Senhora do destino?


Autor tem mania de achar que é Deus.

Não, sério, nós temos mesmo. A gente acha que, porque estamos criando uma história, automaticamente viramos uma espécie de senhor daquele universo particular. Sabe como é, todo mundo gosta de mandar e desmandar na vida em algum momento. E como a gente geralmente não tem controle sobre nada no mundo real, é bacana pensar que temos algum controle sobre o mundo fictício.

Pois é. Pensar.

A verdade é que eu não controlo o destino dos meus personagens muito mais do que o meu próprio. É tolice acreditar por um segundo que aquilo que está ali é criação minha, que fui eu quem decidi, eu quem escolhi. Você acha que eu escolho matar os pobres coitados, que é decisão minha fazer esse povo sofrer? Se eu tivesse tanto controle assim, pode acreditar, tudo seriam rosas. Mas não tenho.

Quantas vezes já pensei cuidadosamente no que pretendia pra uma história e me perdi? Já cansei de rever histórias e perceber que os caminhos que eu queria seriam impossíveis, porque eles, aqueles personagens que eu criei com tanto carinho, não querem que seja assim. Parece bizarro falar que essas pessoinhas que nem existem de verdade podem ter tanta vontade própria, mas eles tem. Eles fazem e desfazem e causam e recomeçam e pisam em cima das nossas vontades. O autor, meus caros, não é ninguém.

A verdade é que a gente até cria os personagens, mas tal qual Frankenstein, eles são monstros que depois se viram sozinhos e a gente se pergunta “o que foi que eu fiz?”. Depois que você dá vida a essas pequenas formiguinhas, elas se acham gigantes, e acabam se descontrolando. Você pode planejar, planejar, e no final do dia reler o capítulo inteiro e perceber que não era nada daquilo que você pretendia. Mas tudo bem, porque não é seu, nem era pra ser. É a história deles, a vida deles, e você é só um receptáculo, uma profeta esperando pra contar uma coisa que presenciou numa visão, uma história que, na verdade, de sua não tem nada.

Sim, eu gosto de brincar de Deus. Mas se nem Deus que é Deus manda na vida, quem sou eu pra querer mandar?

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