“A resistência”, Julián Fuks


Texto: Milena Martins

71-cfxB52tLHá algo perturbador sobre famílias. Talvez seja o excesso de expectativa, talvez seja o excesso de coisas não ditas. Talvez ambos.

Em A resistência, Julián Fuks conta a história de uma família argentina que vem para o Brasil fugindo da ditadura e da repressão. Os pais são perseguidos políticos e veem a necessidade de deixar o país, mesmo que o Brasil não represente um lugar assim tão seguro. São três os filhos: um adotado, dois biológicos. É o filho mais novo que narra o livro e desde o começo nos apresenta seu dilema: Meu irmão é adotado, mas não posso e não quero dizer que meu irmão é adotado. Sebastián, então, passa a rememorar a história de sua família desde seus pais, ainda jovens estudantes de medicina em um país que para o narrador nunca conseguiu representar casa.

É engraçado ler um livro sobre ditadura em 2016. Vivemos tempos muito distantes, é verdade. Ainda assim, era diferente ler um livro sobre ditadura há uns anos atrás. Era como no colégio: tudo aconteceu há tanto tempo, tudo é tão imaginário. Parecia que as grandes tragédias eram uma abstração do passado. O que nos interessa os detalhes? O que muda se soubermos a vida pequena das pessoas em meio a esse caos? É exatamente isso que se pergunta o narrador, ao que pai dele responde: as ditaduras podem voltar, você deveria saber.

As ditaduras podem voltar, as tragédias podem se repetir, toda a marcha da história de marcha não tem nada. E em meio às alternâncias de tranquilidade e caos, é nos detalhes insignificantes de uma vida em família que se percebe onde a história dói: na gente e em quem está ao nosso lado.

O livro alterna e mistura suas grandes questões. De um lado, o drama de um filho que não se percebe compreendido dentro daquela família; do outro, os outros membros que dizem querer alcançá-lo, mas já não sabem como fazê-lo. E em meio a tudo isso, o trauma de ter que deixar o próprio país e a facilidade com que essa família se instala em uma nova vida, distante da ideia de resistir.

É diferente ler um livro sobre ditadura em 2016 porque parece que atingimos novamente os limites do absurdo. Ultrapassamos as fronteiras da história novamente. Não somos mais os que assistem os filmes históricos, estamos mais uma vez em meio à ação. E como isso é assustador. Como a ideia de resistência parece menos óbvia, um objetivo mais difícil a se atingir. Isso também aparece em A resistência. Os pais resistem. Querem e devem resistir. Nem ir nem ficar, aprender a resistir. Mas a resistência real é bem mais bonita nos livros de história e bem mais dolorida quando dói na gente. E é isso que assusta, a possibilidade de ficar. Ou ir.

O livro de Júlian Fuks, além de tratar bem desse tema, consegue construir com fidelidade os dramas de uma família extremamente real, e justamente por isso perturbadora. Famílias costumam ser romantizadas ao extremo, mas quando chegamos na nossa casa para o nosso almoço de domingo real, costuma sobrar mágoa. É engraçado o quanto de culpa pode caber mesmo em um ambiente cheio de amor. Famílias são mesmo perturbadoras.

Todo o relacionamento descrito no livro – seja entre irmãos, seja entre pais e filhos – está repleto sim de amor e preocupação. Ainda assim, é interessante o quanto de expectativa sobra entre eles, e o quanto de culpa. Eu não fui o irmão que deveria, você não foi o irmão que deveria. Você não disse o que eu precisava ouvir, você disse demais.

Vivo me perguntando – do alto dos meus 22 anos – se quero ter filhos, se quero formar uma família, seja ela como for. Ainda não encontrei nenhuma resposta definitiva, a não ser a que estava entre as páginas desse livro: Ter um filho há de ser, sempre, um ato de resistência. […] Mais um modo de se opor à brutalidade do mundo.

Há algo perturbador sobre as famílias. Claro que parte está no fato de que entre todas elas, terrivelmente felizes ou não, sempre há dor. Mas o mais assustador é que em meio a isso tudo, uma família é sempre uma tentativa de resistir ao caos do resto do mundo.

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Sobre Milena Martins

Milena tem 23 anos, é carioca da gema e paulistana em treinamento. O chapéu seletor gritou Lufa-lufa antes de encostar na cabeça. Estuda Letras e gosta mesmo é de falar de livros e divas pop. Continua não fazendo a menor ideia do que está fazendo com a sua vida, mas gosta de fingir que sim.

  • João Carlos Viegas

    Comecei a ler o romance e estou achando tão chato. Embora seja uma história do meu interesse, penso em abandonar a leitura no meio.