“Te vendo um cachorro”, Juan Pablo Villalobos


Fazia algum tempo que eu não lia livros escritos por homens, sobre homens e em que os personagens não possuíssem uma faixa etária de até 30 anos, no máximo. Alguns podem entender isso como preconceito, eu digo que é apenas a minha preferencia rsrs. Dito isso, escolher ler Te vendo um cachorro, escrito pelo mexicano Juan Pablo Villalobos, foi sair um pouquinho da minha zona de confiança, mas que acabou sendo uma experiência bem agradável.

Essa é a história de Teo, um senhor de 78 anos que acaba de se mudar para um prédio onde a grande maioria dos moradores são anciões. Se Teo me ouvisse chamando ele de senhor, tenho certeza que ficaria, de certo modo, incomodado. Ele é daquele tipo de velhinho que acha chato conviver com gente mais velha, acha ruim quando o chamam de velho. Conseguiu imaginar? É o clássico velhinho rabugento que não demonstra carinho por nada, mas nós sabemos que, no fundo, no fundo, tem muito amor pra dar.

Narrado em primeira pessoa, o livro perpassa as aventuras de Teo ao lidar com seus vizinhos, a sua relação repentina com um mórmon gringo vindo de Utah e, claro, as suas tardes consumidas bebendo cerveja na quitanda ao lado do prédio.

Acompanhamos conflitos atrás de conflitos, muitas vezes coisas pequenas e mesquinhas, frutos da pura provocação com o próximo. Como com os moradores do prédio, mais especificamente com Francesca, uma velhinha que organiza um clube de leitura do prédio e que tem como hobby fazer reclamações para os síndicos e nunca ser ouvida. Francesa também acusa Teo de escrever um romance e que transformaria seus vizinhos em personagens literários, fato que ele nega assiduamente diversas vezes. O que acaba sendo uma grande pegadinha para nós, leitores: afinal, o livro é narrado em primeira pessoa por Teo.

Em conjunto com as suas aventuras no presente, Teo também narra um pouco da sua vida no passado. Suas experiências ao ter uma mãe difícil de lidar e que apenas se importa com os diversos cachorros que traz para casa. Sua vida como taqueiro, termo um pouco desconhecido para nós brasileiros, mas que significa: aquele que vende tacos (comida típica mexicana). E, claro, suas aventuras em um mercado de carne bastante duvidoso, porém aparentemente comum: o de carne de cachorro.

Narrativa fluida, Juan Pablo Villalobos está realmente de parabéns; é possível ler o livro em  uma tarde, em um sopro de sossego encontrado, e se distrair com a teimosia, sarcasmo e o humor de Teo.

 

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Sobre Dora

Dora mora em São Paulo e vive na internet. Começou a fazer Letras por gostar muito de livros e, hoje em dia, dá umas cambalhotas tentando escrever mais (e espera que algum dia consiga dar alguns saltos mortais).