Revolucionando a memória: bibliotecas, Wikipédia e história


Numa época ainda bastante recente, mas que pode parecer distante, para buscar informações era necessário ir a uma biblioteca, procurar ou pedir um livro de acordo com um sistema de organização específico, e então lê-lo, usando métodos próprios para encontrar, neles, a informação que buscava. Ainda existem bibliotecas, claro, e elas ainda são usadas, principalmente em ambientes escolares e universitários, mas qualquer pesquisa hoje em dia começa com uma boa dose de Google – nem que seja para descobrir que livro procurar na biblioteca. A internet facilitou muito a vida de todos os estudantes desesperados na véspera da entrega de um artigo (porque bibliotecas, afinal, não costumam ser 24h), mas também mudou inteiramente as formas de selecionar, organizar e acessar informação – e, consequentemente, memória.

A internet é, supostamente, aberta e democrática: todo mundo pode escrever o que quiser, publicar o que quiser, ler o que quiser. A patrulha elitista acadêmica argumenta que, por isso, a internet não é uma fonte confiável de conhecimento, que livros e bibliotecas e universidades são as fontes legítimas, que gatekeepers do conhecimento servem para manter as informações corretas. Mas quem são esses gatekeepers? De onde vem o poder deles? Como podemos garantir que todos os professores, escritores, editores, acadêmicos, arquivistas, historiadores são competentes e cultos e confiáveis o suficiente para decidir qual é o conhecimento “certo”, qual é o “melhor”? Deixa eu contar logo: eles não são nada disso.

Tenho 23 anos, levei muito mais tempo do que precisava para terminar a faculdade, e sou profissional autônoma que escreve na internet, mas desde os 19 reviso textos acadêmicos de professores com mais de três vezes a minha idade e encontro erros – inclusive de conteúdo. Além disso, editoras recusam livros o tempo todo, e não são todos ruins – afinal, vários livros foram recusados várias vezes até serem publicados. Vez ou outra se descobre algum escândalo acadêmico ou literário: as informações amplamente distribuídas que na verdade são mentira, os plágios desmascarados, os pseudônimos decifrados, os livros de péssima qualidade mas escritos por alguém importante.

E não é coincidência que os “grandes nomes” dos campos do conhecimento sejam homens brancos, cis e frequentemente heterossexuais. Não é porque esses homens, por acaso, são melhores. Tem a ver com os responsáveis por selecionar esses grandes nomes, por estudá-los, por distribui-los: a história é escrita pelos poderosos, então a memória também é.

Seria então um alívio se deparar com a internet e seu mar de informações, seu espaço para vozes normalmente apagadas, para comentários contestando as informações, para discussões (teoricamente, às vezes, quem sabe) produtivas. No entanto, mesmo nestas circunstâncias, ainda há seleção parcial de informação. Pensemos, por exemplo, na Wikipédia: é uma ferramenta colaborativa, mas que depende de um processo detalhado para “aprovar” as informações, que passa por editores, longas discussões e muita pesquisa. Isso tudo faz sentido, já que, né, é uma enciclopédia. A variedade de editores e o sistema de páginas de discussão supostamente descentraliza o poder de controle da informação, já que é um grupo diverso. Entretanto, esse grupo não é, na verdade, tão diverso assim: em 2011, a Wikimedia Foundation anunciou que só 9% dos editores ativos da Wikipédia eram mulheres. NO-VE POR CENTO. SÓ N O V E P O R C E N T O. Este sistema que se diz comunitário e igualitário mas que vem com uma carga enorme de desigualdade dá margem para uma série de problemas, de censura a vinganças à manipulação do site para fins pessoais.

Façamos agora, então, um pequeno exercício de imaginação: é 2115, a internet ainda existe, mesmo que em outras formas. Os historiadores estão pesquisando a vida de 100 anos atrás – 2015 –, procurando compreender os costumes, as preocupações da vida mundana, os assuntos políticos recorrentes, as pessoas de destaque. O que eles vão encontrar? Os blogs com pontos de vista dissidentes, os tweets revolucionários, os posts que dão visibilidade a vozes estruturalmente apagadas? Ou, como os historiadores de hoje fazem com a vida de cem anos atrás, focarão no conhecimento curado e definido pelos detentores do poder, mesmo que um poder aparentemente diferente, e ignorarão a existência dos subalternos, dos colonizados, dos grupos oprimidos, considerando-os, no máximo, assunto de curiosidade, uma peça interessante de arqueologia cibernética que causará frisson por no máximo dois dias? É mais provável que encontrem fotos do Channing Tatum sem roupa ou de casos abafados de violência policial?

Para não terminar o texto nessa nota tão pessimista, vamos pensar em como mudar essa situação. Vamos publicar cada vez mais nossas ideias, vamos criar novas fontes legítimas de conhecimento, vamos equilibrar o poder, vamos fazer edit-a-thons de Wikipédia, criar revistas, insistir na validade dos meios de comunicação ainda considerados ilegítimos. Vamos recuperar nossa história e criar um arquivo de memórias mais completo e realista para aqueles que ainda virão.

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sotersofia@gmail.com'

Sobre Sofia

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora, tradutora e editora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.