Sou feliz sendo gorda, mas precisamos conversar


Texto: Marília Moreno // Arte: Raquel Thomé

Eu sou feliz sendo gorda. Pode acreditar. Me sinto linda, gostosa, desejável. Eu não sou linda apesar de ser gorda, eu sou linda E gorda. Ser gorda me define. Eu cresci sendo gorda e ouvindo coisas com “isso não é saudável, você precisa emagrecer” ou “desse jeito ninguém nunca vai te amar”. E o mais triste nisso tudo é que gente realmente acredita. Porque são as pessoas que amamos e que cuidam de nós que dizem isso. Tem também aqueles infelizes que jogam coisas na gente, nos humilham sempre que podem e dizem que somos nojent@s. Mas quando conseguimos deixar isso pra trás, algo muito incrível nos acontece e isso se chama amor.

Há uns anos atrás eu decidi que não queria mais emagrecer. Eu decidi ser gorda e nunca mais me frustrar com o não resultado “daquela dieta nova”. Entendi que eu me frustrava muito menos aceitando ser gorda do que lutando contra isso e, por consequência, me destruía muito menos. Resolvi deixar pra trás a vontade de ter uma doença como diabetes ou câncer pra conseguir emagrecer. Isso faz parte da minha história e me dói que tenha sido assim, mas é possível mudar. Eu estou satisfeita e feliz o tempo todo? Não. Ainda encontro problemas em ser gorda? Muitos! É só entrar em qualquer loja de roupas comum e eu encontro vários. Tentar me relacionar então… um martírio! Lembra daquilo que a gente acreditou? Pois é. Mesmo aceitando e amando o meu corpo, ainda existem as pessoas que não amam e que não respeitam. Elas entendem gord@ como um adjetivo que qualifica caráter, beleza e até inteligência. Por isso eu insisto em falar sobre isso.

Li um texto outro dia que me fez lembrar de muit@s amig@s que tive e que hoje não estão mais ao meu lado. El@s costumavam dizer “eu te amo” e hoje quase não me dizem “oi” ou “feliz aniversário”. Tudo bem, acho que as vidas seguem, se cruzam, se descruzam. Vai ver nem é por ser gorda. Mas provavelmente algumas dessas pessoas passaram a não me querer por perto quando eu assumi isso de verdade junto com o feminismo. Entendo, ninguém quer ser cobrado ou corrigido, mas eu também não quer ser desrespeitada, ignorada ou usada. Quando a gente se mete na militância é porque quer mudar o mundo. Quer transformar as coisas ruins em boas.

Dessas coisas que incomodam quando você é a única gorda do rolê a que me veio à cabeça recentemente é justamente o lance dos relacionamentos. No momento, os que eu não tenho e adoraria ter. Por algum tempo me perguntavam se eu não tinha nenhuma amiga pra apresentar e eu ia atrás disso pros meus “brothers”. E eu me perguntava quando isso iria acontecer comigo. Será que um dia vão me apresentar alguém? Nessa época eu ainda pensava em dietas e cirurgias plásticas e ficava pensando “será que não conhecem ninguém que sirva pra mim? Será que nenhum cara que ess@s amig@s conhecem se interessaria em mim? Talvez nenhum goste de mina gorda”. Até que a gente se acostuma a nunca estar acompanhada ou nunca ser apresentada a ninguém e se fecha como que pra sempre. Ninguém vai ser apresentad@ mesmo. Esse sentimento é horrível e é muito maior do que só apresentar pessoas.

Tem uma hora que ser gord@ vai além da nossa própria aceitação. É também uma questão externa. De não existir nas lojas e ter coragem de entrar nelas mesmo assim, de conseguir comer em público sem achar que estamos sendo julgad@s, de perceber o sentimento de pena nos olhares e não sofrer mais com isso. Não depende só de nos aceitarmos, nos amarmos e nos acharmos lind@s. Pois mesmo nos discursos de empoderamento a gente ainda pensa se nos dizem “você é lind@” apenas pela amizade ou se somos mesmo, independente da relação. Eu me acho linda justamente por ser gorda, por isso ser tão parte da minha personalidade, da minha forma de pensar. Será que me acham linda por isso também?

Como feminista, me sinto na obrigação de refletir sobre como fui aquela que não é vista como uma mulher por muitos homens cis. Ser gorda ainda é não ser sexy, não ter tesão, não fazer sexo casual, não ser gostosa. A gente não pode dançar livremente e nem falar de sexo sem pegar um ou outro olhar torto. Pra uma gorda, só o ato de sair de casa é um ato de resistência. Nós nunca somos as mocinhas, as musas, as empresárias, as artistas. Nós somos as palhaças, as que são usadas pelo comedor da novela, as humilhadas. A nós cabe apenas isso ou o papel de “brother”. Como é que a gente vai se relacionar? Com que garantias de respeito?

