Tartarugas Até Lá Embaixo: uma conversa


Texto: Lorena Pimentel, Paulo V. Santana, Rovena Naumann // Imagem: Intrínseca

Lorena:
olá e bem-vindos à nossa discussão sobre “Tartarugas Até Lá Embaixo”, livro novo do John Green. Pra contextualizar: eu conheci e li o John pela primeira vez em 2008, e vocês?

Paulo:
Oie! Eu conheci em 2010, quando o pessoal do Nem Um Pouco Épico e outras pessoas lindas da internet fez uma campanha para publicarem “Looking for Alaska” por aqui, daí, assim que a Martins publicou, o jovem Paulo de 13, 14 anos leu e se apaixonou.

 

Rovena:
Eu conheci o John no tumblr em 2010, com algumas quotes de Alaska, mas só fui  ler mesmo em 2012. Meu primeiro livro foi “Quem é você, Alasca?”

Lorena:
Eu também comecei por Alaska! Então todos nós estivemos aqui antes da explosão de “A Culpa é das Estrelas”, mas vocês têm algum preferido em especial?

Paulo:
Olha, até semana passada eu diria “O Teorema Katherine” – não acho que seja o *melhor*, mas foi o que achei mais divertido e que mais combinou comigo na época. Porém – spoiler do que vai vir nessa conversa! – “Tartarugas até lá embaixo” me conquistou completamente <3

Rovena:

Eu tava pensando sobre isso hoje. Fico dividida entre “Cidades de Papel” e “Quem é você, Alasca?”. Mas, concordo com o Paulo. “Tartarugas” me conquistou demais.

Paulo:
Eu amei tanto o livro que fiquei pessoalmente ofendido quando soube que algumas pessoas não estão curtindo muito.

Lorena:
Somos dois. Eu entendo que nem todo mundo vai gostar, é um livro afinal, mas me atingiu de forma tão pessoal que fiquei pessoalmente ofendida também. Mas vamos exaltar as tartarugas metafóricas por aqui. Falando nisso, esse é um post com spoilers e eles começam agora hehe
Com que expectativas vocês começaram a leitura?

Rovena:
Altas. Extremamente altas.
E eu fiquei preocupada, porque achava que ia me decepcionar

Paulo:
Same. Tartarugas até lá em cima, hehe. (perdão pelos trocadilhos péssimos, leitores)

Lorena:
Eu acho que eu estava ok? Tipo, imaginava que ia gostar, mas não imagina o nível de envolvimento que ia ter com a história. Pra começar os spoilers, a Aza tem ansiedade e alguns dos sintomas dela são parecidos com os meus. O que eu quero dizer é: talvez ela não seja a protagonista mais palatável do John, mas ela é a mais realista, pelo menos essa foi a impressão que tive.

Paulo:
Também acho, Lore. Os outros personagens têm vários elementos que a gente já viu nos dos outros livros, ou pelo menos a *vibe* adolescentes do John Green, mas eu sinto que a Aza tem um nível de desenvolvimento psicológico muito profundo. E isso só mostra como esse é um dos melhores trabalhos do John Green; o cara ficou seis (?) anos sofrendo para fazer essa história terminar, e dá para imaginar o trabalho de escrita que foi canalizar tudo o que o próprio John sente enquanto pessoa neuroatípica e fazer disso literatura.

Rovena:
Sim! Eu acho que esse livro tem muitos dos vários elementos John Green, mas esse É o livro que grita John Green justamente por falar de ansiedade e todas essas coisas que ele sente. Achei incrível como ele conseguiu transformar esses sentimentos e os transtornos mentais em palavras.

Lorena:
É sempre uma questão, ao se tratar de saúde mental, porque eu sei que existe romantização, mas (e isso é só minha opinião, claro) acho que ainda existe um receio de mostrar na ficção quão pesadas essas coisas são. Especialmente coisas mais difíceis, como as espirais de pensamento obsessivo da Aza

Paulo:
Chocado até agora como ele conseguiu colocar tudo em palavras e fazer disso um livro inteiro. Às vezes eu mal sei explicar o que eu sinto pra minha terapeuta, hahaha.

Rovena:
É verdade. Mas não achei que nesse caso foi romantizado.
Exatamente, Paulo. Essa descrição da espiral de pensamentos… eu achei tão genial.

Lorena:
Nem eu, mas acho que é um caso comum quando se romantiza a tristeza, deixar de mostrar o que acontece por trás da tristeza, sabe? Por isso achei “Tartarugas” interessante, porque além de mostrar o efeito, coloca a gente dentro da cabeça dela (no meu caso, ouvindo o audiobook, mais ainda). Vocês acharam meio trigger também? De um jeito estranhamente bom e ruim ao mesmo tempo?

Rovena:
Achei. A parte dos pensamentos intrusivos, principalmente.
Foi meio que reviver os meus.

