Seis poetas brasileiras contemporâneas


Texto: Bruna Kalil // Imagens: Maria Rezende – Camilo Lobo, Ana Martins – Rodrigo Valente, Ana Elisa – Guto Muniz, Conceição – Júnior Aragão, Angélica Freitas/Simone Andres – Divulgação

Como estudiosa da literatura, faz parte do meu ofício advogar, diariamente, pela causa. Como amante do texto contemporâneo, essa tarefa se torna ainda mais necessária e séria: é um trabalho também social. Portanto, sabendo desse valor importante da literatura frente à sociedade, tomei muito cuidado ao escolher um tema de pesquisa. Os clássicos já são clássicos, e todo mundo os conhece. Pensei: por que não desmistificar a literatura contemporânea, estudando-a a sério, e inaugurando críticas acadêmicas sobre ela? Desse modo, mato dois coelhos com uma cajadada só – cumpro a função social do texto literário e ainda ajudo na divulgação de excelentes trabalhos feitos hoje.

Porém, não me satisfaço apenas com dois coelhos. Preciso de, no mínimo, três. Então, tudo se iluminou: não há melhor trabalho social do que divulgar e estudar o texto de autoria feminina. Daí surgiu a vontade de criar o coletivo Mulheres Escritas, que organiza eventos e procura fomentar esse tipo de produção. Para quem está se iniciando no assunto e ainda não conhece as moças que escrevem hoje, montei uma lista de seis poetas contemporâneas que têm abalado as estruturas da poesia brasileira:

 

ANA ELISA RIBEIRO

 

Tiro, porrada e bomba. Assim é a poesia de Ana Elisa Ribeiro, passando por vários tons de erotismo e humor. Transitando entre vários gêneros e editoras por todo o país, Ana possui livros de poesia, crônicas, minicontos, e ainda escreve obras infanto-juvenis. Anzol de pescar infernos (Patuá, 2013) e Meus segredos com Capitu – Livros, leituras e outros paraísos (Jovens Escribas, 2013) foram semifinalistas do Prêmio Portugal Telecom em 2014.

O perdão está dado;

O traidor está curado;

O amor sentou-se

de pernas abertas

diante de mim.

 

Vem cá, morena.

Ele é brega.

Vá, são todos iguais,

mas uns são mais.

 

Lamento,

mas, se virar poema,

já é vantagem.

Melhor que virar

pura bobagem.

 

ANA MARTINS MARQUES

 

Se você é fã de poesia contemporânea, com certeza já ouviu falar desse nome. Ana Martins Marques, poeta mineira, anda conquistando tudo que é prêmio e reconhecimento pelo Brasil afora. Com três obras ovacionadas pela crítica e pelo público – A Vida Submarina (Scriptum, 2009), Da Arte das Armadilhas (Companhia das Letras, 2011) e O Livro das Semelhanças (Companhia das Letras, 2015) –, ela está lançando Duas Janelas (Luna Parque, 2016), livro de poesia feito em parceria com Marcos Siscar.

Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano

quantas cidades para chegarmos a esta cidade

e quantas mães, todas mortas, até tua mãe

quantas línguas até que a língua fosse esta

e quantos verões até precisamente este verão

este em que nos encontramos neste sítio

exato

à beira de um mar rigorosamente igual

a única coisa que não muda porque muda sempre

quantas tardes e praias vazias foram necessárias para chegarmos ao vazio

desta praia nesta tarde

quantas palavras até esta palavra, esta

 

ANGÉLICA FREITAS

 

Essa pelotense, além de poeta, é também tradutora, e está ultrapassando as fronteiras brasileiras, ao levar livros e traduções mundo afora. Preocupada com a questão de gênero, em 2012 lançou um útero é do tamanho de um punho (Cosac Naify), que, muito bem recebido pela crítica, foi finalista em 2013 no Prêmio Portugal Telecom. Junto dos poetas Fabiano Calixto, Marília Garcia e Ricardo Domeneck, é coeditora da revista de poesia Modo de Usar & Co.

