Série “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley


(ou: Morgana rainha, Arthur nadinha)

Você provavelmente conhece a história do Rei Arthur e seus cavaleiros da Távola Redonda. Já deve ter ouvido falar de Camelot, Merlin e Lancelote, e até ter feito uma piadinha sobre a Excalibur naquela vez que tentou tirar algo preso num pedra ou no concreto. E se eu te disser que, como muita coisa na humanidade, essa é apenas metade da história? A metade mais chata, ainda, dedicada ao lado ‘vencedor’? Então, venha comigo, que vou te apresentar as mulheres da lenda de Arthur.

As Brumas de Avalon é uma série de quatro livros sobre a luta entre culturas pagãs matriarcais e o crescente e dominante cristianismo patriarcal que toma conta da Bretanha no século V. Todos são narrados pela perspectiva das personagens femininas, sendo o enredo principal contato por Morgana, meia-irmã de Arthur, parte nobre, parte bruxa, parte fada. A história se passa principalmente em dois universos: a Bretanha medieval, em conflito com os saxões, recém-liberta do Império Romano, e a ilha mística de Avalon, onde vivem as sacerdotisas da Deusa, e dá uns pulinhos no país encantado das fadas e até em Atlântida.

Em “A Senhora da Magia”, primeiro da série, acompanhamos os bastidores do nascimento de Arthur, arranjado graças às articulações da atual Senhora do Lago (líder espiritual de Avalon), Viviane, e do Merlin na Bretanha, que aqui não é um indivíduo, mas um título, como o Dalai Lama. Essa arca já indica como vai ser a história inteira, na qual todos os eventos que conhecemos sobre o Rei Arthur tiveram um dedinho – ou uma mão inteira – de Avalon. A própria Excalibur veio do Povo Antigo e recebeu encantamentos em Avalon, feitos por Morgana, numa das cenas mais imersivas que eu já experimentei na literatura. Aliás, todas as cenas de magia nos envolvem daquele jeito que você esquece que está lendo, se transporta para dentro daquele mundo e volta para a realidade desnorteada, esfregando os olhos.

O nascimento de Arthur é programado como uma solução para a união dos povos da Bretanha, sob um rei que descende da linhagem real de Avalon e do mundo que nós conhecemos. É revigorante ler sobre mulheres ativas na política, tendo papel decisivo no curso da história, ainda mais nesse cenário de reis e castelos, geralmente destinado a donzelas em perigo ou, pior ainda, mulheres ambiciosas que não podem assumir o poder por serem mulheres.

A autora tem consciência de que a história que escrevemos influencia o que será feito no presente e futuro, que “pelo pensamento criamos o mundo que nos cerca”, e deixa isso claro no livro, numa ‘metaconversa’ entre o enredo e a sociedade real na qual vivemos. Escrito nos Estados Unidos na década de 1980, é também recheado de críticas ao cristianismo, bem resumidos nesse trecho:

“Os que os sacerdotes não sabem, com seu Deus Uno e sua Verdade Única, é que não existe história totalmente verdadeira. A verdade tem muitas faces e assemelha-se à velha estrada que conduz a Avalon; o lugar para onde o caminho nos levará depende da nossa própria vontade e de nossos pensamentos, e talvez, no fim, cheguemos ou à ilha sagrada da eternidade, ou aos padres, com seus sinos, sua morte, seu Satã e o inferno e a danação…”.

Morgana é deliciosamente irônica no seu tratamento aos padres que tentam demonizá-la, enquanto assume sua posição de poder como representante das várias faces da Deusa (a Virgem, a Mãe e a Morte) e luta para manter vivas no mundo as tradições célticas. Ela não cai, porém, na armadilha de personagem-forte-feminina, sem falhas ou dificuldades.

Acompanhamos sua revolta ao descobrir ter sido manipulada: participa de um ritual no qual faz sexo com seu irmão, sem saber, e acaba engravidando; os anos que passa perdida, se sentindo traída e desamparada por tudo que conhecia e sendo forçada a viver numa sociedade de corte que inferioriza as mulheres; seu redescobrimento e retomada do trabalho espiritual da Senhora do Lago. A série pode até ser vista como a jornada de uma mulher complexa, contada desde sua ascendência, nas narrativas da mãe, Igraine, e da tia e mentora Viviane, e pelos seus conflitos durante a vida adulta, através da fala da cunhada, Gwenhwyfar. Isso tudo enquanto essas próprias personagens tem suas arcas desenvolvidas, seus próprios conflitos e enredos.

Os homens, apesar de terem vital importância no desenrolar dos acontecimentos, são secundários dentro da narrativa, bem menos trabalhados que as quatro mulheres principais. Ainda assim, conseguem ser mais interessantes se comparados com outras versões da lenda. Lancelote e Arthur, por exemplo, compartilham um amor que vai além do fraternal – o que já é incrível por si só, até você chegar numa cena entre eles e a rainha Gwen, que não vou nem comentar para não estragar a experiência. *piscadinha*

Nos outros livros (A Grande Rainha, O Gamo Rei e O Prisioneiro da Árvore) testemunhamos o amadurecimento das personagens, a consequência das decisões individuais para o destino do reino, e a eventual supremacia do catolicismo sobre o paganismo. Fica um gostinho meio amargo na boca ao pensar numa cultura se impondo à(s) outra(s) por meio de invasão e guerra, e do lado vencedor se tornando opressor. Mas dá também para ser otimista, ver que os símbolos podem ser resignificados e resgatados, que a realidade é moldável e uma cultura continuará existindo enquanto existirem pessoas para alimentá-la.

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Sobre Marina Vieira

Uma atibaiense atibaiana que gosta de ouvir e contar histórias. 22 anos, se inspira em figuras respeitadíssimas como Avatar Korra e Finn, O Humano. Acredita fervorosamente que J.K. Rowling está escrevendo “Hogwarts, Uma História” em segredo. Enquanto não é lançado, ocupa seu tempo virando estrelinha na grama e fazendo carinho em todos os animais que encontra.