“The 42nd St. Band”, Renato Russo


42ndA primeira coisa que me veio à cabeça quando eu terminei de ler The 42nd Street Band foi como todo aquele tempo livre assistindo toneladas de Grey’s Anatomy e Supernatural me pareceu desperdiçado.

Entre os 15 e os 17 anos, Renato Manfredini Jr teve muito tempo livre enquanto se recuperava de uma grave doença óssea, a epifisiólise, que o obrigou a passar dois anos de cadeira de rodas devido à dor. Preso em casa, ele se alimentou de toda a informação que viria a transformá-lo no lendário Renato Russo. E escoou um pouco da sua criatividade na criação de uma banda que só viveu no papel — a 42nd Street Band.

O carioca (é, ele não nasceu em Brasília) foi espalhando a história dos primos Eric Russell (um homenagem a Jean-Jacques Rousseau e Bertrand Russell, que se estendeu para o nome artístico que Renato mais tarde adotara), Jesse Philips e Nick Beauvy por vários cadernos e pedaços de papéis. Todo esse material foi agora reunido e editado pela Companhia das Letras e lançado no livro The 42nd Street Band — Romance de uma banda imaginária, aproveitando o gancho das homenagens aos 20 anos da morte do roqueiro.

É preciso deixar bem claro: este livro não é um romance. São anotações dispersas, ainda que abrangentes, que foram reunidas. Renato preparou toda a discografia da banda imaginária, incluindo listas de músicas (se o título Acrylic on Canvas te parecer familiar, por exemplo, lembre-se que há uma música com o mesmo nome no álbum “Dois”, da Legião) e singles. Ele também ensaiou entrevistas, fez a transcrição de diálogos e nos contou sobre a sonoridade do grupo. Todas as referências que transformaram a 42nd no fenômeno que ela foi (quer dizer, na cabeça do primogênito dos Manfredini) estão presentes.

E é aqui que tudo fica interessante. Sabe aquelas histórinhas que a gente fica inventando antes de dormir ou no banho ou quando está, sei lá, limpando a casa sozinha? De quando você conhece o Grant Gustin (desculpa, ele é o amor da minha vida) ou então vai conversar com a Meryl Streep em alguma after-party do Oscar pra dizer que, apesar de você ter levado o prêmio de melhor atriz, você achava que o nome na estatueta devia ser o dela? Pois é. A diferença da gente pro Renato Russo é que ele escreveu tudo isso — e usou o codinome de Eric Russell. Eric Russell é tudo o que o Renato Manfredini Jr de 15 anos queria ter sido.

É inevitável não sentir um toque meio ególatra no livro inteiro. Afinal, os caras do 42nd Street Band são os melhores. A banda foi fundado pelo Jeff Beck (!) e pelo Mick Taylor (!!!) — que acabaram pulando fora do grupo, que, entretanto continuou com a sua alma intacta. Afinal, a alma do grupo era o trio original de primos. Que, só por acaso, acabaram sendo espectadores de dois dos momentos mais épicos da história da música: o Monterey Pop Festival e o, err, Woodstock. Na parte do livro em que os anos de formação de Russell, Beauvy e Philips são descritos, eles são chamados de “Gênios do rock” por Renato. Em uma quote que o autor adolescente colocou na boca de Nick Beauvy, ele diz: “Eu me pergunto por que a imprensa insiste em chamar nossos álbuns de ‘obras-primas'”. Ou seja.

Mas é bom considerar que nós sempre somos os melhores nos nossos devaneios, e que eu duvido muito que Renato imaginou que algum dia essa história seria publicada. Ou imaginou, sei lá, o cara obviamente estava treinando pra ser um ídolo do rock extremamente idolatrado. E deu certo. Aquela tática d’O Segredo de fazer um cheque fake de um milhão de dólares e colar no seu teto pra você vê-lo todo dia ao acordar pra atrair o dinheiro, ou então seguir a risca o clichê fake ’till you make it acabam parecendo um pouco razoáveis quando a gente pensa nisso.

The 42nd Street Band, em si, não é uma leitura indispensável — eu me arrastei por semanas pra conseguir terminar as suas pouco mais de 200 páginas. Mas é uma boa maneira de vislumbrar qual foi o background sobre o qual Renato Manfredini Jr construiu o sobrenome Russo.

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Sobre Odhara C.

Drama queen um tanto sincera demais. Dog person. Gosta de dar conselhos e de fazer filosofias de boteco.
Ela escreve no blog Meu Coração É Um Nervo Exposto (http://umnervoexposto.wordpress.com) e dá o ar de sua graça uma vez por semana em caixas de entrada alheias com uma newsletter (http://tinyletter.com/umnervoexposto).