Sobre as barreiras que derruba(re)mos


Ser uma pessoa ansiosa me possibilita uma série de pensamentos desesperados, sobre uma quantidade ímpar de assuntos e situações, especialmente quando eles se encontram muito à minha frente. Recentemente, entre um trabalho da faculdade e outro, me peguei pensando sobre relacionamentos e sobre a forma como eles são retratados no livro “Admirável Mundo Novo”, do Aldous Huxley. Perceber a superficialidade das interações pessoais na escrita de Huxley me fez imaginar se estamos de fato caminhando para um futuro onde somos individualistas e superficiais, exatamente como apontam as tantas pesquisas que vejo por aí. Perguntei-me, por um instante, qual seria o nosso provável destino romântico, com todo o avanço tecnológico e toda a crescente onda de solidão que, inegavelmente, parece dominar a sociedade atual.

Mais tarde, lembrei que “Ela”, um filme de Spike Jonze, lançado no Brasil há pouco mais de dois anos, se passa num futuro não-tão-distante e conta a história da relação amorosa que ocorre entre um homem chamado Theodore e um sistema operacional de inteligência artificial chamado Samantha. Imaginei que ele seria perfeito para problematizar toda essa questão da solidão, dos lugares para onde os avanços tecnológicos estão nos levando, das problemáticas de estarmos cada vez menos em contato um com o outro, e talvez ele fosse ótimo para levantarmos bandeiras importantes sobre os perigos e os males de estarmos cada vez mais inseridos em uma sociedade que leva em consideração a possibilidade de nos relacionarmos com máquinas. Mas, ao invés disso, acabei presa em uma discussão interna sobre como ele discute o ato de apaixonar-se.

“Qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração. É algo louco de se fazer. Uma forma socialmente aceitável de insanidade.” (Amy)

Há algum tempo, entrei em uma breve conversa sobre esse filme com um amigo. Ele tinha acabado de assistir e comentou comigo que ficou completamente enlouquecido com a ideia geral da história, mas que vê-la em prática era ainda mais perturbador. Ele disse: “ninguém [dos amigos dele] discutiu a capacidade da máquina de amar”, e nós entramos na questão da Samantha poder pensar, ter opiniões e comportar-se como um ser vivo, mas, apesar disso, não ter um corpo. Perguntei: “o que é essa coisa que faz a máquina virar uma pessoa?”. Nenhum de nós respondeu.

Dias mais tarde, percebi que o filme vai além dessa questão. O que importa não é se a máquina é ou deixa de ser capaz de sentir alguma coisa, porque a gente não trabalha com esse desenvolvimento, afinal. Uma das primeiras falas da Samantha é quando, ao decidir o próprio nome, ela diz que gosta da sonoridade deste que escolhe. Esse, por si só, é um sinal de que a gente não tem nenhum dizer sobre os sentimentos dela, porque eles simplesmente existem. E os motivos para tanto nem são tão absurdos assim: ela foi criada a partir da união de uma série de personalidades, exatamente como todos nós. Então o que a impede de, dentre todas as opções, formar algo completamente único, exatamente como fazemos? A grande pergunta não é essa.

Acabei pensando, então, sobre namoros que se dão pelo computador. Porque, no fim das contas, de maneira muito básica, “Ela” é um filme sobre um relacionamento à distância, mas esse espaço entre uma pessoa e outra é tão absurdo, tão esticado, que o encontro é sempre impossível. Theodore apaixona-se por alguém que ele não vê e não toca, mas cujas ideias e opiniões e maneiras de enxergar o mundo são semelhantes as dele, e isso parece bastar. Eles não têm um relacionamento pautado em mãos dadas e fotografias, porque essa forma de relacionar-se é, para eles, impossível. E qual é o grande problema disso, afinal?

po1

[TL: “Eu gostaria que você estivesse nesse quarto comigo agora. Eu gostaria de poder te abraçar.”]

Para mim, a grande questão que o filme apresenta é: o que é amor? Ou ainda: o que é que nos torna aptos a sentir esse sentimento ao qual damos o nome de amor? É a nossa consciência? É o fato de existirmos em sociedade? É essa constante falta de algo, ou essa constante ideia de que falta algo, ou mesmo essa certeza palpável de que não somos nada se não formos algo em conjunto?

Passei muito tempo lendo, vendo e ouvindo histórias de pessoas que se apaixonam. Hollywood, a Disney, meus pais, o resto do mundo inteiro; todos eles me ensinaram que amar é, antes de qualquer coisa, não saber. E isso me fez pensar, de maneira muito frequente, que não é tendo certeza de tudo que a gente vive o melhor que dá pra viver, o que significa que, de vez em quando, todo mundo precisa dar um tiro no escuro. Na minha cabeça, amor é algo que começa com uma decisão que a gente jamais julgou possível, mas que, naquele momento, naquele contexto, era a única decisão certa. Imagino que isso não se aplique somente ao meu tempo, mas a qualquer momento em que seja possível uma interação entre duas mentes – sejam elas únicas, sejam elas criadas.

Parece absurdo que possamos nos apaixonar por alguém que, na realidade, não existe, e parece ser também um desperdício de todas as pessoas do mundo que, assim como nós, buscam poder apaixonar-se. Entretanto, em um mundo cada vez mais tecnológico, dar a sorte de encontrar não uma pessoa física, mas uma mente que existe dentro de um programa de computador, e que, também por sorte, ou por destino, assemelha-se à sua, e deseja a sua companhia, e sente por você o equivalente ao amor… Esse cenário é assim tão estranho? Se já existem relacionamentos inteiros cuja base é a internet, é assim tão absurdo pensar que, um dia, talvez, possamos quebrar não só as barreiras geográficas que nos impedem de ser absolutamente felizes com alguém, mas também as físicas?

po3

Em um dado momento do filme, Amy confessa à Theodore que fez do seu sistema operacional a sua melhor amiga. Ela fala isso entre risos, numa confissão tímida, e é a partir dela que Theodore toma coragem para dizer, pela primeira vez, que a mulher com quem ele tem namorado é também um SO. Ele pergunta se é louco. Amy diz que não. E aí, em um momento da cena, ela simplesmente ri e fala, numa afirmação consciente e lúcida: “Nós só estamos aqui por um momento. E enquanto eu estiver aqui, eu quero me permitir alguma alegria.” E não queremos todos?

Compartilhe:

Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.

  • Quando assisti esse filme fiquei bem emocionada (inclusive chorei bastante, ~aquelas~), justamente porque eu sou o tipo de pessoa que não consegue lidar com relacionamentos amorosos à distância, simplesmente não funciona comigo. Mas depois desse texto eu comecei a pensar em todos os relacionamentos a distância que eu mantenho, sendo todos amizades, e como eu sou grata por vivermos numa época em que é possível ser tão próxima de uma amiga que mora em outro estado e só vejo de dois em dois anos quanto da amiga que mora na mesma casa que eu. É incrível quando a gente para pra pensar.

    Esse post desencadeou muitas reflexões na minha cabeça, agora não consigo parar de pensar sobre o relacionamento dos personagens com os SOs hhahah