“Romancista como vocação”, de Haruki Murakami


“Vocação” é uma palavra um pouco forte, principalmente quando tratamos de escrita. Meus primeiros “gurus” neste aspecto foram Neil Gaiman e Stephen King, dois grandes defensores da necessidade da prática constante do ato de escrever para a melhora – de acordo com este primeiro, inclusive, não existe nada como um “bloqueio de escritor”, assim como mineiros de carvão não alegam estarem “bloqueados” para não trabalhar.

O título do livro de Haruki Murakami, portanto, me pareceu um pouco determinista logo de cara, mas sendo ele um dos meus autores favoritos, não poderia deixar de ler suas pílulas de sabedoria a respeito do ofício de escritor. Murakami teve um início de carreira incomum: aos vinte e nove anos, ele sentiu a urgência de escrever um romance (aquela urgência que, de acordo com Bukowski, você não deve nem começar sem) e o fez em suas horas vagas. Mandou o único manuscrito, depois de diversas alterações, para um concurso literário, e, para a sua surpresa, foi declarado ganhador.

Murakami é um escritor interessante como poucos: seus livros são difíceis de se categorizar, até mesmo colocando-os em caixinhas mais amplas como ficção literária ou literatura de gênero. Toda e qualquer obra dele que já li – número este que deve ultrapassar uma dezena – me deu um nó na cabeça, uma dificuldade interpretativa dificilmente encontrada em textos sem pretensão para tal. A literatura de Murakami não é difícil por que ele pretende que ela a seja; ela é difícil porque ele, como poucos, consegue capturar a natureza humana, sejam seus personagens homens de meia-idade no Japão ou garotas adolescentes americanas.

Nos primeiros capítulos já é perceptível que os subtons deterministas não são lá tão verdadeiros quanto supus. A “vocação” do título resume-se simplesmente na disciplina necessária para se escrever romances; uma atividade cuja recompensa está sempre longínqua e incerta.

E embora ele enfatize várias qualidades que precisam, ao seu ver, serem encontradas em um romancista profissional, o processo criativo descrito por Murakami nesse livro parece a coisa com menos firulas e complexidades próprias. O autor se preocupa somente com “as pessoas interessantes”, ou seja, seus personagens, que são encontradas no processo da escrita.

Embora a auto-disciplina de produzir um determinado número de páginas diariamente seja sempre enfatizada (em conjunto com a lembrança constante da importância da manutenção de um estilo de vida saudável – os esteriotipos do escritor boêmio e louco não servem aqui) todo o processo criativo de Murakami parece se pautar em se divertir no ato de escrever. A dúvida e o cansaço estarão sempre presentes, assim como em qualquer atividade a longo prazo, mas nunca suplantam, em um romancista, a vontade de terminar aquela história.

Romancista como vocação não é um manual – não é nem uma memória da relação de Murakami com a escrita, como inicialmente supus: o livro é uma longa e bela carta de amor a literatura.

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Sobre Isabel Moraes

Baiana de nascença e coração, já passou uma temporada em Praga e hoje mora em Niterói, onde cursa Estudos de Mídia. Ama livros, séries, gatos, cerveja e se empolga um pouquinho demais quando falam de política. Quando escreve, tenta por aquela tal objetividade da qual falavam no colégio, mas não tem jeito: vira tudo egotrip.