Rótulos


Texto: Amanda Tracera

 

Existem algumas frases que marcam a maior parte da nossa infância – ou da infância de uma quantidade significativa de pessoas – e que nos acompanham durante os anos seguintes. A grande maioria delas vira piada na mesa de bar, comparação entre os amigos, um jeito de rir do que outrora já foi muito chato ou aparentemente desnecessário e excessivo, tipo a famosa “você não é todo mundo”, que todo filho carrega nos ombros, ou mesmo a “leva um casaco” quando o termômetro marca vinte e oito graus e já são onze horas da noite.

Uma das frases mais famosas que ouvi durante todos os anos da minha vida – e mesmo agora, com dezoito anos, “praticamente uma adulta”, continuo ouvindo – é a “quando você tiver a sua vida e a sua casa, você faz o que você quiser”. Isso porque meus pais sempre foram um pouco controladores, às vezes mais até do que o aceitável, então era comum que, quando as minhas posturas se afastavam daquilo que eles consideravam “certo” ou “adequado”, eu recebesse um corte definitivo e uma sentença fantasiada de brincadeira: você só vai ser livre quando sair da minha casa; antes disso, quem manda na sua vida não é você.

Longe de mim querer destruir por completo os papéis que meus pais precisa(va)m exercer dentro de casa. Acho que existem limites para toda liberdade quando não é você quem paga as contas e compreendo por inteiro a preocupação e o pânico de deixar um filho mais solto no mundo, mas, ao mesmo tempo, me pergunto se é necessária essa imposição de poder sempre que nós, A Prole, nos mostramos contra alguma atitude ou contra alguma opinião.

É engraçado que haja um bloqueio completo sobre as nossas vontades – quase como um ignorar generalizado delas – sempre que fugimos do padrão de filhos ideais estabelecido dentro de casa. Quero dizer, soa estranho que os pais tenham que se afirmar como Pais – com pê maiúsculo – e, portanto, como detentores do poder e da sapiência, e dizer essas palavras que não só silenciam qualquer singularidade que A Prole deseje expressar, como também destroem qualquer ilusão de diálogo e acordo. Não existe conversa quando alguém determina que aquela sua vontade específica só vai se concretizar quando você for completamente independente e estiver sob outro teto.

Me parece, de vez em quando, que sempre que nos impomos como Indivíduos – com i maiúsculo também –, e não como filhos, fazemos tremer essa estrutura (que deveria ser firme, mas obviamente não é) de pais e filhos, como se a relação se abalasse. É como se precisássemos urgentemente ser lembrados dessa hierarquia quando ousamos atravessar essa linha imaginária que nos separa dos Adultos Que Sabem Mais, porque, como filhos, precisamos, na teoria, ainda não entender o mundo, nem nós mesmos, nem a vida de forma geral, e precisamos também de alguém que nos mostre O Melhor Caminho. Esse alguém é, invariavelmente, a figura materna ou paterna (ou ambas), que, depois de anos de vida adulta e de muita experiência, podem decidir por nós o que vai ser ideal para nós.

O discurso “você ainda é muito novo para entender o mundo” é um dos piores que existem. É claro que experiência e vivência abrem os nossos olhos, e que, conforme ganhei mais idade, passei a ver as coisas de forma diferente. É também evidente que eu não acredito que a liberdade completa vá ser a solução para todos os problemas de família que existem no mundo. Mas não consigo deixar de pensar que: 1) idade nunca determinou o número de experiências, estudos e/ou informações que uma pessoa pode já ter tido na vida; e 2) essa mania de sermos enxergados como filhos antes de sermos pessoas é probemática e deve ser sempre debatida.

Somos seres humanos e, como tais, temos vontades, desejos, ideias, noções, opiniões e visões de mundo que não necessariamente se assemelham àquelas que nos cercam. Somos seres humanos e, como tais, podemos discordar, odiar, enxergar falhas e defeitos, problematizar e não aceitar comportamentos de pessoas que são da nossa família, que são nossos pais, que são nossos irmãos. Somos seres humanos, e isso vai além do nosso rótulo de filhas e filhos, irmãs e irmãos, primas e primos, avós e avôs, mães e pais; vai além da ideia de que essa estrutura familiar não pode ser jamais partida, reorganizada, trabalhada com diálogo e um pouco de paciência.

Eventualmente, pais morrem. Irmãos morrem. Filhos morrem. Tios, avós, primos, padrinhos. Todos vão embora, mais cedo ou mais tarde, e os títulos que eles carregavam vão junto. Ninguém vai ser eternamente um parente específico, e ninguém é só um parente durante a vida toda. Então por que continuamos a nos ver dentro de um molde específico? Por que passamos a maior parte do tempo encaixando pessoas dentro de ideias e impedindo qualquer mudança? Por que essa necessidade de afirmar um poder que em algum momento não vai mais existir, em vez de simplesmente conversar e discutir visões de mundo diferentes? São questões.

Eu não conheço muitas frases sobre família, e eu não conheço também pensadores que tenham falado sobre esse assunto. A melhor definição que eu tenho vem de um filme da Disney (é claro), foi lindamente citada pelo Diego no texto dele e quer dizer “nunca abandonar ou esquecer”. Cresci acreditando que estar em família era essencialmente estar no meio de pessoas que nos fazem bem, e que nos apoiam independentemente dos erros que cometemos. É bem verdade que essa noção mudou consideravelmente ao longo dos anos, mas a essência dela continua a mesma: quanto mais ouvidos dispostos a escutar e menos bocas com frases e julgamentos memorizados, melhor.

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.