Silver Springs e tudo aquilo que poderia ter sido


Texto: Ariel Carvalho

Quarta-feira, em meio a uma greve da faculdade federal, eu estou à toa, e decido ouvir música. Tenho alma de velha, escuto música antiga, principalmente dos anos 1970. Poderia ouvir Beatles, mas estou mesmo é com vontade de ouvir Fleetwood Mac.

Não me lembro de quando não conhecia a banda. Várias pessoas na minha família gostam de “Dreams” e eu cresci regada a inúmeras versões da música. Mas não é ela que eu vou ouvir. Quero mesmo é uma não tão famosa, mas que ganhou Grammy de apresentação musical, “Silver Springs”.

Bastam dois segundos para me arrepiar, e logo depois estou chorando. Poucas músicas do Fleetwood Mac são tão fortes para mim, me deixam tão abalada. Mas não tem como, ainda mais se eu estiver vendo a performance da música em “The Dance”.

“Silver Springs” é um resumo de tudo o que aconteceu com a banda, especialmente com a Stevie Nicks e o Lindsey Buckingham. Originalmente, ela entraria no “Rumours”, um dos álbuns mais influentes da banda, mas ela foi descartada para dar lugar à mais leve “I Don’t Wanna Know”. A performance que ganhou o Grammy é tão pesada emocionalmente que sinto sempre um alívio quando ela termina.

A letra é espetacular. Poderia falar de qualquer parte dela de tão forte e linda que é, mas não quero partir o coração de ninguém. Basicamente, é a música perfeita para um fim de namoro doído.

Do ótimo tumblr: Fleetwood Mac Art History

Do ótimo tumblr: Fleetwood Mac Art History

Antes de ser a banda influente e importante que é hoje, Fleetwood Mac era uma banda de blues e atendia pelo nome de Peter Green’s Fleetwood Mac. Você pode não saber, mas conhece Black Magic Woman, do Santana? É deles.

Depois, Peter Green saiu da banda e deixou Mick Fleetwood e John McVie sozinhos com o resto da banda, até que McVie sugeriu chamar a esposa, Christine McVie, para o grupo. Ela, que era fã, aceitou. Mick, então, decidiu chamar um músico talentoso chamado Lindsey Buckingham para participar da banda. A condição para aceitar era que chamassem também sua namorada na época, Stevie Nicks. Após muito estudo da sonoridade do Fleetwood, os dois aceitaram, e Peter Green’s Fleetwood Mac se tornou apenas Fleetwood Mac.

Toda a história do Fleetwood não pode ser dissociada das questões amorosas do grupo, mas Stevie e Lindsey têm algo que eu não vi em quase nenhum casal até hoje.

Os dois se conheceram numa festa de escola, onde Buckingham tocava e cantava uma música do Mamas And The Papas. Ela se juntou a ele, cantaram juntos, se apresentaram, e depois não mantiveram contato. Voltaram a se ver na faculdade, e aí sim começaram o romance. Foram morar juntos, num apartamento pobre, que decoraram com flores de papel e rendas. Eles sonhavam em viver de música, mas ficavam cada vez mais pobres e se tornava cada vez mais difícil continuar perseguindo o sonho. Tocavam em bares, e chegaram a lançar um álbum, em 1973, mas esse foi um fracasso de vendas.

Foi depois de entrar no Fleetwood que as coisas mudaram. Ambos conseguiram fazer sua fortuna com o sucesso do álbum homônimo da banda. Nessa época, também, os dois começaram a se afastar. Em 1977, o Rumours foi lançado, um álbum que na verdade é a expressão de tudo o que Buckingham e Nicks (e também o casal McVie) sentiam no término da relação.

Então voltamos a Silver Springs. O nome da faixa é também o nome de um parque na Flórida, conhecido por sua beleza. Stevie disse, em entrevista, que escreveu a música com isso em mente porque a ideia de que talvez Lindsey pudesse ser essa espécie de paraíso para ela martelava em sua cabeça há dias.

A faixa foi lançada como lado b de Go Your Own Way, uma música agressiva escrita por Lindsey. Só ganhou destaque em 1997, quando foi lançada como single, como parte do álbum ao vivo “The Dance”.

Detalhe que, em 1991, quando Lindsey saiu da banda, Nicks teve um enorme desentendimento com ele e quis que a faixa fizesse parte do próximo álbum do Fleetwood. Quando disseram não, foi ela quem saiu do grupo.

Mesmo que a música nunca tivesse qualquer tipo de reconhecimento, ainda seria uma das minhas favoritas da banda. Na tela do meu computador, vejo Stevie e Lindsey se entreolharem. Nunca vi tamanha química.

Faz um bom tempo que comecei a amar Stevie Nicks e a considerá-la uma das mulheres famosas mais importantes para mim. A capacidade dela de se expor, de se vulnerabilizar, para transmitir o que sentia, sempre me abismou. E Silver Springs é o melhor exemplo disso. Está tudo ali, explícito: quando eles se olham, quando ela canta “I don’t wanna know”, quando a música chega ao final e ele beija o topo da cabeça dela.

Às vezes, me pergunto por que perco tempo vendo esse vídeo quando sei que ele vai me fazer chorar. Mas paro para pensar em todos os Silver Springs que poderiam ter sido, e em todos os anos (de 1977 até hoje!) que Buckingham e Nicks tiveram que conviver com a noção de que não eram mais isso um para o outro. Talvez por isso seja tão fascinante ver os dois no palco, juntos.

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Sobre Ariel Carvalho

Ariel é uma lua de Urano, um espírito do ar, um sabão em pó, uma marca de carro e uma pequena sereia, mas também é uma bibliotecária carioca que não consegue terminar a meta de leitura, sabe tudo de Monty Python e chora com filmes de ficção científica.