Selo Rory Gilmore de (des?)aprovação – Semana Gilmore


Texto: Amanda Tracera

Quando vi Gilmore Girls pela primeira vez, eu tinha dezesseis/dezessete anos e estava na época do meu primeiro vestibular. A série chegou até mim por meio de um amigo que gostava, me ganhou logo no primeiro episódio e serviu como gatilho para um monte de mudanças (positivas) na minha vida. Mas ao mesmo tempo e paralelamente a todo o bem que Stars Hollow inegavelmente me trouxe, ela também teve um impacto negativo considerável em mim.

Não é difícil se identificar com Rory Gilmore, uma das protagonistas, quando você também é quieta, tem poucos amigos, ama ler, fala rápido e toma uma quantidade um pouco preocupante de café. E no terceiro ano do ensino médio era exatamente essa a minha condição, com o extra de que eu também tinha me mudado para uma escola nova e completamente diferente da minha anterior, e ainda estava sem a minha melhor amiga. Então é óbvio que eu passei a compartilhar com ela, dentro da minha cabeça, uma relação de semelhança e compreensão inexplicável.

Não muito depois, porém, comecei a perceber essa semelhança não era real, visto que a Rory era muito melhor que eu – obviamente por ser, antes de tudo, fictícia, mas também porque lia muito mais (e obras clássicas e livros difíceis!), tinha um desempenho escolar melhor, não parecia sentir preguiça de estudar e ainda arranjava tempo para fazer qualquer coisa pela cidade com a família e os amigos. Rory era a menina dos olhos de qualquer pessoa, enquanto eu estava desenvolvendo problemas no estômago por causa da ansiedade (e do café), estudava mais do que aguentava e ainda assim não parecia suficiente, e, pior, não tinha energia para mais nada que envolvesse sair de casa e fazer coisas.

Por mais infantil que talvez pareça, perceber que havia entre nós uma considerável disparidade intelectual fez com que eu começasse a me considerar um fracasso gigante, porque, na minha cabeça, existia alguém que eu poderia ser mas não era, e essa certeza (que só existia para mim) bastava para que eu me colocasse em uma posição muito inferior à verdadeira, me cobrasse ainda mais e entrasse em incontáveis crises pessoais no meio da tarde de quarta-feira porque a Rory estava debatendo A Redoma de Vidro enquanto eu insistia em “perder tempo” lendo John Green. E quando ela enfim entrava em alguma crise e nós duas voltávamos a ter aquela conexão de antes, eu me sentia ainda pior, porque só conseguia “me igualar” a ela nos seus momentos de fraqueza – rapidamente superados, aliás.

rory-finals

Não demorou para que Rory Gilmore se tornasse mais do que uma personagem. Num instante, ela era toda essa imagem, essa representação gigantesca de um estilo de vida bom e distante demais, perfeitamente resumido pela hashtag #goals. Ela era o que eu queria (mais: precisava) ser. Passei a acreditar que meus maiores objetivos da época – o jornalismo, a USP – só seriam alcançados se eu me tornasse aquela pessoa; caso contrário, era tudo fadado ao fracasso. Rory era um ponto de partida e o destino final, mas o problema era, como sempre, o caminho.

Quando a gente não simpatiza com a pessoa que é, não precisa muita coisa para começarmos a desejar ser outro alguém. Por inúmeros motivos, eu não estava exatamente feliz comigo mesma no terceiro ano, mas um deles era o fato de eu não conseguir absorver alguns conteúdos e não encontrar muita motivação para continuar tentando, de forma que eu já me via como alguém que “não merecia” alcançar objetivo nenhum. Depois da Rory, isso triplicou: eu não merecia estar na USP se não conseguia ler toda a lista da Fuvest em três meses (fun fact: 2014 foi um dos anos que eu menos li qualquer coisa, justamente porque achava que deveria ler mais); eu não merecia ser jornalista se a minha média nas redações não era mil; eu não merecia ser aprovada de primeira em uma federal se acertava poucas questões de Física nas listas. Enfim.