Paulo:
Quando a gente estava conversando sobre isso outro dia, Lore, acho que você definiu perfeitamente: pode ser meio trigger, mas, para mim, foi principalmente catártico.
O que mais me pegou foi a coisa da ferida no dedo. Ver essa manifestação física da doença que a gente carrega dentro da gente, esses comportamentos obsessivos, me fez lembrar muito de coisas que a terapia já me ajudou a deixar de lado.

Lorena:
Exato, é bem por aí. Eu tenho algo similar também. E manifestações físicas são intensas, justamente porque no imaginário coletivo a gente tende a ver transtornos psicológicos como algo distanciado da realidade. Mas eu, você e todas as pessoas reais com transtornos vivem no mundo real e interagem com ele, estando bem ou mal da saúde mental. O que cria algumas interações ruins. O que eu achei, aliás, que foi outra glória do livro: ele contextualiza a Aza em uma rotina que ela não nota muito porque está presa na própria cabeça.

Rovena:
E é o que acontece mesmo, né? Na vida real.
Às vezes, eu só percebo que tô bem ruim quando chego no meu limite, porque passo tanto tempo com os meus pensamentos que tem vez que não sei diferenciar muito bem quando tô realmente ok ou quando é só uma aparência mesmo.

Lorena:
O que eu acho que é meio que a incerteza que dificulta as coisas, para nós e para pessoas fictícias. Mudando da Aza pros outros personagens: algum dos relacionamentos chamou a atenção de vocês?

Rovena:
Não curti a amiga dela, mas isso vc já sabia.
Achei que ela foi bastante tóxica e representou direitinho a sociedade (e até algumas pessoas próximas) e esse pensamento de “você é muito cansativa”. Imagina como é estar dentro da minha cabeça, então.
 
Paulo:
Eu também achava o mesmo a princípio, Rovs. Mas depois achei completamente compreensível? Talvez seja um pouco do meu self-hate falando, mas eu acho “justo” (na falta de outra palavra) ela se sentir deixada de lado e agir da forma como ela age. Pelo menos é exatamente a imagem da Daisy que minha mente cria quando eu penso em como alguns dos meus amigos se sentem sobre mim.

Lorena:
Eu achei ela irritante nesse sentido, mas é, é mais ou menos como eu imagino que as outras pessoas se sintam sobre mim.

Rovena:
Eu entendo isso, mas ao mesmo tempo o que a Aza tem (e o que nós temos) não é algo fácil de controlar. E se é difícil pra eles e a gente entende isso, podia rolar um esforço pra entender o nosso lado (o que nem sempre acontece).

Paulo:
E a minha impressão é de que todas as relações que a Aza cria são muito relatable, sabe. Dela com a amiga que tem suas questões “deixadas de lado”, do crush com o qual ela não consegue ser tão íntima na vida real. E até a mãe que tenta ajudar mas não sabe tanto como lidar. Tudo isso fez com que eu me projetasse muito na Aza.

Lorena:
Uma coisa que eu acho que já surgiu em conversas prévias que tivemos sobre o livro (olá leitores, nós somos realmente amigos e falamos sobre livros outras horas) é que elas estarem mais em igualdade é algo que eu achei inesperadamente legal nessa história. Por exemplo, se fosse a mãe da Aza se frustrando com ela talvez fosse mais intenso. De certa forma, a figura da Daisy ter essa faceta de irritação torna o conflito nossa cabeça x o mundo mais real. E acho que ser a figura da melhor amiga foi melhor porque é mais compreensível uma adolescente se sentir assim.


Outra coisa a se lembrar: a Aza é a manifestação de narradora não confiável.

Rovena:
Se fosse a mãe poderia ser muito mais triggering pra algumas pessoas, né?

Paulo:
Sim! Isso da confiabilidade é muito importante. Tanto é que a primeira coisa que eu te disse sobre a Daisy foi: meu deus, que personagem caricata! Mas aí o John vem e desenvolve tudo isso mais para frente

Lorena:
E é interessante notar a relação que a Daisy e o Davis têm com o transtorno da Aza, porque adolescentes não necessariamente vão ter experiência o suficiente para lidar com isso da melhor forma possível, ainda mais se eles estão sofrendo por outras coisas. Acho que é natural mesmo.


Agora, o que eu achei legal também foi o sub enredo de mistério.

Paulo:
Adorei também! Porque é isso, todo o ponto da história é a Aza sendo uma pessoa com ansiedade tentando ser uma pessoa boa – ou simplesmente uma pessoa, e ponto. O autor poderia ter situado isso apenas num contexto de adolescente na faculdade com os dramas de crushes e conseguir entrar na faculdade etc. etc., mas a sacada do Holmes e o subplot de mistério foram incríveis.

Rovena:
“Tartarugas” mostra bem como é ter algum transtorno e seguir com a vida.
A Aza vai pra escola, tem amigos e um crush e no meio disso tudo tem uma crise. E é exatamente desse jeito (pelo menos comigo).

