‘Rumours’ e corações partidos


Foi Carrie Fisher que disse “pegue seu coração partido e o transforme em arte”, frase que o Fleetwood Mac levou muito a sério em 1977.

O Fleetwood Mac: Lindsey Buckingham, Stevie Nicks, Mick Fleetwood, Christine e John McVie

Depois de estourarem com seu álbum homônimo de 1975, a banda atravessou uma fase difícil. Por mais que quisessem continuar o sucesso de seu álbum, as relações pessoais não ajudavam muito. Os casais da banda, Stevie Nicks e Lindsey Buckingham, e Christine e John McVie passaram por separações ou quase separações, e todos estavam com os sentimentos à flor da pele. Até Mick Fleetwood – cuja esposa não fazia parte da banda – descobriu que sua esposa estava tendo um caso e teve o relacionamento desfeito.

Com tanta dor, tanta frustração e tanta tristeza, eles tinham combustível de sobra para produzir e criar.

A banda começou, então a trabalhar em um álbum que chamaram de “Yesterday’s Gone”, um título mais do que apropriado. Se o ontem já havia passado, o momento era propício para falar daquilo que não existia mais, mas ainda incomodava – e muito.

Buckingham e Nicks mal se falavam fora do estúdio, e pareciam canalizar tudo o que sentiam nas músicas que escreviam. Enquanto Buckingham escreveu as músicas mais nervosas e agressivas, Nicks escreveu as mais ácidas e passivo-agressivas.

O álbum começa com “Second Hand News”, que parece animada, mas revela uma letra dolorida e cheia de um ódio que talvez o próprio Lindsey não pudesse mais guardar para si. “Dreams” é talvez a música mais famosa da banda, e é extremamente Stevie Nicks: etérea e um tanto esotérica, mas é fácil demais se identificar com os versos dela.

Daí passamos a “Never Going Back Again”, escrita por Lindsey, que mostra quão complicado era seu relacionamento com Stevie; depois de tantas idas e vindas, ele assumia que não voltariam. “Don’t Stop” foi escrita por Christine para John McVie, mesmo que ele só tenha tomado ciência disso anos mais tarde.

A visceral “Go Your Own Way” é para ser gritada a plenos pulmões, anunciando para todo o mundo a sua dor. É até bonito ver a justaposição dela com a doce e suave “Songbird”, onde Christine anunciava que desejava amor a John, principalmente se tal amor partisse dela própria.

“The Chain” (que tem uma das linhas de baixo mais marcantes e maravilhosas do rock, graças a John McVie) é a única creditada a toda a banda, e talvez a mais universal das músicas. Ela fala de uma dor que todo o quinteto sentia, e foi escrita de tal forma que é quase um sacrilégio ouvi-la em volume baixo.

A única música que parece não ter sido de um membro da banda para outro é “You Make Loving Fun”. Dizem os rumores que Christine a teria escrito para um técnico pelo qual se apaixonara pós-término. “I Don’t Want to Know” é um manifesto de Stevie, cantada por ela e Lindsey, onde ela o liberta para encontrar o amor. Já “Oh Daddy” foi uma criação de Christine McVie para Mick Fleetwood que, em meio ao divórcio, tinha que lidar com a dor de suas duas filhas jovens.

O álbum termina com “Gold Dust Woman”, que é tida como um autorretrato de Stevie, que na época consumia cocaína (daí o “dust”, o pó) aos montes. É sentida e parece ser o modo mais perfeito de se terminar um álbum que trata tanto de sentimentos. Vale lembrar também que a dolorida e real “Silver Springs” entraria no “Rumours”.

Foi o álbum mais bem sucedido do Fleetwood Mac, ganhou Grammy de Álbum do Ano, e é considerado um dos maiores álbuns da história do rock.

Tim Sommer, do Observer, define o som de “Rumours” como claustrofóbico. Não apenas sonoramente, eu diria, o álbum é claustrofóbico emocionalmente. É fácil se sentir preso dentro das suas emoções quando você é confrontado com a dor de tantas pessoas.

“Rumours” é um álbum sobre a dor humana. A própria banda não sabia quão pessoais eram aquelas músicas e, talvez por serem tão pessoais e tão íntimas, é que consigam atingir tantas pessoas, quarenta anos depois.

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Sobre Ariel Carvalho

Ariel é uma lua de Urano, um espírito do ar, um sabão em pó, uma marca de carro e uma pequena sereia, mas também é uma bibliotecária carioca que não consegue terminar a meta de leitura, sabe tudo de Monty Python e chora com filmes de ficção científica.