Reunião de cúpula


Texto: Paloma Engelke

Era um parque. Muita grama, um lago bonito, tempo não muito quente e um sol preguiçoso. Se fosse um espaço real, com certeza estaria fervilhando de gente deitada, crianças correndo e famílias fazendo piqueniques. Mas o que é real, e o que não é? No nosso parque, existem apenas quatro pessoas, é uma cena curiosa.

Três figuras de tamanhos diferentes, sentadas, em um triângulo, e no meio uma quarta figura, muito pequena, quase um pacote. O pacote se chacoalha, mas não chora. Todas as figuras se parecem.

A figura menor usa lápis de olho na linha d’água, tem as pontas do cabelo vermelhas, um all star muito encardido e rabiscado e uma blusa baby look do Nirvana. Do lado, um livro de Machado de Assis. O ontem.

A figura intermediária tem cabelo curto, óculos grandes, tatuagem na perna, um vestido solto e chinelo. As pernas cruzadas e, balançando na rede formada pelo vestido no vão entre as pernas, um leitor de livros digitais. O hoje.

A terceira parece mais relaxada. Calça jeans, blusa branca. Algo sobre ela não parece tão nítido quanto as outras, mas está ali. O amanhã.

As três encaram a quarta, que agora segura os próprios pés e parece não se importar muito com nada, ainda. Pudera. O início.

O Amanhã olha para todas como se soubesse de tudo. O Ontem parece à beira de uma crise de ansiedade. O Hoje começa a falar como se sua vida dependesse disso, a maior parte das coisas que saem da sua boca não faz muito sentido, mas ela continua falando.

— Quando é que eu aprendo a calar a boca? — no fim, ela acaba perguntando diretamente ao Amanhã, que ri.

— Quando chegar a hora.

— Quando é que eu aprendo a falar tanto? — rebate o Ontem.

— Quando você sente que precisa. — é a vez do Hoje responder.

O silêncio volta. Até o Hoje abrir a boca de novo.

— Isso é muito estranho, sabe? Porque eu conheço vocês.

— Conhece mesmo? — o Amanhã provoca.

Você, talvez não. Mas eu conheço ela. — aponta para a menor.

— Será?

O Ontem acompanha a conversa com os olhos.

— Eu já estive lá, eu lembro como é. Eu sei como ela se sente.

— Tudo que você sabe é uma interpretação distorcida por uma pilha de reflexões pretensiosas que você juntou no meio do caminho. Na vida real, você não faz ideia do que ela realmente sente sobre nada.

— E não vai ajudar se eu contar pra ela algumas dessas reflexões?

— O que você acha que vai acontecer com você e comigo se você contar qualquer coisa pra ela? Você não sabe nem se ela vai reagir como você acha que reagiria. Tudo o que você disser pode mudar tudo. Já parou para pensar nisso?

— Isso quer dizer que você também não vai me contar nada?

— Exatamente.

— E se eu decidir que vale a pena contar?

— Você acha que vale?

— Não.

— Então eu não preciso responder à sua pergunta.

— O que fazemos, então?

— Nada.

— Por que colocaram a gente aqui?

— Algumas coisas a gente não tem como saber até que esteja tudo acabado.

— Qual o sentido disso tudo?

— Mesmo que eu saiba, você vai se divertir muito mais refletindo sobre isso do que se eu te contar.

O silêncio de novo, e então o Início chora. Cada vez mais alto, até que o barulho é insuportável e o mundo começa a escurecer e se enevoar. A mãe entra no quarto e pega a filha do berço. O choro para rapidamente quando o calor humano se encosta na bochecha, e a voz sussurrada diz que está tudo bem.

 

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paloma.engelkemuniz@gmail.com'

Sobre Paloma Engelke

Paloma Engelke é carioca de nascença, advogada porque a vida quis, leitora e escritora porque sim, mas em geral ainda busca seu lugar ao sol. Vive no mundo da lua e se dá muito bem com os vizinhos, mas de vez em quando desce aqui e ali para dar uns alôs.