sente sozinha, alienada do marido, distante das coisas que gostava de fazer.

Mas o melhor entre os contos é “Cold Pastoral”. Ele apresenta alguma intertextualidade com o poema “Ode on a Grecian Urn”, do Keats, e fala sobre uma jovem que está naquele limbo de um relacionamento que ela não sabe o quão sério é e se ela ao menos quer continuar levando adiante quando o garoto morre subitamente e tudo isso é levado ao extremo.

Com exceção dessas três histórias, no entanto, achei-a apenas boa (e em alguns contos, como “Sclerotherapy” e “The Ingenue”, apenas regular), não ótima. Marina era muito boa mesmo em seus ensaios. “Stability in Motion” parece ser um daqueles exercícios clássicos de escrita criativa: descreva um objeto (mas descrever um objeto, é claro, deve ser só a superfície). Marina descreve seu Toyota para refletir sobre as lembranças da adolescência e a nostalgia. Em “Against the Grain”, o ensaio mais pessoal, Marina usa a doença celíaca para falar sobre as várias fases do relacionamento com sua mãe. “Even Artichokes Have Doubts” foi uma reportagem do Yale Daily News em que ela se pergunta como um quarto dos estudantes de Yale vai trabalhar em bancos e consultorias quando ninguém parece de fato querer fazer isso da vida, e demonstra suas ansiedades quanto ao que eles (de novo, ela inclusa) estão fazendo pelo e para o mundo.

opposite_of_lonelinessBem incrivelmente, a voz de Marina, quando fala sobre jovens universitários, consegue gerar bastante identificação (ao menos para quem, como ela – e eu também –, teve a sorte de nascer cheio de privilégios). Marina estava fazendo coisas incríveis. Pesquisando com Harold Bloom, ganhando estágios cobiçadíssimos na New Yorker e na Paris Review, com um emprego esperando por ela. E, ainda assim, ensaios como “The Opposite of Loneliness”, em que ela demonstra a insegurança quanto ao futuro, ou “Song for the Special”, em que ela fala do medo que que talvez nunca faça nada – porque tem tanta gente! -, existem.

Não é um livro incrível, mas é uma coletânea bem acima da média de uma garota ainda em idade universitária. Ela tinha um talento especial para desenvolver. Sempre tenho a impressão de que muitos autores jovens, que são muito inteligentes e já leram muito, soam incrivelmente cínicos e… frios. Mas não é assim com Marina Keegan, que lembra que “nós somos tão jovens” e temos tanto pela frente, que acredita que a raça humana será capaz de vencer o universo antes de o sol morrer. Ela celebra o futuro, as nossas capacidades, as nossas possibilidades. E é impossível não se perguntar o que mais ela poderia ter feito, se apenas tivesse tido o tempo para isso.

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Sobre Fernanda

Fernanda é gaúcha, estudante de Letras e futura tradutora de grandes obras da literatura - ou talvez de diferentes manuais de geladeira. Ainda não tem certeza do que vai fazer quando crescer. Gosta muito de citações fora de contexto, de palavras inspiradoras e de ouvir música natalina fora de época.

  • Anna

    Meu Deus que aperto no coração 🙁

  • Tô triste com isso. Eu nunca tinha ouvido falar da Marina Keegan e agora Fernanda me deixou emotiva

  • Milena

    Estou bastante no chão com essa resenha e quero esse livro agorinha na minha mesa. Se bem que estou me sentindo bem abaixo da média depois de saber de tudo que ela fez. rs