The Craft: bruxaria na adolescência


Texto por: Maria Raquel Silva, Maynnara Jorge e Rovena Naumann

A bruxaria e o oculto permeiam o imaginário de jovens pelo mundo todo. A puberdade vem com um novo entendimento do mundo ao nosso redor, fazendo com que o oculto tenha um grande apelo aos adolescentes. As mudanças pelas quais passamos se combinam a essa ideia de que tudo pode ser mais fácil com um passe de mágica.

É isso que acontece em The Craft (no Brasil “Jovens Bruxas”, 1996). Sarah, a garota nova numa escola católica em Los Angeles, se envolve com um grupo de três outras moças consideradas bruxas. Nancy, Bonnie e Rochelle encontram em Sarah a quarta integrante para seu coven. Com isso, conseguem atingir um nível de poder maior do que poderiam imaginar, e muito maior do que  conseguem lidar. A luta de ego entre a procura por mais poder de Nancy e a cautela de Sarah acabam por entrar em choque.

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Maria Raquel: Pra mim The Craft meio que começou os filmes de terror adolescentes do final dos anos 2000, tipo Pânico. Mas também tem uma coisa mais leve, pelo menos no começo, que me faz lembrar de Charmed e Sabrina

Maynnara: Sim, o começo engana muito! Vendo aquele plot inicial nem dá pra imaginar que o filme aborda temas bem mais pesados que não víamos com frequência nos anos 90.

Rovena: Eu confesso que fiquei com medo (vi pela primeira vez agora), mas depois achei leve e fofo, até chegar nos temas pesados…

MR: É bizarro porque parece que a bruxaria que é o tema principal do filme, mas não é. Eu tenho como tema principal o poder que elas tem pra ter o que querem, e aí dá tudo errado.

Rovs: Com certeza. A bruxaria é só o meio que elas encontraram pra conseguir tudo. E essa parte, ainda no começo, é bem fofa, né?

May: Isso! Acho que se a ideia do filme não fosse essa, eles poderiam fazer algo parecido com elas ganhando dinheiro, por exemplo. Acho que é o que une elas, mas ao mesmo tempo, eu acho que é saber que elas conseguem ter mais poder assim. Vocês falaram isso e na mesma hora eu pensei em Bling Ring, sabe? Elas tinham poder porque roubavam o que queriam e ninguém descobria e ao mesmo tempo era o que juntava o grupo.

MR: Sim, mas algumas coisas a bruxaria foi bem necessária. Como com a Rochelle e a vingança contra a mina racista, ou a Sarah fazer o garoto se apaixonar por ela. No fim aquela entidade que elas invocam ajuda a ter o que querem, mas acaba sendo um poder muito grande pra elas lidarem. Fico imaginando se eu tivesse tudo o que queria quando tinha essa idade… Ia ser um desastre!

Rovs: Quando aquela menina falou pra Rochelle que não gostava de “negroids” eu só fiquei de boca aberta, sem acreditar que ela teve coragem de ser tão babaca e racista. E eu já sabia o que ia acontecer. Quero dizer, não sabia exatamente o que era, mas sabia que ela ia se dar mal.
E sim, se também tivesse poder nessa idade, nossa, eu nem sei o que teria acontecido, viu? Provavelmente muitas coisas feias 🙁

May: Nossa, sim! Eu acho que eles até abordam bem isso, porque um pouco do descontrole que elas tiveram foi justamente por levarem os dramas escolares, que a gente multiplica por mil quando é adolescente, em algo bem maior do que era. Se eu tivesse a chance de ter poderes quando era adolescente seria definitivamente um desastre.

MR: Imagina conseguir fazer qualquer cara que você tivesse uma quedinha gostar de você? Tinha uns que eu nem ligava, mas tinha uma queda só. Ia ser horrível, mesmo que no momento eu achasse que seria uma boa ideia.

Rovs: Eu fico pensando no que aconteceria se eu pudesse fazer algo com os meus bullys do colégio. Gente… Não ia dar certo. Mas ok, ter poderes e usar pro bem seria bem divertido. E legal. E interessante.

MR: Sim, esse é um ponto. Usar os poderes com responsabilidade, mas na maioria das vezes a gente não é muito responsável quando é adolescente. Nem fazer as tarefas do dia a dia a gente faz direito.

May: Sim! Eu sempre penso nisso, porém conseguir mudar de aparência sem precisar ir no salão seria ótimo hahahaha

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Rovs: QUEM ME DERA PODER MUDAR A APARÊNCIA NA ADOLESCÊNCIA. Nossa, eu ia ter evitado tantos problemas.
Mas usar os poderes pra essas coisas mais simples acho que não tem problema, né? Eu imaginaria uma coisa boa ajudar alguém a ir bem numa prova. Isso seria errado?

