Sobre a procrastinação medrosa da literatura


Vocês já ouviram falar em jornalismo Gonzo? Eu explico. É quando o jornalista se prontifica a viver uma situação, para poder narrar sua experiência na forma de uma matéria. É isso que vou fazer hoje: brincar de querido diário e contar pra vocês como foi lidar com o “medo” na literatura.

Desde que eu vi que o tema dessa edição era “medo”,  resolvi apostar na chance de abordar um fato que é muito recorrente na minha vida: o medo de algumas obras. Seja porque pareçam difíceis demais, grandes demais, sérias demais, cobiçadas demais… O fato é que tem sempre aquela leitura que você quer fazer mas vai postergando. Anna Karenina, por exemplo. Devo querer ler esse livro há uns quatro anos, no mínimo, mas toda hora que olho para aquele catatau de romance russo eu tremo nas bases. Hoje vou falar do que eu já li. Espero que vocês se empolguem com meus relatos e saiam lendo os seus “tabus medrosos” também!

– Reparação, Ian McEwan.

A primeira vez que eu criei uma meta literária pra mim lá no skoob eu coloquei esse livro, e ele ficou ali, na meta, por pelo menos uns três anos. Não me pergunte por quê. Eu queria ler, mas nunca sentia que era a hora dele. Inclusive, demorei muito tempo para convencer a minha cabeça de que ele não era da Jane Austen (afinal de contas, PERSUASÃO e REPARAÇÃO gente, quase a mesma coisa) mas enfim. Teve um dia em que ele estava na promoção e eu acabei rendida. Quando o livro chegou na minha casa eu não sabia o que fazer. Olhava para ele, olhava para as letrinhas miúdas, engolia em seco. Até que abri. Abri, comecei a ler e logo ri da minha cara. Terminei pouquíssimos dias depois, completamente arrebatada pela genialidade do autor. CHECK.

A Trama do Casamento, Jeffrey Eugenides

Eu tinha lido “As Virgens Suicidas”, do mesmo autor, há um certo tempo. Mesmo assim tinha algo que me impedia de ler A Trama. Era julho de 2013 quando minha amiga comprou e eu fiquei abraçando ele, cheirando, passando a mão na capa e decidi que iria comprar um pra mim também. Era julho de 2014 quando finalmente larguei a procrastinação medrosa de lado, comprei e, novamente, poucos dias depois terminei batendo palmas, quase de joelhos, em reverência ao autor. Conclusão: “As Virgens Suicidas” era bom, mas “A Trama do Casamento” era ÓTIMO. CHECK.

1Q84, Haruki Murakami

Olha, acho que a maior razão do meu medo literário é me sentir burra. Juro. Tenho pavor de pegar um livro “difícil demais” e me achar ignorante, e é por isso que toda vez que eu pensava em encarar Murakami eu desistia. Ainda mais que tava todo mundo lendo e amando e eu só pensava que “só eu ia achar difícil e ia morrer de vergonha”. POR QUE eu acharia difícil é a pergunta que não quer calar. Sei lá, acho que nunca tinha experimentado a literatura japonesa e O TÍTULO já era difícil, vai? Ganhei de presente de uma amiga em fevereiro de 2014 e tive coragem de abrir pela primeira vez no dia 31 de dezembro. Li a primeira página e quase gritei: “MEU DEUS É FÁCIL!”. Menos de 3 meses depois já tinha lido os 3 volumes e adicionado toda a literatura de Murakami ao “vou ler” do Skoob. CHECK.

As intermitências da Morte, José SaramagoSA. RA. MA. GO. Só de pensar nesse nome meu estômago embrulhava, mas desde 2012 que eu ansiava ler “As intermitências da morte” porque uma professora tinha falado sobre o enredo e eu tinha achando absolutamente genial. Devo ter comprado em 2014 e só me convenci a encarar esse ano, ainda cheia das náuseas. Peguei o livro na mão e não sabia se tinha realmente peito para abrir a capa e começar, mas tive. Olha, é confuso mesmo. Saramago praticamente ignora a pontuação e marcação de diálogo não existe. É um esforço mental de lascar até você acostumar a adivinhar quem está falando o que e coisa e tal. Os personagens não tem nome e praticamente não são evidenciados – você tem que se apegar à história como um todo mesmo, e não esperar curtir um protagonista. Ri bastante em alguns momentos, sofri de tédio em alguns outros, mas no fim das contas entendi tudo (palmas), o livro era fino, não demorou a acabar e eu FINALMENTE descobri porque foi que “no dia seguinte ninguém morreu” e eu se fosse vocês corria pra descobrir também porque é um motivo lindo. Clichê? Sim. Mas Saramago pode o que ele quiser.

Antes que eu me esqueça: CHECK

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Sobre Analu

Começou a ler aos 4 anos e nunca mais parou. Hoje tem 23 anos, é formada em jornalismo, continua devorando livros e passa o dia querendo escrever.