Super-Garotas, Super-Mulheres, Supergirl!


Supergirl é um seriado que estreou no último semestre de 2015 para fazer um conjunto com as outras séries de super-heróis do DCCU – Arrow, The Flash e, posteriormente, Legends Of Tomorrow. Desses todos, eu só vejo Supergirl. Não por uma repulsa específica aos outros seriados, mas pelo simples fato de que esta me trouxe uma experiência que as outras não pareciam me dar. Uma coisa bem simples: interação entre mulheres, um programa voltado para mulheres e que conversa comigo. É um seriado que me representa (eu; branca, cis, de classe média e que consegue se conectar com esse universo americanizado) e que cada vez mais me deixa feliz por demonstrar a sua habilidade em retratar mulheres. A mídia não faz isso bem. Mulheres na televisão são pessoas sofridas, principalmente pelas suas personalidades mal escritas. Então ver uma série retratar tantas mulheres tão bem é raro, muito raro! Ainda mais uma que só tem uma mulher no seu grupo de criadores, Ali Adler. Mas Supergirl, apesar de ter seus problemas e de demorar um pouco para pegar no tranco, está mudando essa imagem e criando uma nova perspectiva.

Mas, acima de tudo, Supergirl está mostrando que garotas e mulheres podem. Podem sim.


A série é composta por quatro personagens femininas e cada qual faz parte do seu próprio mundo, do seu próprio arquétipo de personagens: Kara Danvers, Alex Danvers, Lucy Lane e Cat Grant. Kara (Melissa Benoist) é a Supergirl, mas, ao mesmo tempo, ela é uma menina encolhida na sua própria realidade de estar fingindo ser humana. Ela é acanhada, tímida, mas com opiniões muito fortes e valores morais ainda mais importantes. Kara, tal como o seu primo (o próprio Superman), acredita no bem e em defender a vida, ajudar as pessoas que estão em necessidade e lutar contra o mal. Ela é uma idealista e, ao mesmo tempo, uma super-heroína. A sua personalidade cria todo o clima da série, um formato leve, feminino, forte e poderoso! Uma forma sonhadora de ver o mundo e de ver também os desafios que ela vai ter que lidar, sempre aspirando ser uma pessoa melhor e nos lembrando que nós também podemos ser pessoas melhores, apesar dos tempos difíceis que nos encontramos.

Ela mesma tem os seus tempos difíceis para lidar. Afinal, ela perdeu anos da sua vida presa na Zona Fantasma depois de ter sido mandada embora do seu planeta nos últimos minutos de vida dele. Todo mundo que ela conhece morreu. Quase todo mundo, no caso. Seu primo está por aí salvando vidas e outros conhecidos dela também voltam para lhe assombrar. Mas é um peso nos seus ombros que Kara não precisava sentir. E isso em quase momento nenhum lhe afeta. Ela consegue ser essa mulher (essa garota!) leve, alegre, feliz, divertida, saltitante e empolgada que podemos ver cada vez mais. Assim como o seriado, Kara aumenta os ânimos e cria um sorriso no rosto dos outros – sejam estes os dois envolvimentos românticos ao seu redor ou seus amigos.

Alex Danvers (Chyler Leigh) é uma agente e bioengenheira do DEO (Departatment of Extra-Normal Operations) e também irmã adotiva de Kara e, com isso, carrega nos ombros muitas mais responsabilidades do que era esperado para ela quando nasceu. A série nutre o relacionamento entre as duas irmãs muito delicadamente, trazendo tanto flashbacks dos seus momentos crescendo, dos momentos em que Kara “roubava” o holofote da irmã por seus poderes, suas afiliações alienígenas e da forma como Alex tinha que sempre estar lá para lhe proteger. Como eu mesma sou uma irmã mais velha entendo muito bem que é difícil crescer perto de uma pessoa que parece te superar em absolutamente tudo, como é difícil ser essa mentora que não pode cometer erros, que precisa apoiar e ensinar. Alex cresce na sombra e no holofote de Kara e isso faz  parte da sua personalidade. Uma personalidade que é muito baseada nesse relacionamento lindo! Ela se forma como uma protetora, uma pessoa que precisa ajudar os outros e que vai fazer de tudo para o bem daqueles que ama e dos inocentes ao seu redor. Mas, acima de tudo, o bem de Kara e da sua família.


O jeito como as duas se comportam, se apoiam e, às vezes, se enfrentam em egos e personalidades opostas é incrível! Se amizade real entre mulheres já é difícil de ver na televisão, então amizade real entre irmãs é ainda mais. As duas tinham tudo para estar competindo – ainda mais quando Kara/Supergirl começa a trabalhar no DEO juntamente com Alex -, mas a sua amizade supera essas adversidades, supera os sentimentos ruins que podem existir entre as duas.

