Romeu e Julieta


A primeira vez que eu li Romeu e Julieta me lembra mais a Taylor Swift do que qualquer parte do enredo. Em dado momento da minha formação como aluna do ensino médio, minha professora de inglês decidiu que nossa turma precisava ler as obras de Shakespeare.

É claro, ela não nos mandou ler os textos originais (apesar de que talvez nós tivéssemos aproveitado mais se assim fosse), mas uma versão bem aguada e adaptada. Um desses livros de menos de 200 páginas que de alguma forma continha as obras mais famosas do autor. Mas primeiro, assistimos a Shakespeare Apaixonado.

Tudo isso culminou em duas atividades, digamos, diferentes. E é aí que chegamos na Taylor. A primeira delas era que cada dupla na sala apresentaria uma das obras. Bom, pra nossa sorte, eu e minha amiga pegamos Romeu e Julieta. Até esse ponto, tudo que eu conhecia da história eram releituras, então estava ansiosa para finalmente ler. Pra ser sincera, acho que na época nem gostei tanto. Mas na nossa apresentação, tocamos Love Story, que até hoje é uma das minhas músicas favoritas da Taylor. E nossa professora adorou. A segunda atividade foi bem mais constrangedora. As aulas de inglês e espanhol organizaram uma noite de apresentações e, para iniciar o evento, os alunos da tal turma de inglês iam recitar os primeiros versos de Romeu e Julieta. Agora imagine uns quinze adolescentes com sotaque horrível e péssima dicção gritando no meio do teatro:

Two households, both alike in dignity

In fair Verona, where we lay our scene

Bom, desde essa época eu assisti Cartas para Julieta, li muitos mais livros sobre amor, consumi mais releituras (incluam aqui um dos meus episódios favoritos de Doctor Who), meu sotaque ficou bem melhor e, bom, cresci uns seis anos. O que provavelmente foi o fato importante da minha mudança de pensamento sobre Romeu e Julieta.

O livro que na época era só um história de amor – das quais  no alto da adolescência eu me achava cult demais para gostar – com um viés trágico mas de alto romantismo mudou na minha perspectiva. E vou contar como foi.

Em primeiro lugar, ler uma peça é incomum. É um pouco desconfortável, porque não estou acostumada. As quebras nas linhas fizeram da minha leitura um pouco demorada e isso me deixava impaciente. Mas por outro lado, eu ficava imaginando as cenas com mais detalhes, o que foi uma boa surpresa.

E daí entra a questão da linguagem. Não tive essa vivência no ensino médio e foram poucas as vezes que tive que lutar com minha dificuldade de compreensão de termos antiquados enquanto lia. Mas foi legal ter que vencer essa barreira. E a linguagem difícil faz parte da leitura, então 😛

Outra questão – e coloco-a aqui como a mais importante – é a do amor. Minha impressão talvez estivesse sendo obstruída por dezenas de recriações e releituras da peça, mas eu sempre tive a ideia que Romeu e Julieta fosse uma história de amor. Uma  história de amor passional entre dois adolescentes que era um arquétipo de romance justamente por ser tão intensa. E eu não me interessava muito por esse tipo de livro.

Bom, ela é intensa com certeza. Mas não é disso que eu quero falar. O que me chamou a atenção em Romeu e Julieta foi que ambos estavam tentando corresponder às expectativas a eles impostas sobre suas vidas. Estamos falando de uma cidade dividida, de preconceitos jogados por todos os lados e de uma impossibilidade de trégua.

Nesse contexto, dois jovens se apaixonam. Se apaixonam perdidamente. Mas se eu achava que o livro era sobre isso, estava terrivelmente enganada. Todos nós sabemos o drama, já que ele foi contado e recontado muitas vezes na cultura pop: a paixão de Romeu por Julieta é correspondida e, impedidos de terem um final feliz por causa de suas famílias, eles arquitetam um plano. Julieta tem que se livrar de um casamento que não quer que aconteça e, para isso, ela toma um falso veneno. Este deve fazer com que ela pareça morta até que Romeu, avisado por um mensageiro, vá buscá-la e os dois possam se unir. Mas a mensagem é extraviada e Romeu ouve apenas que Julieta está morta. A caminho da cripta da família dela, ele compra um veneno de verdade e o toma ao lado do corpo da amada. Julieta, ao acordar do seu entorpecer, encontra Romeu morto. Desolada, ela se suicida. E assim termina a trágica história de amor.

Não é bem uma historinha água-com-açúcar, certo?

Agora que nós estabelecemos que eu sou péssima resumindo histórias, algumas coisas a se considerar. Eu imediatamente pensei nesse livro da lista da Rory quando falamos sobre corresponder porque ele trata do termo em todos os seus sentidos.

É claro que a primeira coisa que me vem à cabeça é o amor ser correspondido. O que é legal em Romeu e Julieta é que a história parte da impulsividade de dois jovens apaixonados um perto outro. É essa intensidade que move o enredo. O conflito entre o amor de Paris não ser correspondido por Julieta, que corresponde ao amor de Romeu é essencial.

Em segundo lugar, a falta de comunicação. A distância entre as duas famílias, a necessidade de manter a disputa até a última página da história, a negação de que ambas são importantes na sociedade. Ao mesmo tempo, a falha na correspondência, na comunicação entre os protagonistas custa suas vidas. Era difícil para ambos conseguirem ter conversas, considerando sua situação, e ao final da história, uma mensagem extraviada faz com que seu destino seja trágico.

Mas além disso, podemos usar essa história para falar de padrões sociais. Ela se passa em uma sociedade fechada, cheia de papéis pré-determinados e desprazeres pré-estabelecidos. Ou seja, simplesmente por nascerem, respectivamente, Montéquio e Capuleto, já era esperado de Romeu e Julieta que tivessem determinadas atitudes, grupos sociais e, bom, correspondessem aos seus papéis.

Ao final, é fácil ver porque Romeu e Julieta é um clássico, porque essa peça reverbera através dos séculos e inspira até comédias adolescentes, histórias infantis, músicas country, filmes da Amanda Seyfried e famílias no The Sims: é simplesmente real demais. Ok, não estamos falando de veneno e, com certeza, nos tempos modernos repassaríamos planos de fuga pelo Whatsapp, mas disputas familiares, cobiça, preconceito e impulsividade existem até hoje.

Rory Gilmore Book Project é uma iniciativa de ler todos os livros que a nossa queridíssima personagem leu durante as sete temporadas de Gilmore Girls. Como isso é, tipo assim, impossível (até porque ela deve ter lido mais que qualquer pessoa conseguiria na vida), minha missão aqui é tentar ler o máximo que eu conseguir e contar pra vocês como foi. Espere de ficção à grandes reportagens, de romance água com açúcar a suspense: Rory Gilmore lê de tudo. E agora, eu também. 

 

 

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Sobre Lorena Pimentel

Paulistana que preferia ter mar, entusiasta do entusiasmo, Grifinória com medo de cachorros, defensora de orelhas pra marcar livros, não gosta de açúcar, colecionadora de instagrams com fotos de bebês, oversharer no twitter (@buzzedwhispers) e uma eterna vontade de ter nascido Rory Gilmore.

  • jessica

    amei sempre amei a história romeu e julieta gostaria ainda de fazer a peça um dia eu vou se deus quiser parabéns!!!

  • Lorena, amei demais demais demais essa análise. Jamais pensaria em evidenciar esse lado da falha de comunicação/correspondência, mesmo sendo esses relatos de desencontros que me deixem sempre agoniada nas histórias!
    Parabéns!!!