uma mulher gorda

incomoda muita gente

uma mulher gorda e bêbada

incomoda muito mais

 

uma mulher gorda

é uma mulher suja

uma mulher suja

incomoda incomoda

muito mais

 

uma mulher limpa

rápido

uma mulher limpa

 

CONCEIÇÃO EVARISTO

 

Sabe aqueles escritores que todo mundo já sabe que se tornarão clássicos? Então, essa é Conceição Evaristo. Militante do movimento negro, a autora trata, de forma muito crua, a situação dos afrodescendentes no Brasil, principalmente das mulheres. Além de poeta, é também romancista e contista. Sua obra mais conhecida, Ponciá Vicêncio (2003), já caiu em inúmeros vestibulares e foi publicada nos Estados Unidos.

Uma gota de leite

me escorre entre os seios.

Uma mancha de sangue

me enfeita entre as pernas

Meia palavra mordida

me foge da boca.

Vagos desejos insinuam esperanças.

Eu-mulher em rios vermelhos

inauguro a vida.

Em baixa voz

violento os tímpanos do mundo.

Antevejo.

Antecipo.

Antes-vivo

Antes – agora – o que há de vir.

Eu fêmea-matriz.

Eu força-motriz.

Eu-mulher

abrigo da semente

moto-contínuo

do mundo.

 

MARIA REZENDE

 

Substantivo feminino. Esse é o nome do livro de estreia da carioca Maria Rezende, e que pode muito bem resumir toda a sua poesia. Com uma dicção lírica, que aborda desde o corpo até o amor, Maria é uma poeta que sente a palavra na língua. Excelente intérprete poética, se considera “dizedora de poesia”. Também é atriz e montadora de cinema, e participou da produção do filme Meu Passado Me Condena. Curiosidade fofa sobre ela: Maria também é celebrante de casamentos, levando poesia para as cerimônias. 

Adoro pau mole.

Assim mesmo.

Não bebo mate

não gosto de água de coco

não ando de bicicleta

não vi ET

e a-d-o-r-o pau mole.

 

Adoro pau mole

pelo que ele expõe de vulnerável e pelo que encerra de possibilidade.

 

Adoro pau mole

porque tocar um pressupõe a existência de uma intimidade e uma liberdade

que eu prezo e quero, sempre.

 

Porque ele é ícone do pós-sexo

(que é intrínseca e automaticamente

– ainda que talvez um pouco antecipadamente)

sempre um pré-sexo também.

 

Um pau mole é uma promessa de felicidade sussurrada baixinho ao pé do ouvido.

 

É dentro dele,

em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar,

que mora o pau duro e firme com que meu homem me come.

 

SIMONE ANDRADE NEVES

 

Simone é daquelas poetas precisas, devagares. Depois da sua estreia em 1994, com o livro O Coração Como Engrenagem, ela passou os próximos vinte anos aprimorando a linguagem, testando formas e entendendo melhor a sua própria poesia. Em 2015, lançou o poderoso Corpos em Marcha (Scriptum), uma obra visceral, que foge dos padrões da poesia considerada “feminina”, ao tratar de temas como a coletividade humana e animal.

Tracionada a ferrugem dos ferrolhos

reage ao sol

e rescende o cheiro dos carvalhos

no escorrer das ocras:

o ferro a menstruar no tempo.

 

Transversa

a luz revela o desenho das teias:

colcha prateada de neurônios

– esses nervos da vida.

 

Firmes ali sem mais estar

mãos invisíveis no ensaio do tear.

Além dessas, quais poetas contemporâneas vocês conhecem? Diz pra gente!

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Sobre Bruna Kalil

Estudante de Letras, amante de literatura e artes em geral, cinéfila, feminista, faladeira. É autora do livro de poesia "POÉTIQUASE", pela Editora Letramento. http://brunakalilothero.weebly.com/