Uma que transita entre o papel de antagonista e amiga é Lucy Lane (Jenna Dewan Tatum). Ela se torna um pouco antagonista de Kara por conta de uma trama amorosa (que eu não gosto) que coloca as duas gostando do mesmo cara, James Olsen (Mehcad Brook). É nesse contexto que ela entra na vida de Kara, como a ex-namorada de James que está aparecendo de novo na vida dele e com quem ele volta a se relacionar. Um ciúme cresce entre as duas e aumenta ainda mais quando Lucy também está interagindo com Supergirl, mas dessa vez por conta do seu trabalho. Diferente da sua irmã Lois (Lane, ela mesma), Lucy seguiu a carreira militar como promotora e estava investigando o DEO. Nisso, ela entra em conflito com Kara em dois frontes. Mas depois que as coisas de acalmam e as tramas se resolvem, nós conseguimos apreciar mais a persona de Lucy e o que ela traz para a série. Lucy é uma mulher empenhada, firme, centrada, organizada, pronta para servir e seguir os valores que ela considera justos, mas, acima de tudo, cumprir com as ordens que são corretas. Mas, ao mesmo tempo, ela é uma mulher que tem uma vulnerabilidade explorada, ela também tem defeitos e grandes eles são. A sua trama com James desenvolve um lado de Lucy que faz com que a personagem cresça, apesar de não fazer a mesma coisa com Kara. Lucy se torna muito mais do que um desenvolvimento romântico para vir entre dois personagens enquanto ela avança pela série, por empregos e por outras tramas.

Depois dessas três, chegamos na minha personagem favorita da série: Cat Grant (Calista Flockhart), que é a fundadora da CatCo Worldwide Media, um conglomerado midiático que faz de tudo dentro da comunicação. Cat é uma mulher forte, inteligente, poderosa (no sentido político da palavra, literalmente), feminista e que se esforça muito para ser temida em vez de amada. Além disso, ela também é a líder de uma empresa, uma empresa de mídia, que é um ramo altamente problemático por nunca trazer mulheres em cargos tão altos. Sempre com entradas triunfais e esperando a excelência de todos os seus funcionários, Cat lembra muito a Miranda Priestly de O Diabo Veste Prada, e apesar disso ser um estereótipo da mulher de negócios, é desenvolvido de uma forma sublime pelo seriado. Cat, afinal, tem que lidar com o filho que ela deixou de lado em prol do seu trabalho, lidar com as pessoas que a subestimam, lidar com pessoas que tentam usar o seu gênero contra ela e, também, ser a principal fonte de notícias da cidade. Tudo isso sem descer do salto – porque se ela fizer isso, ninguém nunca mais vai lhe levar a sério, como ela mesma fala em uma cena incrível – e sem perder o sarcasmo e a ironia que vazam pela sua voz durante todos os momentos do seriado. Mas, acima de tudo, sem se impedir também de aprender e de crescer. Arrogante, acreditando que sempre sabe de tudo e que nada pode lhe mostrar como está errada, Cat tem que lidar com os seus próprios defeitos, seus próprios problemas e os perigos que a sua vida lhe coloca. Mas, ao mesmo tempo, ela é uma das mulheres mais inspiradoras dentro do seriado e também uma das mulheres que mais inspira Kara a poder procurar o seu melhor.


O melhor momento de Cat, para mim, aconteceu logo no primeiro episódio. O momento que me fez saber que essa série eu precisava prestar mais atenção, porque ela iria me passar muito mais do que entretenimento. Essa quote acontece quando ela dá o nome à Supergirl e Kara, incomodada com o nome (citando que talvez Superwoman seria melhor) discute com Cat sobre isso. Ela se sente diminuída pela ideia de que seria uma “garota”, uma menina, como se infantilizada ficasse menor. A sua resposta é bem simples e direta:

Kara Danvers: If we call her “Supergirl”, something less than what she is, doesn’t that make us guilty of… of being anti-feminist? Didn’t you say she’s the hero?

 

Cat Grant: I’m the hero. I stuck a label on the side of the girl. I branded her. She will forever be linked to CatCo, to the Tribune, to me. And what do you thik is so bad about “Girl?” Huh? I’m a girl. And your boss, and powerful, and rich, and hot and smart. So if you perceive “Supergirl” as anything less than excellent, isn’t the real problem you?

Apesar dela estar usando a Supergirl para crescer a sua empresa, usando a imagem de outra mulher para acrescentar na sua, Cat faz isso com uma graça que coloca a ideia de Kara de que ser SuperGIRL poderia ser menor do que qualquer outra coisa. Até porque… O que há de errado em ser uma garota? Garotas são fortes, são firmes, são graciosas, são poderosas, são fenomenais. Garotas podem voar, podem correr, podem lutar, podem derrotar os vilões todas as semanas, apesar das adversidades daquele episódio. Supergirl pode, Alex Danvers pode, Lucy Lane pode, Cat Grant pode e todas as outras que aparecem menos – até as vilãs, que são muitas! – podem.

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Sobre Priscilla Binato

Uma carioca de coração, 21 anos completos em janeiro e gateira como profissão (ou ao menos um sonho). Estudo jornalismo e estou quase me formando, mas tenho aspiração de escrever como profissão. Detesto sushi, pizza, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e muita coisa que todo mundo acha legal, to nem aqui. Sou lufana de coração e de alma, 100%, além de feminista, assexual e chata do rolê.