“Romance moderno”, Aziz Ansari


Minha primeira paixão nasceu num abraço precipitado, uma ou outra piada ruim e uma troca de scraps no finado Orkut. Ela floresceu principalmente na minha cabeça, mas nada disso teria acontecido não fosse o MSN e o recurso que mostrava as últimas pessoas que visualizaram seu perfil no Orkut.

Era um jogo irresistível: eu entrava no perfil dele só para ele saber que eu estive lá, ele entrava de volta no meu e, se eu tivesse sorte, me deixava um recado ou o link pra uma música do Paul McCartney. Quando não dizia nada, pelo menos tinha o consolo de saber que ele se deu ao trabalho de passar por ali.

Quando nos adicionamos no MSN, outro tango começou a ser dançado. Ele entrava sempre no mesmo horário, no fim da tarde, e nós conversávamos todos os dias. Eu ficava offline quase o tempo todo e próximo da hora dele chegar calculava meticulosamente quando deveria aparecer online. Antes? Depois? Logo em seguida seria dar muito na cara, mas eu não parecia me importar muito com isso quando entrava e saía do Messenger várias vezes pra ter certeza que ele me viu ali.

Eu tinha catorze anos, ok? E eu tenho certeza que você já fez isso também.

Era uma medida desesperada, claro, mas é muito tênue a linha que separa o ridículo das decisões racionais quando estamos apaixonadas. Aliás, às vezes nem precisamos de algo tão grave quanto a paixão. Na última semana perdi minha cabeça por causa de um moço do Tinder que sumiu depois de dois dias de conversa muito agradável. Pelo menos pra mim foi agradável. A gente trocou gifs, eu fiz ele rir em caixa alta… Se bem que me irritava um pouco as respostas demorarem tanto, tudo bem que ele disse que não era muito de redes sociais, mas, sério, qual o problema? Será que ele não gostou do meu jeito de pontuar as frases? Eu adorei o jeito dele de pontuar as frases, sobretudo porque ele sabe que não se dá espaço antes da exclamação, coisa rara hoje em dia. Ele não respondeu meu último “oi!”. Já faz uma semana e eu sei o que isso significa, mas às vezes fico tentada a dizer algo, vai que a mensagem não chegou? Ainda bem que a Clarice Falcão escreveu Vinheta: “Como é aquela história de e-mail que não chega? Eu lembrei, aquela história é que e-mail sempre chega”.

 

Não fui a primeira e nem vou ser a última pessoa a levar (ou praticar) o famoso perdido, que hoje em dia vem na forma de dois tiques azuis ao lado daquela mensagem que nunca verá uma resposta. O Aziz Ansari também sabe como é isso, e começa seu livro, Modern Romance, com uma anedota sobre como perdeu a cabeça depois de ter uma mensagem visualizada e jamais respondida por uma garota com quem ele tinha ficado.

Intrigado por essas particularidades que fazem parte da dinâmica dos relacionamentos atuais, Aziz começou a trabalhar o tema nos seus shows de stand-up comedy, convidando as pessoas até o palco para futricar nos seus celulares, ler suas mensagens e ouvir suas histórias de conquistas e fracassos. A experiência só deixou o comediante e roteirista ainda mais curioso, de modo que era hora de escrever sobre essas relações de forma mais aprofundada, com um viés sociológico. Para tanto ele contou com a ajuda de Eric Klinenberg, sociólogo e professor da New York University, e foi atrás de uma série de especialistas, antropólogos, psicólogos, historiadores e gente que pesquisa coisas muito específicas, como o comportamento dos seres humanos na hora de escolher.

Apesar das anedotas e do texto sempre divertido, Modern Romance é uma pesquisa de campo conduzida com rigor e seriedade: eles visitaram países diferentes para analisar as mudanças de comportamento de um lugar para o outro (por que os japoneses estão perdendo o interesse por sexo enquanto na Argentina as pessoas não pensam em outra coisa?), conduziram diversos grupos focais e reuniram um monte de estatísticas, algumas também extremamente específicas, como a que indica quais características presentes numa foto de perfil mais atraem homens e mulheres em apps de paquera (sim, isso existe, e a ciência explica por que é tão difícil achar selfies masculinas decentes).

É preciso frisar, contudo, que a pesquisa se refere a uma faixa específica da população, que é heterossexual, está entre os 20 e 30 anos, com uma condição de privilégio que permite o acesso a internet e smartphones. Dentro desse enfoque, o cenário descrito pelos autores revela esse monte de gente grudada nos seus celulares a espera de uma mensagem, pensando na mensagem perfeita ou com ódio daquele cara que tinha tanto potencial mas não consegue dizer nada mais empolgante do que um “E aí, linda!!!”. Somos parte de uma geração que possui infinitos meios para encontrar alguém e talvez por isso seja justamente tão difícil encontrá-lo. Todas as opções e possibilidades nos deixam com a sensação de que nossa alma gêmea perfeita está por aí em algum lugar e a escolha por alguém implica na renúncia de todos os outros alguéns que estão ao alcance do nosso celular.

Indecisão, atenção fragmentada, idealização de padrões inatingíveis, como se pessoas fossem algo que você pudesse montar e personalizar de acordo com o próprio gosto, como um Frankenstein travestido de príncipe encantado. De repente toda essa variedade não parece assim tão atrativa: Não era muito mais fácil na época dos nossos avós, que encontravam o amor no próprio bairro, em casamentos arranjados, ou em bailinhos de mocidade?

Aziz não olha para esse cenário como se tudo estivesse perdido e antigamente fosse muito melhor. Através do livro ele descreve como as coisas são, numa tentativa de entender esses comportamentos e mostrar que certas coisas, por mais estranhas que pareçam, hoje são parte do mundo em que vivemos e como ele afeta nossos relacionamentos. Acho bacana que sua condição primeira de comediante permita que ele quebre o distanciamento do pesquisador e se coloque como sujeito também, sem esconder as vezes em que ele foi um cara preguiçoso que ofereceu pouco além de um “E aí linda!!!” e compartilhando as mensagens que trocou no início de sua história com sua atual namorada. Sua voz é tão marcante que quem acompanha o trabalho dele como ator consegue perceber ecos de Tom Haverford nas inúmeras referências ao mundo do hip hop e também pescar algumas situações que inspiraram episódios de Master Of None, série da Netflix que ele protagoniza e escreve.

O livro não oferece muita novidade para quem já leu um pouquinho sobre a famigerada geração Y ou relacionamentos na era digital. Contudo, a leitura vale pela identificação, seja com um caso ou todos, e como é legal perceber que não é só você que descarta um perfil do Tinder porque o moço tirou foto mostrando a língua na frente do espelho. É um fenômeno. Isso é ciência. Não é muito doido? Ler esse livro foi mais ou menos como descobrir aquela comunidade no Orkut com pessoas que entravam e saíam do MSN para chamar a atenção de alguém: ela tinha milhares de membros e eu achava que era a única a fazer isso. Moral da história? Somos todos ridículos e estamos nessa juntos. Algumas coisas mudam de tempos em tempos, mas o amor sempre esteve por aí e vai nos encontrar em algum momento.

Parafraseando John Green, ainda que isso seja uma mentira, pelo menos é a mentira mais bonita que a gente tem.

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Sobre Anna

Anna Vitória tem 21 anos, e é mineira com um coração de pão de queijo, mas jura que tem alma carioca. Estuda jornalismo, mas queria mesmo ter uma banda e ser rockstar. É feita de açúcar, curiosidade e chuva, meio hippie e muito mórbida - e por isso tem certeza que vai morrer soterrada pelos próprios livros.