Levei muito tempo para acabar com esse tipo de pensamento. Quando tive que escolher entre a USP e a UERJ – porque as provas caíam no mesmo dia –, optei pela segunda porque eu não queria abdicar de algo “certo” para correr atrás de uma coisa que eu estava convencida que não ia conseguir, e então joguei fora uma quantidade enorme de provas anteriores da Fuvest e de listinhas com o título “make Rory proud”; quando a primeira lista do Sisu rodou e eu não estava aprovada em Jornalismo, mudei para outro curso porque qual era a chance de passar pro que eu queria? (Outro fun fact: teria sido aprovada se confiasse em mim mesma e esperasse.) Foi só depois de já estar na Letras que consegui me considerar “em segurança” o suficiente para notar a quantidade de coisas que tinha deixado passar, e então notei que desejar ser a Rory Gilmore tinha sido o maior motivo pelo qual eu e ela nos tornamos tão indiscutivelmente diferentes.

Existem milhões de motivos que me levaram a pensar que me tornar alguém como ela seria positivo, e nem todos margeiam o sucesso acadêmico e profissional. Pensar que Rory aos dezesseis anos já tinha lido 300 livros e sonhava com Harvard, enquanto eu estava na primeira centena e só queria uma tímida universidade brasileira, me fazia sentir ficando “para trás” numa competição irreal e cuja única função era prejudicar ainda mais a minha cabeça já abalada. O monstrinho da ansiedade é ótimo quando precisa inventar motivos para nos fazer acreditar que somos ruins, indignas, menores; deixei que ele crescesse a ponto de tapar toda a realidade e todas as minhas certezas, e então fui devorada.

Precisei de algum tempo até me acostumar com a ideia de que ser quem eu era e ter o meu próprio ritmo não é um problema, nem um defeito, nem algo que me coloque como inferior caso alguém um dia resolva classificar as pessoas do mundo. Demorei bastante até me convencer – e acreditar de verdade – que não preciso me provar para ninguém, e que os surtos e as crises me atrapalhavam mais do que me ajudavam na vida. Levei 2015 inteiro evitando assuntos sérios e simplesmente tentando “me recuperar” do trauma que o meu ano de vestibular havia sido – tudo isso porque eu não era Rory Gilmore.

rory-who-cares-if-im-pretty-if-i-fail-my-finals

O objetivo desse texto não é lamentar todo o tempo que perdi desejando ser alguém que eu claramente não seria, por uma quantidade assustadora de motivos óbvios. É que sempre que eu me pego pensando no quanto gostaria de poder ter alguma característica que essa personagem tem, preciso me lembrar de que tudo bem não tê-la. Existe um monte de razões pelas quais admirar a Rory é divertido, às vezes até positivo, e eu ainda dou play em episódios dela estudando ou enfrentando situações difíceis para me sentir motivada a fazer o mesmo, mas existe também esse outro lado da história, que não é bonito e nem agradável, e que é tão real quanto o primeiro (pelo menos para mim).

O impacto que seres fictícios tem na nossa vida é, muitas vezes, maior do que o que a gente espera ou enxerga. Levei semanas para perceber que a minha loucura estava sendo ampliada por conta de alguém que nem existe de verdade, e um ano inteiro para conseguir me desvencilhar disso, quando na verdade poderia só ter me lembrado – ou mantido em mente – que existem pessoas e pessoas, cada uma delas com seus problemas e suas qualidades; que por mais insatisfeita que eu esteja comigo mesma, não adianta tentar me enfiar em moldes irreais para a minha realidade; que eu sou quem eu sou, e paciência se algo é difícil demais ou se eu preciso de mais tempo, se as pessoas vão me considerar pior ou atrasada, se não vai dar para alcançar expectativas que não são as minhas: eu não devo nada a ninguém. Nem mesmo à Rory.

Compartilhe:

Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.