MR: Não sei se seria errado, mas isso da mudança de aparência, mesmo que pro bem, a Bonnie é a que eu mais gostava ali. Ela era docinha e fofa, mas depois que as cicatrizes dela foram curadas começou a se achar, olhando por cima pra todos, inclusive pra Sarah…

May: É, eu acho que isso com certeza afetaria a personalidade, né? Eu também amo a Bonnie e apenas queria deixar registrado que usaria todas as roupas dela pós cicatriz curada hoje em dia.

MR: Super usaria o guarda roupa desse filme porque é tão lindo! O da Nancy acho que é o que mais faz um “statement” né? Ajuda a criar a atmosfera de terror do filme.

Rovs: Eu adorei as roupas da Bonnie e da Sarah. E amei o da Nancy por causa disso mesmo, porque ela se vestia como o pessoal acha que uma “bruxa” vai se vestir (mas nada a ver isso, por favor).

May: Confesso que acho uma parte das roupas da Nancy bem o guarda roupa de Segundas Intenções, com aquele crucifixo e uniforme de escola católica, só que uma versão mais rebelde. Acho esse filme o ápice dos anos 90 em estilo, porque você consegue ver várias coisas típicas da época e que também tão voltando hoje, tipo o vestido de listra da Sarah com casaco amarrado e all star no comecinho.

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MR: Total! Um dos motivos que eu amo esse filme é isso também. É a atmosfera bem anos 90 que ele tem. Além disso eu acho ele um filme muito high school. Tem vários clichês: a garota nova, o grupinho das meninas “malvadas” (no caso, bruxas), o garoto popular que a garota nova gosta…

Rovs: É isso o que faz o filme dar certo, né? Essa ambientação no colégio, que todo mundo gosta, daí adiciona um pouco de bruxaria e medinhos e BOOM!, aí está um filme divertido. E também coloca um pouco dos problemas que adolescentes passam nessa época, que nesse caso não são nem um pouco simples.

MR: Eu mudei bastante de escola durante a minha adolescência, então eu sei bem o que é ser “a garota nova”. Mas ao contrário da Sarah, eu sempre tive muita facilidade em fazer amizades. Tem algumas falas no filme que dá pra ver o quanto a Sarah estava desesperada por se encaixar em um grupo. Ainda mais um grupo que precisa dela…

Rovs: Eu nunca tive facilidade em fazer amizades, mas acho que eu também nunca fiquei desesperada em fazer parte de algum grupo. Eu era sempre a excluída e a estranha.
(Acabei de lembrar que falavam que eu parecia uma bruxa porque pintava as unhas de preto e roxo. ?????)

May: Eu também sempre fui meio excluída, tinha um grupo de amigas e tal, mas no geral as pessoas ficavam fazendo bullying com a gente, bem típico de comédia teen, sabe? Era ridículo.

MR: Acho que isso é um dos motivos por esse filme ser tão popular e representar tão bem a adolescência. Todo mundo consegue se relacionar com pelo menos algum momento dele.

May: Eu pensei isso também! Acho que é muito difícil você não se identificar, porque era um pouco da realidade da gente, independente de onde a gente tava na “cadeia” social, sempre tem essas inseguranças e essa vontade de fazer parte de um grupo que fazem a gente se envolver em coisas que nem temos certeza se queremos, né?

Rovs: Sim!! Acho que quando somos adolescentes fazemos algumas coisas porque somos levados a isso pelas pessoas do grupo. Não acho que não é nem questão de não ter personalidade, como muuuuuuuita gente gosta de falar. É mais uma coisa que pressão social mesmo, e nesse caso a pressão vem dos amigos.

MR: É meio que um sentimento de você querer se encaixar com um grupo, você querer fazer parte de algo. Acaba que você faz umas coisas porque você quer que os outros daquele grupo gostem de você.

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Rovs: Sim, exatamente. E isso é uma coisa que todas as pessoas passam quando são mais novas.

May: Eu acho que quando a gente é adolescente parece que tudo naquele mundinho é um motivo pra se preocupar e por isso tem tanto drama. Por mais que a gente hoje veja como bobagem, você viver enclausurado 5 dias na semana com as mesmas pessoas por horas, faz a opinião delas ser importante. Depois que a gente cresce acaba deixando um pouco de lado essas coisas pra manter a nossa sanidade. Por isso que eu não sinto a menor falta da época de escola (só as tardes de bobeira vendo esse filme na sessão da tarde).

Rovs: Siiiiiiim! Da época da escola sinto falta da bagunça que eu fazia com as amigas. Fora isso, fico feliz que essa época já acabou. É muita pressão.

