Se isso aqui fosse um teste, eu seria Paris Geller – Semana Gilmore


Texto: Lila Cruz

Ou o dia que descobri que tinha coisas demais em comum com a personagem mais estressada de Gilmore Girls

Comecei a assistir Gilmore com mais ou menos 18 anos, e lá naquela época eu achava que tinha tudo a ver com a Rory. Nunca fui muito boa em lidar com grupos de pessoas: quanto maior a quantidade de gente, menos confortável eu me sentia  (até hoje é assim). Então eu estava muito feliz com meu discman ou mp3 player (era 2004, folks) e com qualquer coisa pra ler. Pra mim eu era a Rory. Entrei na faculdade me sentindo incluída num mundo paralelo onde ninguém mais estava, o maravilhoso mundo de Stars Hollow, e inclusive entrei na faculdade no mesmo ano que Rory na série. Hoje, com 30 anos, depois de assistir muitas vezes todas as temporadas e passar um tempinho sem reassisti-las, fui honesta comigo mesma.

Eu sou a Paris.

Não é uma revelação fácil de fazer, veja bem: a Paris Geller é competitiva. Ela não tem paciência com absolutamente nada, ela é vingativa. Ela fala na velocidade da luz e é meio megalomaníaca. Paris é aquela personagem que você não sabe se ama ou odeia a maior parte do tempo, até que você ama mesmo (ou odeia mesmo). Na série, Paris é interpretada pela Lisa Weil (que agora faz How to Get Away With a Murder). Lisa na verdade tinha feito teste para ser a Rory (OLHA SÓ A COINCIDÊNCIA), e aí a Amy Sherman Palladino, a criadora da série, achou que não ia rolar a Rory para a atriz, mas que, com certeza, a Lisa merecia um papel só dela. Foi assim que surgiu a estressada e cheia de neuras Paris. A personagem também só ia aparecer em poucos episódios – e a Lisa, com toda a maestria, tornou Paris indispensável.

Voltemos a entender os melhores momentos em que Paris prova por a+b que ela sou eu (como se eu fosse importante o suficiente para inspirar personagens em séries, não é mesmo?). Cuidado, pode acontecer com você também, que acha que tem muito a ver com a Rory ou com certeza tudo a ver com a Lorelai.

Os anos de Paris Geller na escola foram bem difíceis: Paris era aquela garota que se apaixonava pelos caras que não estavam nem aí pra ela. Era a garota que “filmava” tudo o que acontecia ao seu redor, checando cada possibilidade de novos alunos que poderiam competir com ela de alguma maneira. Mais tarde ela deixou a gente saber que isso era um grande estímulo para que ela conseguisse avançar nos estudos…a competição com a Rory (mesmo que a Rory não quisesse) era uma boa razão para não descuidar das notas. Eu era menos competitiva na escola, mas definitivamente pertencia à classe das competitivas, além, claro, de ser uma pessoa que só se apaixonava pelos caras que nunca tinham me visto na vida.

Paris sempre achava que havia algo de errado com ela: Paris não se achava bonita, atraente ou digna de quase nada, a não ser o que tinha relação com os estudos. Isso pode se aplicar a muitos adolescentes de 16, 17 anos (comparando a Paris adolescente com a Lila adolescente). Com certeza se aplicava à minha pessoa.

– Paris não tem paciência. Ponto: Se eu tivesse que me comparar com alguma fase da Paris, seria a de Yale. Em um dos episódios que mais gosto, Paris e Rory estão tentando arrecadar assinaturas para uma petição quando começa a chover. Ao entrar no dormitório alguém pergunta “Está chovendo?” ao que ela responde “Não, é o dia nacional de batismo, idiota, vá se esterilizar”. Paris fala com a naturalidade de quem está te fazendo um elogio. E se ela não disser, ela provavelmente estará pensando em dizer. Aquilo resumiu muito de quem é a Paris (e de mim também, deusdocéu).

Paris é centralizadora: Quando ela começa a monopolizar todas as atividades do Yale Daily News você tem uma ideia de como o sonho da Paris é controlar tudo. Eu tive uma ideia do que ia acontecer comigo se eu não pisasse no freio da megalomania centralizadora.

Paris fala na velocidade da luz: acho que isso dispensa explicações.

Talvez a minha lista nem parasse por aí, mas eu não quero que vocês fiquem com uma impressão pior do que eu já causei de mim mesma. Eu juro que eu a Paris é uma grande amiga, e também alguém que vai estar lá por você quando você precisar, mesmo que seja para te perguntar onde diabos você estava com a cabeça. E é por isso que amo a Paris Geller.

Mesmo, é claro, se ela estiver portando uma espada.

 

 

Lila Cruz é jornalista e faz histórias em quadrinhos. Ainda está aprendendo a lidar com a própria competitividade e espera ser tão bem sucedida quanto a Paris Geller um dia.

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