Ser Monica e Joey: um paradoxo existencial


Texto: Amanda Tracera // Arte: Gabriela Amorim

Se nossa personalidade fosse moldada pelos personagens das séries que assistimos, tenho certeza que parte de mim seria objeto de criação de Monica Geller. Não só pela terrível vontade de agradar, ou porque ela não sabe perder mesmo nos jogos mais simples, mas sim (e principalmente) porque nós duas temos a necessidade da sensação da coisa feita. Não dá pra não fazer a coisa – seja ela quatro tipos de batata pro feriado, fazer faxina na casa às cinco da manhã de domingo, terminar um texto etc. O importante é que a gente precisa concluir, porque o sentimento que nos arrebata depois que algo finalmente está pronto é o que nos mantém sãs.

Só que, feliz ou infelizmente, parte de mim também é, adivinhem vocês, Joey Tribbiani. E isso não necessariamente significa que eu vou esvaziar a geladeira se me deixarem sozinha com ela, mas quer dizer que eu não vou perder a oportunidade de fazer absolutamente nada em frente a televisão. Ficar sentada com os pés pra cima assistindo a qualquer show bestinha: minha atividade favorita, a melhor opção para qualquer dia, por favor me deixa sentada aqui. E isso faz com que exista um conflito dentro da minha cabeça: é a vontade de ter feito versus a preguiça de fazer.

Procrastinar significa adiar ou prolongar algo, de acordo com qualquer dicionário. No geral, é uma atitude espontânea: ninguém planeja procrastinar, porque sabe o atraso de vida que é passar cinco horas assistindo uma série quando existem dois trabalhos pra ser entregues no dia seguinte (been there done that). No entanto, às vezes não dá pra evitar: quando a gente se dá conta, já foram cinco horas quando o plano inicial era parar por cinco minutos; estamos vendo o nonagésimo vídeo de animais fofos no Facebook mas só tínhamos entrado nele porque precisávamos de uma informação no grupo da faculdade (que ainda não pegamos); encontramos interesse nas forças que mantém os objetos presos ao chão, mas não encontramos o caminho de volta pra nossa obrigação primeira. É assim que é. Estamos todos sujeitos a isso.

Sou praticante fiel do ato de enrolar. Mesmo quando gosto da atividade que estou fazendo, quando quero fazê-la, não consigo ficar completamente presa. Minha cabeça divaga, meu corpo cansa, meus olhos fecham – preciso sair. E quanto maior o nível de estresse para concluir a coisa, menor a chance de eu efetivamente sentar e concluir; parece que existe um mecanismo de defesa dentro do meu cérebro que me obriga a não trabalhar sobre pressão, o que, é claro, só acaba fazendo com que haja mais pressão conforme eu não trabalho, até que tudo pifa e eu finalmente me organizo. Parece ser um sistema que funciona, mas às vezes são três da manhã e eu estou chorando em cima dos textos sobre estrutura argumental da oração porque não terminei de ler nada ainda e a prova é dali a seis horas.

Existe um livro chamado A arte da procrastinação e, nele, John Perry fala sobre o conceito da “procrastinação estruturada”, que significa basicamente que, enquanto a gente não faz o que deveria estar fazendo, fazemos um monte de outras coisas “insignificantes” mas que em algum momento seriam mesmo feitas. A ideia geral não se aplica às atividades que não acrescentam nada à nossa vida, como os vídeos de bichinhos citados acima, mas é verdadeira nos outros casos: quantas vezes a gente não faz A Grande Atividade Que Deveria Estar Fazendo, mas vai organizar a estante? Ou dar uma faxina? Ou preparar algo pra comer? Ou brincar um pouquinho com o cachorro, dar atenção pra família, terminar de ler aquele volume d’Os Miseráveis que você só leu até a página cem?

É ruim quando a gente enrola – isso atrasa tudo, às vezes prejudica outras pessoas também, aumenta nosso estresse e sensação de falha etc. Mas é inevitável adiar algumas coisas, não só porque elas são chatas, mas porque um trabalho bem feito exige também vontade de trabalhar: não adianta concluir uma obrigação com folga se ela vai ficar num nível de qualidade inferior porque você não queria sentar naquele momento, não teve a sacada certa pra concluir aquele projeto, não deu uma última revisada, enfim. Nesses momentos, sou Monica de novo e defendo que, se for pra fazer mal feito, é melhor não fazer. Deixa pra depois. Toma o remédio da gastrite e encara o monstro do acúmulo quando ele chegar.

Porque, em algum momento, ele chega, e a gente precisa mesmo encarar. E por mais que eu ame ser Joey, ou mesmo que eu compreenda que procrastinar não é de todo negativo, ser Monica é sempre mais vantajoso e deixa uma sensação muito mais gostosa. É a felicidade da conclusão, do trabalho terminado, do agora-eu-posso-perder-cinco-horas-com-Netflix-deus-no-comando. É melhor sentir aquele prazer de quando a gente finalmente encerra tudo do que a satisfação interrompida pelo pânico de quando a gente está com o foco em outra coisa que não a nossa obrigação.

Quando busco livros sobre procrastinar, filmes, vídeos, textos, auxílio dos amigos, é esse tipo de sentimento que estou na verdade procurando. Sou uma pessoa fã de listas, planners, esquemas, quadros perfeitos separados por hora e importância. Me causa extrema alegria conseguir aplicar tudo isso que monto na vida real. Afinal de contas, me parece menos vantajoso aprender a conviver com o caos da coisa não-pronta do que aprender a superar a falta de vontade de trabalhar.

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.