Romance Moderno e a Televisão Americana


Texto: Priscilla Binato

Uma coisa que sempre foi bem clara na minha cabeça enquanto eu procurava novas séries para assistir é que eu não gostava de comédia romântica. Eu sempre vi esse gênero como algo emplastado, uma forma velha de fazer entretenimento, sempre com as mesmas fórmulas e os mesmos trejeitos. Entretanto, como tudo na vida às vezes você acaba tendo que morder a sua língua e admitir que estava errada. Eu tive que admitir que estava me apaixonando cada vez mais por comédias românticas, mas, especificamente, pelas comédias românticas de romance moderno, como eu gosto de chamá-las. Mas o que é isso, senpai? É um gênero de romance na televisão que eu caracterizo como uma desmistificação da idolatria do amor romântico.

Antes, você demorava uma temporada inteira para o casal só tocar as mãos, porque havia todas as fazes do romance clássico que precisavam ser superadas antes que qualquer coisa pudesse acontecer. Mas no romance moderno nem sempre isso precisa estar presente ou esse ideal do “felizes para sempre” precisa ser a grande aspiração dos personagens. Eles estão vivendo e experienciando o mundo como qualquer outro, como pessoas comuns, pessoas abertas às possibilidades. Eu sinto, muitas vezes, que essa narrativa quase principesca, de contos de fadas, não faz mais parte da minha realidade e imagino que também não faça parte da realidade de muitos por aí. Enquanto alguns podem, claro, querer a vida de contos de fadas, outros vem preferendo a realidade tangível. Eu me incluo nesse segundo espaço.

Então separei cinco seriados que eu acho que representam bem esse arquétipo de personagens.

You’re The Worst

Para mim, You’re The Worst é a definição de um relacionamento moderno, apesar de desconsiderarmos o caráter dos personagens para a necessidade dessa definição. A série conta a história de Gretchen e Jimmy, que se tornam um casal depois de se conhecerem no casamento de uma ex-namorada dele que também é irmã da melhor amiga dela. Gretchen sai da cerimônia depois de roubar um liquidificador dos presentes de casamento e Jimmy é expulso depois de humilhar a noiva no meio de todos os convidados. Os dois são pessoas terríveis e não há nenhuma desculpa para as ações deles, mas como um casal eles se tornam uma combinação incrível (de pessoas ainda mais terríveis).

Os dois começam a se envolver depois de algumas noites de sexo sem compromisso e tem que começar a entender os limites e as junções desse relacionamento, o que eles estão dispostos a sacrificar e o que não estão tão dispostos assim. De uma maneira bem moderna, Gretchen e Jimmy conseguem ter uma sincronia de namoro muito melhor do que o romance padrão, cheio de sacrifícios e sem realidades. Um tem que deixar de fazer coisas que gosta pelo outro, os dois tem que mudar seus hábitos de forma a encaixar a outra pessoa, eles tem que arranjar uma forma de encaixar – principalmente depois de algumas mudanças acontecerem na vida de cada um deles. E do mesmo jeito que eles não são boas pessoas, eles também não são sempre bons namorados ou bons amigos. Jimmy é um bosta com Gretchen em muitos momentos, assim como ela também é com ele em alguns (bem menos do que o contrário, Gretch my baby). Mas isso faz parte da dinâmica dos dois, faz parte da forma como eles se comunicam.

Casual & Younger

Tanto Casual quanto Younger são séries sobre mulheres mais velhas que depois de um divórcio acabam encontrando desafios na ideia de voltar a ter uma vida amorosa. Younger conta essa história de um jeito mais divertido do que Casual, sendo uma comédia bem interessante e divertida. Liza, a protagonista, acabou de se divorciar e ela começa a procurar uma forma de se reinserir no mercado de trabalho. Só que ela descobre que as empresas estão interessadas na sua experiência, mas não na sua idade. Depois de receber um conselho muito dúbio da sua melhor amiga (e uma das melhores personagens da série), Maggie, Liza começa a mentir a sua idade e falsifica os seus documentos para poder viver como uma garota de vinte e tantos anos. Apesar de parecer impossível, ela consegue, e isso a leva a vários problemas e grandes confusões com as suas amigas (narração de sessão da tarde).

