Reza a lenda


Quando estávamos decidindo o tema da nossa 11ª (!!!) edição, alguém deu a ideia de falarmos sobre mitos. A cultura mitológica, as histórias falsas, os seres míticos. Mas será que era suficiente?

Foi quando pensamos também em lendas. Lendas da mitologia sim, seres lendários, pessoas lendárias, folclore brasileiro, folclore de outras culturas, tudo isso nos veio à cabeça. Mas o mais interessante foi que uma característica da lenda é que ela não é verdade, mas também não é mentira.

Lendas, tradicionais ou não, são meios de propagar aquilo que a gente diz. Tem a lenda da Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, pra avisar as crianças de que não é certo sair pela floresta e interagir com estranhos. A maioria de nós ouviu falar do Boitatá, que protegia a natureza, ou do Saci Pererê. São tradições, assim como lendas sobre duendes ou fadas em outros lugares. Tradições orais que seguem os costumes e percorrem séculos. Os mitos e as lendas andam próximos. Começam de boca em boca até que alguém vai lá e escreve sobre eles.

Foi assim que ganhamos os contos de fadas, as narrativas consideradas base da literatura ocidental e também as narrativas que perpetuam o folclore brasileiro. São seres como a Mula-sem-cabeça ou o Curupira, mas também são fadas, unicórnios, magos, super heróis, semideuses ou dragões. Também são guerreiros, Ulisses e Aquiles, heróis e feiticeiras. De Peter Pan a Game of Thrones, passando por Thor e Drácula, temos as figuras fantásticas de nossos sonhos.

Não é só o passado distante que faz parte disso. As lendas urbanas também estão aí para representar os moralismos e as tradições do mundo moderno. Todo mundo tinha medo da Loira do Banheiro ou já ouviu por aí que a Xuxa tinha pacto com o demônio. O homem do saco fez muitas crianças questionarem as intenções do lixeiro e tem gente que suspeita que o Paul McCartney tenha morrido e sido substituído. Em cada comunidade específica, lendas urbanas específicas aparecem.

Histórias viram lendas, mas pessoas também. Grandes personalidades fazem tanto sucesso e acabam tendo um culto à sua imagem tão grande que parece que nada jamais vai chegar aos seus pés. Claro, essas pessoas são mais do que só isso, mas a força com que esse lado se manifesta é tão grande que elas perdem a humanidade aos nossos olhos e se tornam figuras lendárias.

Podemos criar as lendas nós mesmos, por que não? Histórias de família, a construção de nossa própria reputação, as mentiras e verdades que contamos sobre nós mesmos, as coisas que preferimos ocultar e deixar no mistério. Construímos histórias sobre nossos vizinhos sem termos nunca falado com eles e talvez inventemos histórias de vida demais para passageiros aleatórios do metrô.

Criamos e acreditamos em mitos do cotidiano e em lendas sobre aquilo que não conhecemos. Inventam sobre nós também. Tecemos a narrativa da nossa própria vida tentando ser o mais fiel possível, mas lá no fundo sabemos que ela é cercada de lendas e mitos. Viemos a um mundo formado por eles, crescemos aprendendo as lições que eles pretendem nos ensinar e acabamos aqui com a seguinte pergunta: acreditamos ou não?

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