Sua individualidade não existe: a generalização dos ‘livros de mulherzinha’


Numa bela tarde de sábado, fui à livraria e saí de lá com A elegância do ouriço, de Muriel Barbery. Na saída, encontrei alguns amigos e fomos comer. Chegando no restaurante, uma amiga resolveu me apresentar um cara que, segundo ela, tinha muita coisa em comum comigo. Dessas situações chatas que toda pessoa solteira passa na vida. O dito cara chegou e educadamente puxou assunto. Perguntou qual livro eu tinha comprado. Respondi e mostrei o livro. “Não é romance, é?”, disse o sujeito com cara de quem preferia comer um formigueiro do que ler uma absurda e enjoativa história de amor.

É essa a primeira coisa que vem à cabeça de algumas pessoas quando veem uma mulher com um livro. Mulheres gostam de histórias de amor. Histórias de amor são bestas. Livros com romance são rasos. Mulheres são rasas, logo tudo que as agrada faz parte de um gênero menor. É “literatura de mulherzinha”. MU-LHER-ZI-NHA. 

 

92QajG9-1416591241

 

Você pode pensar que é uma indignação fora de proporções. Nesse caso, você 1) é homem ou 2) nunca teve sua capacidade intelectual questionada a partir de um julgamento muito superficial do que você lê. 

Livros escritos por mulheres, sobre mulheres e com o público principal formado por mulheres, ao longo dos anos, foram denominados um gênero à parte, o “chick-lit”. A própria criação de um termo separado para esse tipo de livro já é problemática. “Mas existe uma diferença natural entre livros comerciais e a Grande Literatura™”, você pode dizer. Ok, mas homens também escrevem livros considerados leitura de entretenimento e nem por isso se tornaram um nicho ainda mais marginalizado do mercado. Por exemplo, Dan Brown é desprezado pela crítica, mas seus livros não são “livro de omizinho e suspensezinho”. E, além de tudo, mulheres também leem Dan Brown. 

Autoras como Marian Keys e Sophie Kinsella, algumas das mais conhecidas dentro do dito “gênero”, são ligadas a um tipo de leitura para esvaziar a cabeça. Apesar da insistência em dizerem que isso se deve à qualidade literária duvidosa delas, não consigo abandonar a sensação de que, na verdade, a diminuição das histórias contadas por essas mulheres tem muito a ver com a desvalorização da própria experiência feminina. Sim, vocês podem trabalhar, desde que respondam perguntas idiotas sobre conciliar carreira e vida pessoal e nunca jamais pensem em dizer em voz alta o que passa por suas cabeças. Pois sua individualidade não existe. 

O deboche e o riso não são reações lá muito inovadoras quando se trata disso. Sabemos que Jane Austen era ridicularizada por querer viver de sua escrita, assim como seus romances foram considerados “chick lit do século XIX” (termo cunhado por um professor homenzinho de merda que tive o desprazer de ter). Não é coincidência. Talvez as características mais formais e literárias de Jane Austen não tenham nada em comum com as da Marian Keys, mas com certeza as reações a seus trabalhos, em suas temporalmente distantes sociedades, são muito próximas. 

Ser denominada “mulher” no nascimento significa receber uma enorme carga de conceitos e construções sociais a respeito de como uma mulher deve ser. Gostar de roupas, ter mais contato com as ditas emoções, ser sensível e educada e, acima de tudo, ser bonita. Porque o amor romântico, ah, esse nos é incutido desde o berço, passando pelos desenhos animados em que a recompensa é o amor do príncipe e todos os outros aspectos de uma conjuntura social que nos diz que PRECISAMOS. DE. UM. HOMEM.  Romantizam todos os objetivos que uma mulher supostamente deve ter ao mesmo tempo que muito claramente definem feminilidade, e logo em seguida fazem questão de deixar claro que qualquer manifestação cultural com essas características é baixa. É risível. É de mulherzinha. 

O nome no diminutivo não é por acaso. Assim como não é por acaso que as capas de livros escritos por mulheres costumam ser o estereótipo do “feminino”. Com capas que sugerem uma história leve e romântica no sentido mais comercial da coisa, uma classificação em um gênero considerado menor, uma localização nas livrarias que deixa claro que o único público que pode achá-los minimamente interessante é composto por mulheres (seres obviamente desinteressantes e clichês), os livros de autoras mulheres já chegam ao leitor com uma série de parcialidades que fazem com que essas autoras permaneçam na lista desprezada da cultura, enquanto os homens continuam moldando o cânone. 

A autora americana Maureen Johnson, incomodada com isso, propôs no twitter que seus seguidores criassem novas capas para livros bastante conhecidos. O projeto se chama coverflip e você pode encontrar alguns exemplos abaixo. A nova capa proposta deveria imaginar que o autor ou autora fosse de outro gênero ou genderqueer. O resultado permitiu ver claramente o quanto credibilidade, em literatura e no mercado editorial (assim como em qualquer outro meio cultural), está muito atrelada ao gênero de quem faz. Porque homens produzem arte, enquanto mulheres produzem coisas de mulherzinha. Homens escrevem o próximo grande romance (gênero textual, claro, não confundir com essa besteira de histórias de amor), enquanto mulheres se distraem e merecem no máximo um sorriso condescendente. Mesmo que o número de vendas desses livros prove que tem alguém do outro lado que se identifica com a história.

Mulheres escrevem o que querem, como disse a Analu. Escrevem poesia e ficção literária. Escrevem suas experiências mais particulares e aquilo que compartilham enquanto grupo social. Possuem, sim, um projeto artístico. Não são todas que estão apenas desabafando em forma de texto. E aquelas que estão também merecem ser lidas e aplaudidas, porque em um mundo que diminui todos os dias e de todas as formas a importância da nossa experiência humana, insistir em falar é também resistir e ajudar sua irmã a resistir.  

Se as minhas irmãs quiserem escrever ou ler sobre guerras, reinos distantes, ficção científica ou a grande tragédia do ser humano no mundo pós-moderno, vou achar revolucionário. Se quiserem escrever ou ler histórias de amor, vou achar tão revolucionário quanto. Porque podemos ser tudo isso e muito mais, inclusive ao mesmo tempo. Mesmo que nos digam o contrário.

1

2

3

 

Leia aqui o que a Maureen Johnson tem a dizer sobre isso.

Compartilhe:

Sobre Milena Martins

Milena tem 23 anos, é carioca da gema e paulistana em treinamento. O chapéu seletor gritou Lufa-lufa antes de encostar na cabeça. Estuda Letras e gosta mesmo é de falar de livros e divas pop. Continua não fazendo a menor ideia do que está fazendo com a sua vida, mas gosta de fingir que sim.