Sussurros


Texto: Amanda Tracera

Nossa sociedade tem o hábito terrível de apagar mulheres. Apesar das inúmeras razões pelas quais essa realidade se estabelece ― inclusive nos dias de hoje, diante do crescimento evidente do movimento feminista ― e embora exista uma preocupação considerável das próprias mulheres para que haja uma corrente que evite esse silenciamento “automático”, é inegável a nossa inserção em uma cultura que, via de regra, exclui a participação feminina dos livros de história e das conversas de bar, ainda que elas tenham conquistado e realizado feitos importantíssimos ao longo dos anos.

É por isso que, embora vivamos em um país obcecado por futebol, a maior artilheira da história da seleção pede, emocionada, para que o apoio ao time feminino continue apesar do fim das Olimpíadas de 2016; embora estudemos ciências durante a maior parte da nossa vida, não saibamos nomear nem três mulheres que tenham sido “grandes“; embora discutamos política, quase não tenhamos líderes femininas e a nossa representatividade equivalha a menos da metade dentro dos governos mundiais. Somos muitas, somos consideravelmente importantes, e, ainda assim, continuamos sendo silenciadas.

Se essa realidade existe agora, quando a sociedade, de modo geral, é “livre”, era muito mais difícil existir e ser mulher nos tempos da ditadura. Durante o século XX, quando os regimes totalitários explodiram ao redor do mundo, calar as vozes femininas era muito mais fácil e muito mais comum do que atualmente, e embora o movimento feminista tenha criado raízes em momentos de forte repressão, as lutas nesses momentos eram em grande maioria por direitos extremamente básicos. A figura da mulher, dentro desses governos, era plenamente associada à casa, aos homens com quem elas estavam, aos filhos e ao silêncio.

É, entretanto, dentro da sociedade fascista de Salazar, em Portugal, que surge uma espécie de grito contra esse cenário. No ano de 1972, Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno (ou, como ficaram conhecidas, as 3 Marias), publicam o livro intitulado Novas Cartas Portuguesas, uma releitura do livro Cartas Portuguesas, de Mariana Alcoforado. Na obra original, Mariana, uma freira portuguesa, escreve cinco cartas ao soldado amante que a deixou; já no novo texto, as 3 Marias fazem um manifesto que procura questionar e enfrentar os padrões impostos ao gênero feminino.

 

“(…) De Mariana tiramos o mote, de nós mesmas o motivo, o mosto, a métrica dos dias. Assim inventamos já de Mariana o gesto, a carta, o aborto; a mãe que as três tivemos ou nunca e lha damos. A acusamos, recusando-nos a ilibá-la por fraqueza, cobardia, fazendo dela uma pedra a fim de a atirarmos aos outros e a nós próprias.


Nos acusamos, sabendo no entanto do peso de rocha, de planta, da nossa força. Do poder com que ‘saltamos juntas’ – o dizes – e do alimento que sempre de alguém tiramos para que com ele nos vestirmos e envergadas de mundo lhe sabermos melhor o gosto e as fraudes com que sempre impediram à mulher o acesso a tudo. (…)”

Na obra, essas três mulheres escrevem pouco mais de trezentas páginas sobre a posição da mulher dentro da sociedade, seu papel, e como o simples fato de existir já era uma manifestação de força e coragem. Em textos que variam entre cartas, poemas e narrativas, elas se utilizam do contexto de opressão geral para expressar uma opressão ainda menos evidente socialmente, e criam entre si – e com outras mulheres – laços de irmandade, evidenciando a importância da ajuda mútua e de se conhecer e se impor especialmente como alguém do gênero feminino dentro de um ambiente hostil a qualquer forma de afronta aos padrões sociais tradicionais.

O livro foi rapidamente aclamado e reconhecido, além de ter forte influência para o fim da ditadura justamente pelo seu caráter revolucionário. Cópias dele foram publicadas ao redor do mundo, mas ainda assim sua circulação foi proibida pelo governo, que o considerou “prejudicial” e “imoral”, e embora as 3 Marias tenham sido processadas, nunca foram de fato presas.

A existência dessa obra nos permite questionar o papel da mulher dentro de inúmeros contextos, e faz surgir a dúvida: por que conhecemos Pessoa e Saramago na escola, mas nunca fomos apresentados às Marias? Vivemos em um mundo que se preocupa em abafar todo grito dado, porque abalar os pilares (já rachados, mas ainda de pé) que sustentam a nossa sociedade tradicional é considerado absurdo e inaceitável. Quando esse grito parte de uma boca feminina, ele é imediatamente transformado em sussurro. Mas é com murmuros que se forma um zumbido alto o suficiente para incomodar o silêncio perfeito de quem controla o poder, e é a partir desse incômodo que nós seguiremos existindo, apesar dos apesares.

“(…) E ingrata será a mulher que se nega a querer a quem a queira, determinada que está desde nascença, a ter a sua vida à espera sem pelo menos conquistar direitos de vontade e raivas bem seguras, argumentadas logo como armas. De ingratas, pois, seremos acusadas; estranhas parecendo, logo desencadeando bravas guerras por literárias tidas, porém de raiz mais funda, tecidas, crescidas e aguerridas em maneiras de más consciências e parcas vinhas.


Mitos desfloramos e desfloradas fomos de consentido. Porém de consentidas não nos tomem. Me tomem. Me tomes. Se tome Mariana que em clausura se escrevia, adquirindo assim sua medida de liberdade e a realização através da escrita; mulher que escreve ostentando-se fêmea enquanto freira, desautorizando a lei, a ordem, os usos, o hábito que vestia. (…)”

(Trechos do texto “Segunda Carta IV”.)

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.