Síndrome de Ted Mosby


Texto: Ariel Carvalho

 

Se você já viu How I Met Your Mother, sabe como o Ted tem seus problemas. Se não, deixa eu te dizer que, depois de quase stalkear a mulher, disse, no fim do encontro, que estava apaixonado por ela.

Eu poderia gastar muito, muito tempo falando sobre a série, sobre o final terrível e sobre como Ted errou grotescamente com a Robin (essa do encontro), mas meu foco hoje é outro: a síndrome de Ted Mosby.

Durante toda a série, vemos Barney caçoando de Ted por ele ter dito que amava uma mulher logo depois de conhecê-la, mas ninguém vê como é destrutiva a ilusão que ele cria de que o amor vai salvá-lo.

Acontece que Ted passa nove temporadas buscando o amor da sua vida. E quando eu digo buscando, eu quero dizer que ele termina com várias e várias mulheres simplesmente por elas não serem a “certa”.

Quando eu assisti à série pela primeira vez, não enxerguei isso como um problema. Afinal de contas, esse era o propósito da série, não? Contar como ele a mãe dos seus filhos se conheceram. Mas a série começou quando eu tinha dez anos, e eu a acompanhava nessa época. Só agora, que revi todos os episódios, foi que pude perceber quão doentia e destrutiva é essa lógica do Ted.

Primeiro que ele é obcecado com isso de achar a mulher certa. Em um dos episódios mais famosos da série, ele espera e espera até que uma moça que ele viu uma vez (e com quem acha que tem futuro) reapareça para que eles possam ter um relacionamento.

É daí que parte minha teoria de que existe uma síndrome de Ted Mosby, de esperarmos que o relacionamento dê certo, mas tão certo que seja para sempre.

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Ilustração de Carol Porto

Apesar de tudo, eu gosto bastante dos textos do Gregorio Duvivier, e um deles é importante para essa discussão. Em “Grande-amor-da-vida”, de seu livro “Put Some Farofa”, ele diz: “Pode ser que o grande-amor-da-vida seja um só. Mas os amores-da-vida são muitos, e acontecem o tempo todo — grandes, pequenos, gigantescos”.

Me parece estranho demais que só tenhamos UMA pessoa na vida amorosa que nos faça feliz, que seja um amor da vida. Conhecemos tantas pessoas durante a vida, temos contato com tanta gente, tanta coisa, que me parece muito ingênuo acreditar que só uma dessas pessoas é que pode ser um amor.

Na série, enquanto espera a mulher certa chegar na sua vida, Ted namora. Mas é perceptível, nas pequenas coisas, que ele não está feliz, que continua aguardando algo que ele nem sequer sabe se virá. A lógica é a mesma de uma paixonite: você espera que algo aconteça, não fazendo ideia do que pode vir, mas mesmo assim, acreditando que vai dar tudo certo e vocês vão se casar e ser felizes para sempre.

Pois eu digo que a vida é curta demais para ficar aguardando o Grande-amor-da-vida, principalmente enquanto existem tantos amores-da-vida, às vezes pequenos, mas às vezes tão maiores. No lugar de ficar triste por não ter um amor que dure “para sempre” (e, aliás, o que seria esse tempo todo?), por que não apreciar os momentos que temos com esses amores?

Ted Mosby que me desculpe, mas eu prefiro mil amores passageiros e reais do que um eterno imaginário.

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Sobre Ariel Carvalho

Ariel é uma lua de Urano, um espírito do ar, um sabão em pó, uma marca de carro e uma pequena sereia, mas também é uma bibliotecária carioca que não consegue terminar a meta de leitura, sabe tudo de Monty Python e chora com filmes de ficção científica.

  • Marília

    Mas ele aproveitou bastante todos os seus relacionamentos, ele acreditou em cada um deles, mas a vida acabou por separar cada um. Ted não vivia obcecado pela moça do guarda-chuva amarelo, mas ele sempre acreditou que pessoas que marcaram ele durante sua trajetória tinham algo para ele. Seja um amor, ou seja uma lição. A mulher da fantasia de abóbora mostra isso. Ele teve a oportunidade de encontra-la e ela a ele, e os dois viram que o tempo passou. O seu texto quis dizer alguma coisa e se perdeu. O sentido de namorar e casar hoje é para viver pra sempre. Mas esse viver pra sempre pode ser viver só daqui uma semana, um mês, um ano ou a vida toda. Isso vai depender de inúmeros fatores. Há sim muita gente que espera que a pessoa certa vai chegar, mas isso é mais senso comum do que culpa de uma pessoa com dor de cotovelo. Sempre quando alguém está sofrendo um amigo vai lá e diz que a pessoa certa ainda vai chegar para esse alguém. É forma de consolo e para quem acredita no amor, isso é o que basta. Eu pensei que você ia abordar a questão do Ted buscar isso incessantemente e esquecer de outros setores da vida dele (que na verdade ele não esquece, pois ele é ótimo amigo, filho e profissional). Lembre-se, Ted lutou por todos os seus relacionamentos (exceto Victoria) mas nenhuma lutou por Ted. Sendo assim, não tinha como ele acreditar nelas.

  • Julia

    Adorei o texto, bela observação e maravilhosa a comparação que fez com o texto do Gregório! Juntou duas coisas que amo e transformou em uma também maravilhosa!