Talvez você precise deixar essa pessoa ir embora


Texto: Gabriela Varella

Quando foi que você se tornou uma estranha para mim?

 

Amigos sempre foram a representação mais palpável de uma família. Desde criança, eu já sentia um pesar muito grande em saber que essas relações poderiam, um dia, deixar de existir. Perdi as contas de quantas vezes, ainda na infância, eu abdiquei da minha própria vontade para não entrar em conflito com algum amigo. É claro, essa coisa toda muda quando a gente amadurece.

 

Sentada à sua frente, hoje, já não consigo reconhecer as semelhanças de quem encontra características em comum com a naturalidade de uma amizade que começa sem insistência. A personalidade, antes tão compatível, já não parece fazer mais sentido. Quem é aquela pessoa que cresceu e já não me parece a minha amiga inevitável? Ou fui eu que cresci e você ficou para trás? Não sei.

 

A ausência já era constante. A troca de mensagens era curta. O tempo de espera entre as respostas era longo. Às vezes, não chegavam. Frases esquecidas, de um assunto qualquer, já findo pelo silêncio. Foi aí que chegamos ao nosso limite.

 

Em algum momento, essa amizade se tornou um esforço constante. E o mais doloroso é perceber que, mesmo nas raras ocasiões que você aparecia, existia aquele vazio. As histórias já não pareciam mais relevantes para serem compartilhadas. Existia um abismo – quando foi que ele surgiu? – de distância entre as realidades que cresceram e evoluíram juntas. Não importa. O riso não é fácil, fica preso na garganta. Quando saía, era sem graça e tentava preencher o vazio que existe entre nós. Não preenchia.

 

Terminar um relacionamento é mesmo difícil. Às vezes, ao frequentar um lugar em comum, sentir um cheiro… Afloram lembranças preenchidas por tristeza. Tanto se esforçou, tanto fez, mas não houve meio de reatar aqueles laços frouxos. Como em todos os relacionamentos, não se obriga alguém a querer estar perto do outro.

 

Dá raiva. Mágoa. Aquelas palavras atravessadas, de pessoas cansadas. Desgasta. A cobrança é quase permanente. Colocar o ponto final é inevitável. Quando chegamos ao limite, a saída é tentar ser gentil consigo mesmo – e admitir que já não há mais tanto em comum; não vale a pena reabrir a ferida.

 

Se por acaso eu te encontrar, amiga, talvez eu vire a próxima esquina. Talvez dê um sorriso frouxo, típico de quando um olhar conhecido encontra o outro, mas não existe o ímpeto da saudade. Talvez eu simplesmente não te reconheça. Talvez eu me lembre.
Amiga, temos de admitir que chegamos ao nosso limite. Não nos reconhecemos mais.

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