Eu namorei e transei como qualquer outra pessoa. Quer dizer, quase qualquer pessoa. Nunca foi muito fácil desapegar da roupa. Às vezes rola uma entrega e a gente esquece até a cor do nosso cabelo. Mas nem sempre. E deveria ser sempre.

Hoje eu não sinto mais nojo ao olhar no espelho. Aquele velho inimigo hoje é um grande parceiro. Hoje, ao me olhar no espelho, eu não sinto raiva, eu sorrio. Eu não olho apenas o meu rosto bonito, olho meu corpo todo e ele é lindo. Eu queria ter me aceitado muito mais cedo. Teria me poupado muitos anos de sofrimento. Foi duro e me machucou. Agora não me machuca mais. Agora eu lido com isso. Reflito sobre, converso com as pessoas sem que isso seja um problema pra mim. E também entendo que ainda é um problema para @s outr@s. Mas aqui dentro, ser gorda é só amor. Mas me relacionar… Bem, relacionamento pra muita mulher gorda ainda é um capitulo que está por vir. Um que vamos escreveremos com consciência, respeito, amor próprio, desconstrução e, acima de tudo, construção.

 

*É tão acolhedor encontrar pessoas com vivências semelhantes às nossas! Segue aqui a leitura provocante que despertou meu coração para novos horizontes e me fez refletir sobre o passado em comum que tant@s temos, mesmo sem nunca nos encontrar. Não estamos sós.

 

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  • Pingback: Olha a gorda!!! | Textos de Marilia()

  • Mariana

    Eu me identifiquei muito com o texto! Poderia ter sido escrito por mim. Mas eu venho aqui compartilhar meu momento, e é o momento em que superei a fase do relacionamento. Me mudei para a Espanha para estudar por um ano. Cheguei sem nenhuma, ou muito pouca pretenção. Na minha cabeça ” com certeza o homem europeu gosta muito menos de gorda, do que o brasileiro” e a real é que era só coisa da minha cabeça mesmo. A primeira coisa que fiz, foi fazer algumas contas em estes apps de relacionamentos, e então veio a surpresa: em um deles cheguei a ter mais de 12.000 likes! Eu fiquei sem entender, como era possível? Como era possível que alguém que nunca foi desejada antes, pudesse fazer tanto sucesso agora? Essa resposta eu ainda não encontrei. Pode ser meu título de brasileira ( sim, as brasileiras realmente tem aquele esteriótipo de mulher sexy e quente), poderia ser pela carência do homem daqui, poderia ser por eu ser exótica, ou poderia ser pelo simples fato de eu ser bonita e interessante. Independente de qualquer coisa, eu aproveitei o momento para me esbaldar! Fiquei com vários caras, fiz muito sexo casual, fiquei de casalzinho com alguns por algumas semanas/meses e soube, então, que minha atitude tinha mudado mais que drasticamente, que a única coisa que faltava em mim era desinibição e autoconfiança, nada mais que isso. Por fim, neste último semestre, encontrei “meu cara”, aquele cara que me tem feito vivenciar, tudo o que eu sempre quis. Em um ano, eu experimentei tudo o que não pude por toda a minha vida, pelo simples fato de não acreditar em mim, por ter sido sempre gorda. Da pregação alucinada, ao jantar romântico a dois. Às vezes custa acreditar que muitas das meninas que estão fazendo intercâmbio comigo, vem me pedir dicas de sedução ( oi?), meninas lindas, magras, com rostos de anjo e cabelos impecáveis. Posso dizer que indepentente de gorda, ou magra, confiar em si mesm@ é a chave para se relacionar. Isso vale desde fazer amigos, a ter um parceir@.

  • Marílya Costa

    Perfeito o texto. Me identifiquei e me representa, amei mais ainda pelo fato da escritora ter o mesmo nome que o meu. Estamos juntas e somos lindas e gordas, gorda virou adjetivo de elogio positivo, me acho mais linda ainda quando me chamam de gorda. Se aceitar é tudo de bom 😘❤

  • Dee Proc

    Má, você é linda! Demais esse texto!! Que sua mensagem seja disseminada para todas e todos! Beijos!

  • Cami

    Que texto incrível! Me senti plenamente representada, estamos juntas!

  • Lidia Eliane

    O texto mais perfeito que li! Valeu, de coração. <3