Sobre mais essa ilusão de que precisa ter para bem viver


Texto: Ellen Alves

Quando o invisível aos olhos não é mais essencial, mas sim o material que se pode apalpar e até mesmo ostentar. A maioria não vê, poucos investigam, mas a ilusão existente na teoria do ter para bem viver é doentia.

O ser humano pouco percebe, mas carrega inúmeras ilusões dentro de si. Não me refiro aqui a sentimentos derivados de relacionamentos afetivos. Vou além disso. Meu desejo é discorrer um pouco, e de forma bem simplória, a ilusão presente na teoria do ter para bem viver. Não conhece? Te apresento em ligeiros tempos.

Maria tinha 16 anos. Uma família que a amava. Amigos que a admirava. Colegas que dariam de tudo para uma aproximação maior. Porém, ao completar seus 17 anos, o pai de Maria perde o emprego, e junto com ele lá se vai a boa vida de Maria. Os presentes constantes passaram a aparecer de forma esporádica, assim como a alegria da menina, que já não via razão para se sentir bem sem o último lançamento do mercado.

Pode parecer uma historinha boba e sem graça, entretanto é a atual, também cruel – realidade. Espere um pouco e reflita: Já percebeu que as pessoas te analisam e julgam pelo que vêem em você à primeira vista? Você é o que você tem ou demonstra ter. Se o seu exterior é belo – não só fisicamente – mas em apetrechos, o comentário que irá gerar é que sua vida é uma ótima vida. Todavia, se a imagem que passou foi simplória para o ambiente ou classe social, tadinha(o) pobre coitada(o), que vida cruel este ser tem! E o mais irônico, qualquer um se sente mal se não estiver a altura do que se é cobrado.

Se você não tiver o celular do ano: ultrapassado;

Se seu sapato saiu de moda no último verão: cafona;

Se seu computador não tiver as últimas atualizações: em que planeta você vive?

Não interessa mais se ao invés do mais bonito casaco da loja você tem uma companhia divertida para te abraçar. O que importa é o valor da sua bolsa e do seu casaco. Por favor, não seja assim, isso não vai te fazer feliz. Não se entristeça se como Maria perdeu a condição de obter os bens materiais, sinta-se bem pelas pessoas que nutrem um sentimento sincero e verdadeiro por você. Não carregue a presente ilusão de que quanto mais tem mais satisfeito será, doce engano. Ostentação traz um mero prazer passageiro, faz você sentir-se integrado, de fato (por pouco tempo, até que você adquira o novo produto). Entretanto, o vazio que se instala na alma quando o invisível não se faz presente causa um barulho estridente. Aposto que você não quer ouvir. Ou já ouviu?

 

Ellen Alves. 18 anos. Estudante de Letras/Português/Espanhol. Apaixonada como A Pianista de Machados de Assis. Quase tão independente como Joana de Clarice Lispector. Coleciona histórias imaginárias (e trágicas) como Julieta. Exteriormente uma menina, interiormente uma borboleta. Palavras do começo ao fim.

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