Tela Branca


Olivia olha para o chão de cima dos seus saltos, o canudo ilusório da formatura passando da sua mão direita para a mão esquerda nervosamente. Ela estava sentada em uma cadeira, no palco da cerimônia, esperando que o último nome pegasse o seu papel vazio e voltasse para se sentar. Então, o Reitor iria falar as palavras finais e todos poderiam ir para casa. Olivia estava mais nervosa do que achava que estaria, mesmo seu grande momento já tendo passado. O grande momento de descer as escadas (sem cair), passar na frente dos seus professores (sem cair), pegar o canudo (sem cair), tirar foto (sem cair) e voltar para o seu lugar (certamente sem cair).

Agora o seu nervosismo tomava outra forma, outra frustração contínua que acabava com o sono de Olivia todas as noites. O que iria fazer agora? Tinha acabado a faculdade – Maravilhoso! -, tivera um excelente estágio – Incrível! -, fez os quatro anos com boas relações na sua área – Fenomenal! Mas e agora? Não tinha sido efetivada, não tinha conseguido encontrar um emprego formal. Estava oficialmente desempregada e sem uma universidade para colocar os braços ao redor dos seus ombros. Olivia se sentia desamparada, sem saber o que iria fazer em sequência. No dia seguinte ela já estaria sem um trabalho e sem um afazer, pensando em como seguir com a sua vida.

O futuro parecia nebuloso, uma ideia de desamparo de não ter uma ocupação deixava Olivia sem saber o que pensar. Ela nunca tinha estado sem ter nenhum afazer, sempre tivera algum dever na sua cabeça. Estudar, treinar, pesquisar, ser sociável, compreender outras línguas, ver diferentes culturas. Tudo uma grande obrigação que ela impunha para si mesma, tentando ser uma pessoa melhor e estar mais em contato com o mundo e as diferentes versões dele. Só que agora ela se encontrava só em contato consigo mesma. E pior do que não ter o que fazer era ela não saber o que ela queria fazer.

Arte por Dia de Almeida

Arte por Dia de Almeida

Olivia olhou ao redor da sua cadeira, observando e acompanhando os olhares que os outros estudantes tinham. Alguns olhavam para a platéia procurando sua família e seus amigos. Outros olhavam para a cerimônia, observando as pessoas que falavam para lhes congratular pela vitória. Outros, ainda, olhavam para o telão vendo as fotos das pessoas passando, os outros alunos que também estavam se formando. Havia um sentimento comum de conquista entre todos os estudantes presentes, um sentimento de futuro comum. Todos ali iriam se tornar a nova face do emprego que escolhessem e isso, talvez, se tornasse a sua vida. Mas e se eles quisessem mais? Mais do que um emprego, mais do que uma dedicação?

O que poderia servir como uma dedicação? Para um futuro?

Essa palavra incomodava Olivia, futuro. O que significa isso? O que significa querer um futuro ou ter um futuro? O que é isso, além de um grande branco, um tempo verbal ou uma constante ansiedade? Pensando nisso, Olivia perdeu a vez. Todos os outros estudantes jogaram seus capelos e ela só se viu em uma chuva de chapéus, olhando para cima com a confusão expressa no rosto.

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Sobre Priscilla Binato

Uma carioca de coração, 21 anos completos em janeiro e gateira como profissão (ou ao menos um sonho). Estudo jornalismo e estou quase me formando, mas tenho aspiração de escrever como profissão. Detesto sushi, pizza, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e muita coisa que todo mundo acha legal, to nem aqui. Sou lufana de coração e de alma, 100%, além de feminista, assexual e chata do rolê.