Síndrome da Dorothy


Texto: Maynnara Jorge // Arte: Marília Pagotto

Há um ano e meio, eu desembarquei no aeroporto de Guarulhos com duas malas enormes e o coração apertado e nem sabia o que ainda tinha pra acontecer desde que resolvi me mudar pra São Paulo. Depois de altos e baixos e algumas burocracias imobiliárias, finalmente consegui a chave do meu primeiro apartamento e por pouco mais de um mês, vivi em uma realidade surreal enquanto caía a minha ficha de que eu não morava mais com os meus pais.

Mudanças são sempre complicadas, mas posso afirmar com convicção que quando me vejo num domingo de preguiça dividindo o sofá com o gato e o namorado no meu querido apartamento, eu me sinto feliz. Mas por que então que depois disso tudo eu continuo me referindo à casa dos meus pais como “lá em casa”? Às vezes isso até gera confusão com as pessoas com quem eu converso, e muitas vezes eu nem percebo que estou falando assim.

Daí eu lembrei de algo que o meu pai me falou há algum tempo, quando conversávamos sobre algo que eu nem lembro mais o que era. Ele disse que apesar de viver na casa que vive hoje por mais de 35 anos e de os pais deles já não estarem mais vivos, ele continua a falar sobre aquela casa, em um sítio do interior, como “Casa”. Sempre que falava que ia pra lá, ele me dizia “To indo pra casa” e eu só percebi que tinha essa mesma síndrome de Dorothy quando me vi fazendo a mesma coisa.

Isso não quer dizer que eu não ame meu apartamento e que eu não diga que vou pra casa quando me refiro a ele, só quer dizer que depois de 23 anos morando na mesma casa, no mesmo bairro, na mesma cidade é difícil perder um vínculo tão grande e não pensar na sensação de lar quando me pego pensando naquele lugar.

Foi aí que eu percebi como aquele clichê é verdade: “Lar é onde o nosso coração está” e é, né? É possível sim ter duas casas, uma que você viveu por tanto tempo que voltar pra lá quer dizer estar em casa, e uma que você está aprendendo e transformando em um lugar seu.  Talvez um dia eu não pense mais nisso dessa forma, mas gosto de saber que no meu inconsciente sempre vai ter aquela vozinha me dizendo que a casa número 688 vai estar sempre de braços abertos para me acolher.

Eu ainda penso em viajar bastante, conhecer lugares novos e viver tantas outras aventuras, mas é sempre bom lembrar que não preciso de tornados, sapatinhos mágicos ou bruxa boa do oeste pra me levar de volta pra onde o coração chama. Quero deixar meu coração na parede de outras casas e ainda assim poder voltar para o Texas (ou no meu caso, Campina Grande).

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Sobre Maynnara Jorge

Maynnara é paraibana, mas atualmente mora em São Paulo. Formada em Jornalismo e Produção de Moda. Ama ler, escrever e sente falta dos seus dois cachorros que ficaram na sua cidade. Ela também está no twitter como @maynnara_