Slow down, you’re doing fine


Texto: Lidyanne Aquino

 

A juventude romantiza a vida adulta porque não tem ideia da complexidade que é entrar na casa dos 20. Sentimos um leve desespero por independência, queremos a todo custo viver da nossa arte nos sustentar, mas a cada passo dado percebemos que não é tão simples quanto aparenta. E parece que nunca existirá tempo suficiente. Ao mesmo tempo, ainda estamos longe dos 30 – e batemos de frente com aquele parodoxo que diz: ainda temos todo o tempo do mundo. Com aquele detalhe – morando na casa dos pais ou fora, eles sempre adotam esse discurso do “você ainda é jovem” quando entramos em momentos de desespero. Então acabamos a faculdade e, embora haja tempo de sobra para achar o emprego dos sonhos, é preciso correr e prestar um concurso público (pois ser aprovada também é bem facinho), para ter estabilidade e ganhar um salário decente.

Mas vem cá: o concurso parece ser uma forma de arremessar o relógio contra a parede e estagnar no tempo. Se você tomou essa decisão, tudo bem – em algumas áreas é um passo meio obrigatório inclusive, mas minha crítica é para essa roupagem de praticidade que atribuem à modalidade. Como se fosse um caminho definitivo.

Também já cansamos de ouvir e ler que nossa geração é vazia. Era algo frequente quando fazia pesquisas para o meu TCC, em 2012, que era sobre geração Y. Desde então tenho buscado evidências de vazio, sempre sem sucesso. Porque a grande verdade é que estamos de saco cheio.

Ser um jovem adulto não é nada fácil. Carregamos tantas obrigações nas costas que a sensação de estar prestes a explodir é inevitável. As cobranças nascem em casa, mas quando você se dá conta sai da boca dos amigos, dos colegas de trabalho, e até de desconhecidos que curtem meter bedelho sem ter a menor intimidade. Vai dizer que você nunca se sentiu agoniada com o fim da faculdade, com a insatisfação do emprego, com a sensação de que não importa o quanto você se empenhe, o estado atual das coisas nunca será bom o suficiente?

Piora cada vez mais. Porque às vezes nos dizem slow down, you crazy child! you’re so ambitious for a juvenile. Mas veja bem, como é que desacelera quando a gente precisa se sustentar, desbravar o mundo, ter um emprego dos sonhos, ter um bom namorado, ler todos os livros do mundo, ver muitos filmes, manter as séries em dia E (ufa) ser poliglota antes dos 25?bekind

Nessas horas bate uma vontade absurda de seguir o conselho de Billy Joel e take the phone off the hook and disappear for a while. Porque sim, it’s all right, you can afford to lose a day or two. Você, jovem em ebulição, venha comigo – vamos tirar os sapatos, nos sentar em uma posição confortável e continuar ouvindo a música? Vão por mim: desligar é uma delícia. É como entrar em um estado de meditação por pelo menos 24 horas. Nada de correr para responder mensagens, pensar nas mil coisas para fazer: é fingir que nada existe. Fazer um panelão de brigadeiro, ouvir músicas fofas e felizes, assistir uns filmes bobinhos que não te façam mal.

where’s the fire, what’s the hurry about? you’d better cool it off before you burn it out. you’ve got so much to do and only so many hours in a day.

Senti muita insegurança quando saí do meu emprego anterior. Tinha medo, pois parti rumo a um intercâmbio e sabia que teria dificuldades para encontrar trabalho na volta. Estava naquela fase em que, passados dois anos da formatura, ficamos meio incertos sobre nossas decisões profissionais. Uma amiga, que entrou no mesmo escritório pouco antes da minha saída, disse que, embora tivesse dois anos a mais que eu, não estava desesperada. Começara a faculdade de Letras há pouco mais de um ano e já tinha trabalhado em vários lugares. Foi uma conversa pontual e definitiva, pois graças a ela viajei bem mais leve. Eu não precisava ser poliglota e ter o emprego ideal antes dos 25. Muito menos me isolar em um cursinho para estagnar em um concurso qualquer só pelo salário. Você também não precisa acelerar esse processo. Somos tão jovens sim, e aquela parte do clichê era certa: temos muito tempo pela frente.

you’ve got your passion, you’ve got your pride, but don’t you know that only fools are satisfied? Dream on, but don’t imagine they’ll all come true.

Voilà o clichê necessário: precisamos nos amar e nos tratarmos com mais carinho. Tá permitido pirar, perder a calma, se sentir sufocada e ter vontade de gritar no meio da rua. O problema é ficar só nisso. Precisamos do nosso momento de parar tudo e deixar o coração respirar. Sonhar alto com os pés no chão, nunca se satisfazer com pouco, mas saber reconhecer o valor de nossas conquistas, sem perder tempo se diminuindo.
E não se esqueçam: nós sempre teremos Vienna.

Compartilhe:

Sobre Lidyanne Aquino

Lidyanne nasceu no Mato Grosso do Sul (isso mesmo, DO SUUL!), tem 25 anos, formou-se em Jornalismo na Cásper Líbero e terminou gostando desse caos que é São Paulo, de onde não saiu mais. Abandonou a juventude por não gostar nada de virar a madrugada na balada, mas já guardou a última mesa do bar porque conversa demais. É doente por literatura e cinema, cultiva e incentiva a prática sempre com uma boa trilha sonora de fundo. E curte muito escrever e brisar sobre essas coisas todas.