Retas coincidentes: a literatura e a realidade como um só lugar.


Texto: Amanda Tracera // Arte: Gabriela Amorim

 

Não raro, os livros – a arte de maneira geral, mas especialmente a literatura – são recomendados por se tratarem não de um passatempo; uma porta para análise do mundo; uma distração momentânea que cumpre a função de divertir tanto quanto a TV, porém de um jeito menos prejudicial; mas sim de uma espécie de trem que nos carrega para longe do que é real, do que é palpável. Esse hábito – o de sentar e ler – é associado a uma fuga do concreto: ler é viajar, é estar longe, é desbravar mundos novos.

Embora não se possa negar esse viés claro da literatura como ponte para outro lugar – longe, possivelmente melhor, onde tudo eventualmente se resolve –, é importante perceber o quão prejudicial pode ser também essa visão da leitura como um afastamento do que é, mal ou bem, o “mundo real”. Ainda que personagens, cenários, fatos e enredos se desenvolvam como algo que está dentro da nossa imaginação, nenhuma produção criativa está realmente distante do mundo físico, seja ela elaborada ou não.

Os gêneros literários podem variar muito – da não-ficção, onde é evidente o peso do real dentro da narrativa, até a fantasia ou a distopia, onde a mente do autor é livre para falar de acidentes a nível mundial e magos poderosos –, mas seus autores ainda são pessoas reais, que imprimem em seus livros, ainda que inconscientemente, ideias do mundo onde estão inseridos, e a partir do qual se submetem a uma série de valores éticos, morais, comportamentais, econômicos, etc. Assim, não se pode enxergar sua obra para além desse contexto – ainda que falem sobre dragões e sobre sociedades novas –, para além dessas influências.

Sempre vi a leitura como uma forma de compreender melhor o lugar onde estou inserida, ainda que ela se refira a ele de maneira metafórica, fantasiada. Desde o fim da ideia da “arte pela arte”, desde a revolução moderna no campo das ideias acerca da produção (principalmente poética, mas de inegável ricochete na narrativa), desde a construção de um pensamento que visa a arte como um mecanismo de denúncia e de expressão da sociedade, acreditei que ler era a maneira mais fácil de ver além da minha caixinha, de entender o ambiente que me molda mas, mais importante, o que molda os outros longe de mim.

Durante muito tempo falei que lia porque não conseguia mais aguentar o peso da realidade – queria fugir para outro mundo, parar de encarar o meu. O gênero fantástico não se tornou o meu favorito por motivos outros senão a completa inserção de elementos que jamais fariam parte do meu cotidiano, e, portanto, serviam como pequenas rotas de fuga. Entretanto, conforme as leituras se tornaram mais frequentes, percebi que tudo é uma montagem bem elaborada que revela e, às vezes, critica o lugar onde estou constantemente imersa. As obras que eu estava lendo – que ainda leio – são reflexos confusos do mundo real, e não mapas vocabulares para mundos novos. Ao contrário do que me pareceu inicialmente, o “real” e o “literário” não eram retas paralelas que jamais se cruzariam, mas retas coincidentes, sobrepostas o tempo inteiro.

Essa mudança de perspectiva foi o que me permitiu entender a literatura como uma maneira de salvar o meu mundo, mais do que de enxergá-lo de modo mais simples, mais claro, até mais caricato. O que nos livros muitas vezes era preto no branco – bom versus mau, amor versus ódio, leis versus pena –, fora deles era confuso, misturado, cheio de pontos cegos. Aquela visão binária, eu pude perceber, não era suficiente para resolver a vida real. Em tempos de extremismo, de “lados” tão bem delimitados quanto atualmente, esse tipo de percepção, advinda do ato de ler, me permitiu conhecer de antemão os negativos de tomar para si um “time”; me preparou para, em situações de conflito direto, aprender a ouvir e a entrar em consenso.

Da mesma forma, quanto mais elaborada uma narrativa – quanto mais personagens cinzentos, mais distorções de valores éticos, mais torcidas pelo vilão, etc. –, mais aprendi sobre construção social, sobre a influência de um ambiente na formação do caráter, sobre tornar-se parte do meio porque essa é a única saída possível. Aprendi a relativizar os conceitos petrificados de “bom” e “mau” não porque acredito na defesa absoluta e no direito de impunidade de quem cometeu erros, mas porque entendi, através da literatura, como esse alguém é moldado – é vitimizado, eu poderia dizer, talvez – pela sua história social.

Enxergar os livros como uma espécie de “escape” para um lugar melhor se tornou, assim, impossível. Mais do que a via que me levaria, antes, para longe da minha realidade, para um plano menos problemático e de “respostas simples”, o hábito da leitura se tornou uma estrada que me faz passar exaustivamente pelas intempéries do meu universo material concreto, seja ele a pobreza humana, a mente distorcida, a sede por poder, as guerras em defesa de ideais próprios, a exploração, as noções morais que servem ao dinheiro, não importa. A literatura deixou de ser o meu foguete para outros planetas – e essa visão, para mim, se tornou um problema porque parece tirar da arte e da escrita – mesmo da mais simples – a responsabilidade de retratar a verdade.

Não à toa exijo livros que falem sobre pessoas que existem – que tenham personagens femininas sérias, ou personagens queer, ou mesmo personagens negros; que tratem de dramas reais vividos por esses grupos “de minoria” na sociedade; que abranjam uma gama social extensa e verdadeira porque, quando não o fazem, apagam um grupo inteiro, ignoram sua existência. Não à toa quero dramas que sejam elaborados e aprofundados, dilemas mentais, hesitações e medos com os quais seja possível se relacionar. Não à toa procuro livros que não neguem essa influência do mundo real, porque é exatamente a partir desse mundo que eles se estruturarão, não importa o quão transgressores ou inventivos sejam seus enredos. Existe uma responsabilidade com o que é concreto, ainda que ela não esteja, talvez, estampada na capa dos jornais.

É preciso manifestar-se sobre a literatura levando em consideração o que ela é: um espelho. Incentivar o hábito de leitura porque ele incita os questionamentos e a empatia, enfatiza a necessidade do debate, incentiva a imaginação necessária para resolver conflitos. Ler é entrar em contato com o que se faz presente para além do livro, depois dos piratas e das fadas, entre uma linha e outra dos escolhidos para salvar o mundo e devolver ao estado crítico a democracia e a voz do povo. É um exercício constante de se autoconhecer e de compreender o que nos molda, nos habilita, nos faz existir dentro de um cenário específico. Como um professor recentemente disse, literatura serve pra gente ter as respostas que a gente não tinha antes de ler. A fuga não sana questões – só a permanência o faz.

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Sobre Amanda Tracera

Apaixonada pelo Rio de Janeiro, pela Disney, por sotaques e por material de papelaria. Antiga aspirante à jornalista, atual estudante de Letras, sem nenhuma ideia do que fazer no futuro e com um número assustador de listas, fandoms e informações inúteis nas costas.