“The DUFF”, Kody Keplinger


Texto: Lara Matos

[The DUFF foi lido no original para essa resenha, mas será lançado no Brasil pela Globo Livros no ano que vem] 

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A protagonista de The DUFF deixa para trás a maioria dos estereótipos de romance Young Adult, que me chateiam bastante: na maior parte dos YA’s a protagonista é descrita como linda (embora os autores sejam enfáticos em dizer que ela não se acha nada de mais), vai excepcionalmente bem em letras, é romântica, mas não melosa, e é curiosamente ajustada à dinâmica cruel das escolas; além de irreal, essa padronização é cansativa por ser repetida de modo exaustivo.

No livro de Kody Keplinger, Bianca tem 17 anos e não segue estereótipos de gênero, é heterossexual e sexualmente ativa, além de ter um humor ácido e deliciosamente rabugento. A relação de Bianca com as amigas e o quanto elas são diferentes entre si, convivendo numa irmandade de muito amor e tolerância (embora com conflitos, como qualquer relação humana), também merece destaque nesse livro (helloooo, mulheres que se gostam e que não competem entre si num livro para adolescentes, é raro ainda, acho que só li isso de modo tão legal na Irmandade das Calças Viajantes, de Ann Brashares). O modo como ela lida com Wesley (um idiota quase completo), seu colega da aula de literatura com que tem que fazer um trabalho sobre A Letra Escarlate, também trouxe essa personagem para mais perto de mim.

Minha identificação com Bianca foi instantânea. A personagem pode ser chata por causa dos julgamentos excessivamente duros que ela faz, como a fala em que ela sente o Q.I. caindo por frequentar uma boate. Mas Bianca é uma adolescente em processo de formação de identidade e personalidade, e essa rigidez irritante faz parte do comportamento de muitos jovens (fez parte do meu). A revisão de alguns desses preconceitos que Bianca destilava no início do livro ao fim do romance também mostra a evolução do personagem como pessoa, o que é maravilhoso: Bianca não é perfeita, às vezes é chata e seus defeitos estão longe de serem aqueles pequenos defeitinhos de heroínas de Young Adults: as falhas de Bianca são gritantes e mesmo assim ela é amada e compreendida. E claro, muito da armadura de ironia e rabugice de Bianca é apenas insegurança acerca de si mesma, algo que se suaviza no desenvolver do livro.

Piper é filha única de um casal com um relacionamento desgastado e problemático: a mãe de Bianca mal fica em casa e a maior parte dos dias ela passa tentando ficar algum tempo com seu pai, um silencioso alcoólatra em recuperação. A iminência do divórcio dos pais precipita muita intranquilidade na vida de Bianca, de modo que ela procura uma válvula de escape. Um tanto autodestrutiva, Bianca inicia um relacionamento que ela pensava ser exclusivamente sexual com Wesley Rush, o garoto mais galinha da turma e que em uma noite na boate, a apelidou de DUFF-designada amiga gorda e feia.

O que Wesley quer dizer com isso é que Bianca se esconde tanto em sua personalidade rígida que não consegue brilhar, sendo, por isso, a amiga que faz com que as outras pareçam mais bonitas e melhores pessoas do que realmente são. No decorrer do livro, Rush quer fazer com que Bianca tenha um salto de autoconfiança após conhecê-la melhor, embora no início julguei que ele estivesse ofendendo Bianca mesmo, quase não a considerando uma pessoa ao falar de modo asqueroso sobre ela ser uma DUFF e porque teria que ser legal com ela se quisesse conquistar uma de suas belas amigas, Casey e Jess. Wesley pede muitas desculpas por isso, mas entendi a mágoa de Bianca: o problema não foi ele ter dito isto, foi ter pensado nesses termos sobre ela. Machuca bastante mesmo. E a força da autodestruição crescente de Bianca a atrai para esse Wesley grosseiro e sem a mínima noção. Só que ela descobre que ninguém é todo mau ou bom, nem Rush. Essa epifania de Piper ajuda a suavizar sua postura rabugenta e rígida, o que a ajuda bastante.

