A sombra que me ensinaram


Arte: Raquel Thomé // Texto: Marília Moreno

Eu sou a sombra do que me ensinaram. E esse conteúdo nunca foi bom.

Nunca estive dentro do chamado satisfatório. Cresci literalmente tentando me encaixar nas roupas, nos gestos, na língua e nos sapatos.

Fui moldada a ser disforme. Incompleta. E por minha culpa. Pela minha forma não fui, não seria e nunca serei feliz. Pois ser feliz, me disseram, era ser amada. E “quem amaria alguém com este corpo, este cabelo indomável e ainda falando palavrão?” Não. Não haveria solução para mim enquanto eu não coubesse.

Fui invertida. A lógica toda foi invertida. Vai ver eu olhava o mundo a partir dos pés e não dos olhos. Quem se importava com o que viam era el@s, não eu. Eu só queria ir. Sem pressa, sem medo, sem tempo ou tamanho.

É tão triste saber que eu ainda não caibo. Dessa vez em mim. Porque, por mais que eu tente esquecer, eu sempre lembro daquelas palavras, “ninguém vai gostar de você se…”

Se o quê? Me diz! Me diz para que eu possa também ver o mundo pelos olhos! Pelos meus olhos…

Ninguém me diz. Hoje me dizem o contrário de tudo que aprendi. É finalmente lindo e encorajador. Finalmente eu posso escutar o que me ensinam. Exceto por aquela voz que insiste em me colocar pelos olhos e não pelos pés. Invertida.

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