Sobre lendas, Deuses, Milagres e acreditar


Eu tinha uma amiga que costumava dizer que uma fada morre cada vez que alguém diz não acreditar em fadas. Confesso que eu morria de rir: ela levava a história super a sério e ficava chateadíssima quando a gente dizia que não acreditava – coisa que fazíamos de graça, só para implicar. Hoje, anos depois, não tenho como não assumir que a metáfora é realmente ótima: uma lenda só sobrevive mediante a fé que as pessoas colocam nela.

Recentemente, concluí a leitura de “Deuses Americanos”, do Neil Gaiman, que acaba tratando, em suma, sobre esse assunto. Na história, os grandes deuses do universo (tipo o Odin, o Loki e o resto da galera) estão agilizando uma batalha contra os deuses atuais (“seres” como a televisão e o shopping center) que, tendo em vista a inversão de valores da sociedade, andam dominando todo o poder porque obtêm a devoção completa (e a fé) das pessoas.

Como não estamos aqui para fazer juízo de valor de ninguém e nem debater quais deuses são realmente a melhor opção, vamos reparar no assunto do livro sob outro prisma, nos permitir filosofar um pouco ao fazer as constatações e concluir que se um shopping center vira um novo deus ou uma nova lenda, tudo que queremos fazer na vida exige uma questão de fé. Não?

A gente dá um passo após o outro, todo dia, porque acredita que cada um desses passos nos levará a algum lugar. A gente trabalha porque acredita nos resultados, porque acredita no que a gente faz. A gente atravessa a rua porque acredita que tem que chegar ao outro lado. A gente levanta da cama de manhã porque acredita no amanhã. Ou não?

Eu sempre tive para mim que viver sem fé deve ser muito complicado. Uma amiga me ensinou um dia, numa conversa, que se um dia a gente perder a fé, não nos sobra nada e eu acho que essa frase faz todo o sentido do mundo. Se a gente não acreditar em nada, nos sobra o que?

Ainda em “Deuses Americanos”, Neil nos presenteou com a seguinte quote: “Como os jornais costumavam dizer, se a verdade não for suficientemente grande, manda imprimir a lenda. Esse país precisa de lendas. E nem as próprias lendas acreditam nelas mesmas mais.”. Ele fala, rapidamente e meio que em linhas tortas, sob a nossa velha conhecida manipulação das massas pelas mãos da imprensa; sobre a invenção de supostas verdades que necessitam ser acreditadas para que ao menos pareça existir algum caminho. Não é mais uma prova de que sem a fé (nesse caso, coletiva) não se vai nem até a esquina?

Uma lenda pode ser o Papai Noel, que morre um pouquinho cada vez que uma criança dá de cara com os pais colocando o presente embaixo da árvore mas renasce cada vez que uma pessoa dá um presente a alguém (material ou não) sem esperar nada em troca – mas pode ser também o bendito do salário caindo na conta no fim do mês. Pode ser uma música. Pode ser um sorriso. Pode ser o que a gente quiser – mas tem que acreditar.

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Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.