Então, após uma briga com as amigas em que Bianca, muito afetada pelo que Wesley disse, se acha muito feia e gorda para estar perto das suas amigas de sempre, e as recrimina por nunca terem dito que eram amigas dela apenas por esta benesse, ela se refugia nas tardes com Wesley, que se mostra um bom amigo e ouvinte além de um bom amante. O desejo inexplicável entre ambos é algo que gosto muito nesse livro, e a abordagem limpa e sem moralismos me agradou bastante. Bianca também tem um crush meio platônico, um colega das aulas de política, Tobby Tucker, que sempre fez seu coração bater mais forte. Lembrei muito das tentativas de Cady de iniciar um papo com Aaron em Meninas Malvadas ao ler as tentativas de Bainca de falar com Tobby. Com o acréscimo de autoconfiança, ela convida Tobby para sair e recebe um sim, o que a deixa extasiada.

O comportamento de Bianca com sua fuga confusa me lembrou o da autobiográfica Marguerite, do clássico O Amante (meu livro favorito, por sinal). Como a menina branca de Saigon, Bianca está com a vida familiar confusa demais e procura ajuda no sexo e no desejo, algo que ela consegue controlar. Seria, inclusive, um paralelo mais legal do que o feito pela autora com A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne, que fala sobre adultério e a perseguição sofrida por Hester Prynne (descobri com espanto que em alguns estados e comunidades dos EUA ainda é comum, após o adultério vir a público, as pessoas jogarem lixo ou incendiarem detritos na propriedade do adúltero).

A reflexão dela sobre ser uma DUFF (amiga gorda e feia designada) tem uma conclusão bem legal: todo mundo é DUFF um dia, só não pode ser pra sempre. Casey e Jess também têm momentos horríveis de insegurança em que se sentem DUFFs, e quando Bianca diz a elas como se sente perto das amigas, elas demolem o mito que Bianca criou de que elas têm segurança total sobre suas aparências. Esse momento é lindíssimo.

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Em meio a tanta confusão sentimental, o relacionamento dos pais de Bianca degringola e o Sr. Piper tem uma recaída no alcoolismo, que o torna violento e perigoso para a filha, que sofre uma agressão física grave. Wesley então a ajuda e lhe dá espaço para lidar com esse acontecimento tão difícil. É quando a adolescente percebe que há muito mais lugar em sua vida para Rush do que para seu idealizado Tobby. A abordagem do alcoolismo do pai de Bianca, no entanto, deixou a desejar: o equilíbrio aparente o sr. Piper e o destempero dele são contraposições um tanto mal construídas ao longo do romance.

Não vejo o relacionamento de Wesley e Bianca como algo muito ok mesmo depois das arestas aparadas, mas o legal é isso mesmo: quando somos jovens, precisamos vivenciar algumas coisas para sabermos exatamente o que queremos. Isso se chama amadurecer. Wesley, apesar de deixar para trás a casca de babaca total, ainda tem muito o que aprender, bem como Bianca. Por isso o relacionamento será enriquecedor para os dois; o discurso do livro não criando uma ilusão de “amor para toda vida” é maravilhoso para adolescentes. Essa mensagem de que ainda há muito o que viver e que não é obrigatório acertar na vida afetiva de primeira e que as experiências amorosas que temos, apesar de não definitivas, nos enriquecem e fazem parte de nós é mais que necessária para garotas.

 

*O filme de The DUFF foi lançado esse ano, mas não gostei dele em muitos pontos porque concessões absurdas foram feitas à Holywood (embora a escolha de Mae Whitman como Bianca tenha sido perfeita, porque ela tem as mesmas características físicas da personagem do livro): não há o desejo unindo Piper e Rush, bem como é criada uma atmosfera de animosidade entre Bianca e as amigas que é inexistente no romance. O exagero de Bianca encontrando um grande amor na figura de Wesley é irreal. Retratar Tobby Tucker como um idiota quando no livro ele é gracinha, educado e a fim de Bianca, e a escolha em não ficar com ele é inteiramente dela, foi o erro mais grosseiro do longa para mim, que poderia ter mantido essa parte da história. Mas não, vamos reforçar o estereótipo de que mulheres precisam de um desprezo catártico por um imbecil para poderem refletir sobre o que realmente desejam. Realmente desejei que o romance de Kody Keplinger tivesse uma versão cinematográfica alternativa para ter mais fidelidade à obra original.

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Sobre Lara Matos

25 anos. Teresinense. Sagitariana com ascendente em aquário. Poesia é minha principal linguagem, e as palavras, o que mais amo. Mitologia e fantasia em geral. No plano de "realidade": estudo feminismo, criminologia e direitos humanos.