Paulo:
Meu único receio é que isso decepcione ou afaste as pessoas? Se você for ver na sinopse da edição brasileira, por exemplo, todo o primeiro parágrafo é sobre o desaparecimento do bilionário. Se a pessoa compra só por isso pode se decepcionar, ou se ela nem ligar muito para esse tipo de história não vai nem querer ler.

Lorena:
A maioria de nós não encontra mistérios e milionários, mas a real é que sempre temos que lidar com as tangentes que nosso cérebro cria enquanto tentamos focar em coisas mais importantes.

Rovena:
Isso!

Lorena:
Nossa, preciso dizer que eu não tinha lido muitos spoilers e não achei que isso ia envolver o livro, foi bem inesperado (e não muito clássico John Green). Entendo o receio, mas gostei da ideia.

Paulo:
Um comentário divertido: toda vez que eu vejo vocês digitando nesse chat, lembro das conversas on-line entre Aza e Davis. hahha


E aí, o que vocês acharam desse ship?

Rovena:
Eu amei esse ship <3 achei muito gracinha.

Lorena:
Eu não sei de onde John tirou a ideia de garotos fofos que ele criou, mas nunca encontrei nenhum desses na minha adolescência. Achei gracinha também. E ironicamente gostei mais ainda que não foi endgame.

Rovena:
Amigos, sobre não ser endgame: esse final foi tão destruidor. Aquela frase de primeiros amores servem pra mostrar que podemos amar e ser amados acabou comigo. Porque isso é tão real, mas acho que nunca vi desse jeito. E isso também serve para outros amores e não só o primeiro.

Paulo:
Sim!!! E toda a reflexão que a Aza faz sobre o primeiro amor ser aquele que mostra que você pode amar e ser amado, achei importantíssimo. É muito bonito e importante ter uma mensagem dessas em meio a temas tão pesados.


socorro, falamos o mesmo hahahaa

Lorena:
hahahahaha

Rovena:
Eu e Paulo = soulmates

Paulo:
<3

Lorena:
Seria muito fácil (e perigoso) eles acabarem juntos. Quer dizer, books belong to their readers e na cabeça de cada um podemos pensar o que aconteceu com eles depois do fim das páginas. Mas esse final é interessante justamente porque não cai no clichê de um amor salvar dos transtornos psicológicos.

Rovena:
Exatamente.

Paulo:
Sim! Acho importante, principalmente, porque muitas vezes um relacionamento amoroso saudável pode ajudar nessas questões. Não salvar ou curar, mas ser um apoio muito importante. E é isso que o John mostra. O Davis foi muito relevante para a Aza descobrir coisas em si, proporcionou experiências legais e, no fim, ela continuou sendo ela mesma e tendo a doença, mas com essa figura que deu apoio e deixou boas lembranças.

Lorena:
De certa forma isso mostra que as pessoas coexistem com seu transtorno. Que existem esperanças, mesmo que não exista e “cura mágica”. E acho que esse relacionamento entre os dois também mostra que a vida continua. Ambos estavam sofrendo com coisas além de seu controle e serviram de apoio um para o outro. E mesmo que o fim não seja uma grande cena romântica, é uma forma de dizer que foi importante.

Rovena:
Sim <3
E o final mostra isso mesmo, né? Quando a Aza fala dela no “futuro”. Ela cresceu, estudou e se formou. Casou, tem uma família e de vez em quando é hospitalizada, mas a vida segue e sempre há esperança.

Paulo:
O fim do livro como um todo é uma mensagem de esperança para nós, né? (eu ia continuar a escrever mas a Rovena já disse o mesmo hahaha muito soulmates <3)

Rovena:
Amando essa conexão de pensamentos <3

Lorena:
Mais alguma coisa que vocês queiram acrescentar sobre a leitura?

Rovena:
Sobre os pensamentos intrusivos: eu gostei de verdade a forma que o John encontrou pra dar vida a eles.
Enquanto eu lia eu só conseguia pensar “é assim mesmo! é assim mesmo!”
A gente luta contra no começo, mas nem sempre conseguimos vencer a batalha.

Paulo:
Sim!
E o que eu quero dizer é: leiam esse livro, por favor. E não esperem um “A culpa é das estrelas – parte 2”. Vá de coração aberto e aproveite a leitura. Se você é neuroatípico, leia e se sinta compreendido; se você não é, leia e sinta empatia pelos que são.

Rovena:
Isso que o Paulo falou!

Lorena:
A última coisa que eu queria dizer é que esse livro me lembrou de que nós não existimos em um vácuo. Nossa relação com as outras pessoas, com nosso ambiente, afeta nossa saúde mental. E que é importante considerar isso. Assim como também é importante tirar o estigma em torno de saúde mental.


E essa é minha deixa pra agradecer vocês dois por serem o tipo de pessoa que me traz compreensão. O que é o que importa, no fim das contas. Empatia e compreensão.

Rovena:
Sejam pessoas compreensivas, leitores!

Paulo:
Por favor!

Lorena:
Vou terminar essa conversa citando o livro: “Anybody can look at you. It’s quite rare to find someone who sees the same world you see”.

 

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@lorebpv) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.