Ser mulher


Texto: Carol Stampone // Imagem: Sodanie Chea

O homem existe, faz tempo. 

A mulher resiste, ou segundo eles, enche o saco. 

Vá lá, esse papo de feminismo já deu, né _ é o que eles dizem. Muitas delas também. É que o machismo não é exclusividade dos homens. Há muitas mulheres que reproduzem machismo por aí e por aqui também.

O machismo ocupa pedaços meus. Aprendi-o desde pequena. 

A gente aprende a ser mulher e machista. 

Como bem colocou Simone de Beauvoir ‘ninguém nasce mulher, torna-se mulher’. 

Somos educadas para ser mulher. A questão é: qual mulher? O que é que significa ser mulher hoje? 

A gente quer acreditar que muita coisa mudou desde os tempos das nossas avós. Mas, será que mudou? 

As mulheres, pelo simples fato de serem mulheres,  recebem menos do que os homens para realizarem o mesmo trabalho que eles.

O serviço doméstico e a educação das crianças, na maior parte do mundo, ainda é visto como obrigação de mulher. Se o homem for muito legal ele até dá uma ajudinha, mas é bônus, não obrigação. 

A mulher ainda tem a sua sexualidade vigiada pela santa moral e pelos bons costumes, enquanto o homem pode se gabar de sair por aí metendo o seu pauzinho_ que, diga-se de passagem, as mamães e os papais machistas super valorizam desde que ele é um bebezinho_ em todas as bocetas que quiser. A mulher não pode nem dizer boceta em público, muito menos escrever. 

Por que é que as coisas ainda são assim? 

Porque nós continuamos fabricando mulheres feitas para andar atrás dos homens, mulheres feitas para servir aos homens, num mundo de homens, aonde elas têm a obrigação de procriar e ser de plástico. Ainda não aprendemos a fabricar mulheres seguras de si o suficiente para ousarem ocupar o mundo ao lado deles, com seios de verdade metidos dentro da blusa. 

Mas se toda a gente sabe que as mulheres são inteligentes e capazes, como é que insistimos nessa receita falhada de mulher?

Sabe aquelas coisas todas que nos disseram e que depois a gente repetiu para as nossas filhas, sem nem pensar? Coisas como: ‘senta direito, fecha as pernas, uma menininha não senta assim’. ‘isso não é brincadeira de menina’; ‘isso não é coisa que menina diga’; ‘uma menina tão bonita com uma roupa tão feia…’ ‘uma menina tem que saber como se comportar’ ou ‘menino é mais arteiro do que menina mesmo’; ‘menino falando palavrão a gente ainda engole, mas menina de jeito nenhum’. Ou quando perguntam ao menino ‘quantas namoradas você já tem?’ e repetem para a menina que ela ainda é muito nova para arrumar namorado, então, em todas e em cada uma dessas vezes a gente está esculpindo essa coisa que a gente chama de mulher. 

A mulher parida por uma sociedade machista e paternalista é uma mulher subordinada e quebrada. Uma mulher que ouviu desde pequenininha que a coisa mais bonita que ela podia viver na vida era entrar na igreja, vestida de branco, para ser entregue nas mãos do seu novo dono. Claro que não dizem dono, né. É o amor da sua vida, seu marido. Não contam a velha piada, politicamente incorreta, de que o branco do vestido é para combinar com o fogão e com a geladeira. 

Mais tarde, a gente aprende e repete, que o homem, para provar que é homem tem que ter sucesso profissional, ocupar um lugar na sociedade. A mulher, para provar que é mulher, tem que reproduzir. Ser mãe não é opção dessa coisa que a gente convencionou chamar de mulher. É obrigação mesmo. 

Você por acaso tem trinta anos ou mais e é solteira e não tem filhos? Quantas vezes tem que ouvir alguém dissertando sobre a falta de sentido e a incompletude da sua vida? E tem sempre uma avó ou tia que se oferece para iniciar as negociações com Santo Antonio. 

Conhece ao menos uma mulher casada com um homem que a trata mal, um homem que ela mal suporta, mas do qual ela não se separa por que não vê alternativa de futuro? Sente que está muito velha para tentar achar um outro trabalho que não seja o de mãe e doméstica…

Já reparou naquela menininha ali no canto, que está começando a perder a voz de tanto ouvir a lista de coisas que meninas não podem e não devem fazer, dizer, meter na boca ou na cabeça?

Ser mulher, ainda hoje, é ser menos importante do que o homem. Ser mulher é ser oprimida. Ser mulher é ser quebrada, é não ter espaço para existir. A gente tem que escolher se se espreme a vida inteira numa vida pequena ou se resiste e luta para que ser mulher vire outra coisa. 

 

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