MR: Não sinto a menor falta também. Olhando pra trás agora, tudo parece que era tão falso e imediatista. As amizades não duravam muito. Uma hora no ano você era amigo de alguém, aí alguma coisa acontecia e a pessoa parava de falar com você. Aí fazia amizade com outra pessoa, e assim por diante. O final do filme, em que as meninas vão checar se a Sarah ainda tem os poderes, eu acho tão triste… Porque elas não vão pra se desculpar, ou pra falar que iam continuar amigas, mas pra ver se a Sarah tinha poderes e podia fazer com que elas tivessem poderes de novo…

Rovs: Nossa, siiiiiiiim! E o jeito que elas falam “ah, ela nem deve ter nada” e dão uma risadinha de deboche. Achei isso muito triste também. Qual é a necessidade disso, sabe? Todo mundo ali se deu mal, todo mundo saiu machucado.

May: Sim! Eu acho que é essa coisa de se mostrar superior e forte e no fim elas meio que perderam a chance de serem amigas de verdade. Acho que a Nancy é aquela típica amiga abusiva e que elas poderiam recomeçar bem depois disso, mas perderam a chance.

MR: Exato. Isso é uma coisa bem adolescente, eu sinto. De TER que ser superior aos outros, especial de uma certa forma. Só mostra que elas realmente não estavam preparadas pra ter os poderes, enquanto a Sarah estava.

May: Eu acho que apesar da magia, o filme é mesmo sobre essa coisa do ego em grupo de amigos na adolescência, porque no fim foi um pouco do que fez elas desandarem, já que a Nancy não aceitava a Sarah que mal chegou já ser melhor que ela.

Rovs: Sim, com certeza. Quando as meninas ficam animadas com a Sarah porque a magia dela tá funcionando, a Nancy fica enciumada. Tem até aquela cena que as meninas estão conversando, sentadas na grama e a Nancy tá meio afastada e levanta do nada, colocando os fones de ouvido e indo embora.

MR: Desde o começo a Nancy não queria a Sarah porque via ela como uma competição, ao invés de mais uma amiga para o coven. Tanto que ela só aceitou mesmo quando elas invocaram a entidade… Que ela viu que a Sarah tinha algo a oferecer pra ela.

May: Sim, eu acho que a Nancy só aceitava a Sarah porque precisava dela, tanto que depois que ela consegue os poderes da entidade ela meio que para de se importar com a Sarah e não ligar pra ela continuar no grupo.

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MR: Ela até descarta as preocupações da Sarah, tanto no uso irresponsável dos poderes quanto na ameaça que ela sente por parte do menino popular que ela enfeitiçou. Fica claro que a Nancy não é amiga da Sarah. E com isso também consegue virar as outras meninas contra ela.

Rovs: Eu realmente achei que a Nancy ia querer ser amiga da Sarah, sabe? Tinha esperanças, mas depois ficou claro que não, ela não queria isso. Ela não tinha interesse. E eu fiquei bem triste. E também com aquela parte das duas na casa da Sarah. Achei horrível.

May: Mas no começo até parecia que ela se preocupava e queria ser amiga, porque elas meio que avisam sobre como o Chris é babaca, mas depois realmente dá pra ver que ela não tava nem aí mesmo.

MR: Como a May disse mais pra cima, é claramente um relacionamento abusivo por parte da Nancy… Acho esse filme tão real porque tem muito das pessoas que a gente encontra na escola. Quando fui apresentar The Craft pro meu irmão eu disse que era “Heathers só que com magia”. Revendo o filme, tem uma parte depois que o Chris morre que a Sarah tá na cama, e quase dá pra ouvir a Veronica falando “Dear diary, my teen angst bullshit has now a body count”. O que mais me impressiona é que a Sarah entrou nessa como a Veronica, achando que tinha um lugar que ela finalmente pertencia. Até que as coisas vão longe demais.

May: Nossa, melhor comparação “Heathers com magia”! Porque realmente é, né? Eu acho que essa narrativa de se dar mal por tentar fazer parte de um grupo é clássico até hoje porque é real e fala com qualquer adolescente.

Rovs: Siiiim, e é uma coisa que não cansa, justamente porque dá pra se ver na história o tempo todo.

MR: No fim The Craft é uma representação bem fiel da adolescência, apesar de toda a fantasia contida no filme. As amizades rápidas, as panelinhas, as brigas de ego. Tudo isso a gente passa nessa época. E a gente sobrevive pra contar as histórias.

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Sobre M. R.

Paulista de nascimento, paulistana de alma. Já foi escoteira e já teve Orkut. Na próxima segunda começa aquele curso novo que não vai terminar. Assiste seriados. Muitos.