Em Casual, Valerie e a sua filha Laura vão morar na casa de Alex, irmão de Valerie, depois que ela descobre que seu ex-marido a estava traindo. Ela é uma psicóloga bem sucedida que acredita já ter tudo o que precisa, enquanto Laura está recém começando a se conhecer e se entender – mas já parece saber bem mais do que Valerie. Enquanto isso, Alex é um bon vivant que criou o algoritmo para um site de romance online (que ele mesmo usa, fazendo questão de se apropriar em uma falha do programa que ele está sempre tentando resolver) e ele coloca Valerie no site para que ela volte a sair. A série aborda muito dos reencontros de Valerie com o mundo dos encontros, mas também faz questão de abordar o dilema adolescente da sexualidade em Laura e, ainda, o amadurecimento do womanizer, com Alex.

As duas séries, de formas bem diferentes, mostram uma reintrodução de duas mulheres mais velhas no mundo do romance moderno. Tinder, sites de namoro em geral, comunicações pela internet, texting, sexting, interações com homens mais novos e um banho de autoestima muito necessária; tanto Valerie quanto Liza encontram problemas parecidos nos episódios e é cada vez mais divertido assistir elas resolvendo-os.

Jane the Virgin

De certa forma essa é a série mais tradicional que tem na lista, mas, ainda assim, Jane the Virgin consegue ser bem moderna na questão do relacionamento. A série conta a história de Jane Villanueva, uma jovem que vem de uma família de imigrantes venezuelanos de segunda geração. Ela tem um namorado há anos e eles tem um relacionamento bem sólido, são companheiros e se apoiam na maioria das decisões. Inclusive depois que Jane é acidentalmente inseminada artificialmente e fica grávida do dono do hotel onde ela trabalha. Durante a série, Jane começa a se apaixonar pelo pai do seu filho e entra em um triângulo amoroso entre seu atual relacionamento e este novo.

A melhor parte dos relacionamentos românticos de Jane the Virgin é que todos eles partem de Jane. Ela toma os passos para decidir com quem vai ficar, ela quem é a primeira voz nesses relacionamentos. Apesar de ser bem tradicional e com aquele romantismo padrão, toda liderança feminina, a voz feminina na forma de pensar e reger a série, faz com que a dinâmica se torne totalmente diferente. O coração de Jane muda de opinião com muita rapidez, principalmente por conta da inspiração da série em novelas latinas. Apesar de Rafael (o pai da criança) e Michael (o relacionamento de Jane) fazerem os seus esforços para conquistar a mulher, sempre é ela que toma as decisões que seguem em frente. Ela é sempre quem decide com quem vai ficar e porquê – e ela muda de opinião bastante.

Mas a melhor parte é que apesar da série ser muito romantizada, de todos os romances terem como objetivo o verdadeiro amor e o felizes para sempre, a série é muito madura e “moderna” sobre isso. Jane entende que ela está procurando o felizes para sempre, mas que quando ele acaba mal não há tanta diferença assim. Ela entende que apesar do mundo dela estar de cabeça para baixo e de tudo estar acontecendo rápido demais, ela precisa de um apoio e de um verdadeiro amigo por trás de um relacionamento – o que é a base de um romance moderno, na realidade. A compreensão de que além do felizes para sempre e dos choques de paixão é necessário companheirismo, amizade e, acima de tudo, a capacidade de se colocar no lugar do outro faz com que Jane the Virgin seja muito moderno dentro dos relacionamentos romantizados.

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Sobre Priscilla Binato

Uma carioca de coração, 21 anos completos em janeiro e gateira como profissão (ou ao menos um sonho). Estudo jornalismo e estou quase me formando, mas tenho aspiração de escrever como profissão. Detesto sushi, pizza, Senhor dos Anéis, Game of Thrones e muita coisa que todo mundo acha legal, to nem aqui. Sou lufana de coração e de alma, 100%, além de feminista, assexual e chata do rolê.