“Só Garotos”, Patti Smith


Texto: Ariel Carvalho // Arte: Raquel Thomé

Patti Smith é uma dessas pessoas que influenciaram tanta gente que parece até injusto. Apesar de não ter aparência glamourosa, eu sempre achei que ela tinha uma vida incrível. Estava certa, porém não da forma que pensava. Ela não era regada por mordomias, uma vida fácil com fama certa. Patti saiu de sua cidadezinha (talvez por achar que era pequena demais para tudo o que queria fazer), foi para Nova York, morou na rua, viveu quase passando fome, trabalhou com bicos aqui e ali para se manter, não teve educação formal…

Foi quando chegou em Nova York que teve seu primeiro contato com Robert Mapplethorpe. Ele era um artista quebrado, assim como ela, e eu conhecia um pouco mais do seu trabalho antes de ler “Só Garotos”. Uma das fotos de Mapplethorpe acabou virando capa de um dos meus álbuns favoritos, o “Night Work”, da banda Scissor Sisters. Ele também teve envolvimento com Eliot Tiber, um dos responsáveis pelo festival Woodstock.

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Além de Robert, Patti conhece diversas personalidades incríveis, como o poeta Allen Ginsberg, Jimi Hendrix e Janis Joplin.

Tenho muito interesse pelos anos 1960/1970, e o livro de Patti foi delicioso de ler. Durante as 278 páginas do livro, fiquei totalmente imersa no que ela tinha para contar sobre seu relacionamento com Robert.

Em sua memória, Smith conta a sua história, ligada à de Robert, desde o momento em que se conheceram até o dia da morte de seu amigo. Na época do lançamento do livro, uma das resenhas do livro falava que ela “declarava seu amor” por Mapplethorpe. Vou além: através de “Só Garotos”, ela declara seu amor por tudo que os dois tiveram, pela companhia nos momentos difíceis e pelas experiências vividas ao lado de Mapplethorpe.

Os dois, sem dinheiro mas com muita vontade de seguir o ramo artístico, acabaram se juntando e morando juntos. Por um tempo, namoraram, até Mapplethorpe se descobrir homossexual. Mesmo após a revelação, ambos continuaram amigos, sempre se apoiando no que pudessem precisar.

Talvez o mais interessante da leitura seja perceber como até mesmo aquela pessoa que você idolatra também já passou por dificuldades. “Só Garotos” serviu para relembrar algo que acabamos nos esquecendo: somos todos humanos. Patti, apesar de ser atualmente uma das cantoras mais influentes e mais reconhecidas do rock, já foi uma moça que comprava suas roupas em brechós e deixava currículos em livrarias para estar mais perto dos livros. Robert, antes de ser considerado um dos melhores fotógrafos e fotografar Andy Warhol e Blondie, por exemplo, era um garoto que se drogava constantemente e que acreditava não ter aptidão para fotografia.

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O livro, sem dúvidas um dos favoritos de 2016, renova a vontade de ser artista, de fazer algo, mas de não deixar motivo algum te impedir de criar.  

Li em algum lugar que a relação de Patti e Robert era “conturbada”, o que me fez pensar em qual relação não é. Os dois, apesar de todos os problemas e através dos anos, mantiveram as promessas que fizeram um ao outro e ajudaram na construção do outro como artista. Patti narra isso de forma espetacular, e eu fui parte dessa relação enquanto lia cada palavra a respeito de sua vida ao lado de sua “estrela azul”.

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Sobre Ariel Carvalho

Ariel é uma lua de Urano, um espírito do ar, um sabão em pó, uma marca de carro e uma pequena sereia, mas também é uma bibliotecária carioca que não consegue terminar a meta de leitura, sabe tudo de Monty Python e chora com filmes de ficção científica.